Crítica

Crítica: Menines

O título do espetáculo “Menines” é indicativo dos novos tempos. O “e” da última sílaba, ao invés de designar meninos ou meninas, engloba todas as possíveis identidades de gênero sem privilegiar ou excluir nenhuma. É sobre isso a nova peça de Marcia Zanelatto (de “Ela” e “Ocupação Rio Diversidade”), dividida em esquetes e números musicais que tensionam e questionam a tradicional dicotomia de gênero, que há muito não satisfaz mais as necessidades sociais. A montagem, dirigida por Zanelatto em parceria com Cesar Augusto (de “A Tropa”), conta com música ao vivo e um elenco formado por jovens atores, em geral desconhecidos, o que contribui com o frescor da bandeira levantada.

(Foto: Renato Mangolin)

Toda a encenação tem um caráter lúdico, de jogo, sinalizado já pela primeira cena, em que os atores pulam elástico. O elenco, formado por oito artistas, incluindo a convidada especial Simone Mazzer (de “Lá Dentro Tem Coisa”), tem como base um figurino preto simples, como uma “roupa de ensaio”, sobre a qual eles colocam outras de acordo com as necessidades de cada esquete. Assinados por Maria Duarte, os figurinos desempenhem um papel importante para a temática da peça e quase sempre subvertem os padrões heteronormativos e apostam em opções neutras ou não-binárias, por vezes também sublinhando a ideia de que roupa não tem gênero. A cenografia é mais um contorno do palco do que qualquer outra coisa (a ficha técnica fala em “espaço cênico”, assinado por Cesar Augusto e Beli Araujo), de modo que a direção busca saídas criativas para ambientar cada esquete. O elástico, por exemplo, não tarda a aludir a uma mesa de jantar. Neste aspecto, a iluminação de Adriana Ortiz perde a chance de fazer a diferença, bem menos criativa.

Os textos de Marcia Zanelatto são independentes e se encerram em si mesmos. Todas as cenas confrontam, de alguma maneira, a construção cultural do que é masculino e feminino, de homem e de mulher, e apontam possibilidades diferentes. No esquete “Em Família”, um pai maternal e uma mãe paternal discutem sobre a ida dos filhos adolescentes a uma festa, opondo-se com naturalidade à ideia de que os garotos podem tudo e as garotas não podem nada. Em “Casal Grávido”, a discussão é sobre as cores do quarto de um bebê sobre o qual não se sabe “o sexo”, o que dialoga sem querer com a polêmica da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (Marcia Zanelatto jura que o esquete foi escrito há anos, antes desse episódio constrangedor). Há também cenas mais informativas, e não menos divertidas, como a que mostra William Shakespeare confrontando a lei que impedia mulheres no palco, travestindo uma atriz de homem, e outra que apresenta a história do sapato de salto e da peruca, tudo com intuito de fazer a plateia refletir sobre o senso comum. Os caminhos são inteligentes, mas o tema se repete, porque são várias cenas avulsas que, na realidade, querem dizer o mesmo de distintas maneiras. Reiterar pode entediar.

O elenco defende muito bem a dramaturgia, que é também uma causa. O coletivo passeia com veracidade pelas nuances de masculino e feminino, construindo algo novo, misturado, irrestrito e libertário. Dentre os atores, está Bruno Maria Torres, o ator desmontado por trás da drag queen Magenta Dawning, que foi personagem-chave em “Ocupação Rio Diversidade”, espetáculo anterior de Marcia Zanelatto. Completam o time Agnes Lobo, Elisa Caldeira, Ian Belisario, Maíra Garrido (de “O Anti-Musical”), Zane e Pedro Marquez, que tem carisma especial. Maíra também assina a direção musical (com Luiza Toledo), protagonizando com Simone Mazzer a maior parte das interpretações das canções, em geral irrelevantes no todo.

Ficha técnica

Texto: Marcia Zanelatto
Direção: Cesar Augusto e Marcia Zanelatto
Diretor assistente: Pedro Uchôa
Consultoria intelectual: Prof. Guilherme Almeida
Elenco: Agnes Lobo, Bruno Maria Torres, Elisa Caldeira, Ian Belisario, Maíra Garrido, Pedro Marquez e Zane
Atriz convidada: Simone Mazzer
Direção Musical: Luiza Toledo e Maíra Garrido
Espaço Cênico: Cesar Augusto e Beli Araujo
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurinos: Maria Duarte
Direção de Movimentos: Lavínia Bizzotto
Visagismo: Marcio Mello / Espaço Rio e Bruno Maria Torres
Programação Visual: Thiago Ristow
Fotos: Renato Mangolin
Vídeo e Teasers: Bruna Leal
Conteúdo para Transmídias: Bruna Leal e Marcia Zanelatto
Mídias Sociais: Marina Rattes
Assistência de Produção: Glauco Deris
Produção Executiva: Renata Campos
Direção de Produção: Juliana Mattar
Idealização: Marcia Zanelatto
Realização: Transa Arte e Conteúdo
Apoio Cultural: Teatro Firjan Sesi
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 40. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 14 de abril. Teatro Firjan SESI Centro – Avenida Graça Aranha, 1 – Centro. Tel: 2563-4163.

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