Crítica: Meu Destino É Ser Star – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Meu Destino É Ser Star

A produtora teatral Aventura Entretenimento é ousada: junta repertório de musicais e jingles em um espetáculo, adapta filme de comédia romântica e salpica com músicas de Rita Lee, e une drama shakesperiano com canções de Marisa Monte no palco. Dando continuidade a série de riscos, a novidade é “Meu Destino É Ser Star”, musical que se apropria do catálogo de Lulu Santos para contar uma história metalinguística sobre atores de musicais disputando papéis em uma grande produção. O espetáculo tem a assinatura do diretor Renato Rocha (o mesmo de “Ayrton Senna – O Musical”), que divide os créditos do texto com Diego De Angeli (de “Cidadela”) e Leandro Muniz (de “A Vida Não É Um Musical – O Musical”).

(Foto: Caio Gallucci)

O ponto alto do musical é seu elenco, com destaque para a atriz Jéssica Ellen (de “Pineal – Ritual Cênico”), uma revelação no teatro musical, unindo belamente ótima atuação e uma voz apaixonante. Uma feliz surpresa! A trama tem diferentes núcleos. Um dos principais é formado por Jéssica, Gabriel Falcão (de “Les Misérables”) e Myra Ruiz (de “Wicked”). Eles compõem um triângulo amoroso. Há ainda os divertidos Helga Nemeczyk (de “Noviças Rebeldes”) e Victor Maia (de “Ayrton Senna – O Musical”), que formam uma dupla com química e cumplicidade, e entre os coadjuvantes estão o recém-premiado Mateus Ribeiro (protagonista de “Peter Pan”), Carol Botelho (de “Peter Pan”), Marina Palha (de “S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal”), Ana Elisa Schumacher (de “Chacrinha – O Musical”) e Leonardo Senna (de “Ayrton Senna – O Musical “), este último com oportunidades menores.

Os personagens têm os mesmos nomes dos atores. Na história, Helga é uma diretora de teatro que está montando o musical que sempre sonhou, mas ainda não encontrou o elenco perfeito. Victor é o coreógrafo da produção e a ajuda nas audições, junto com a produtora Ana. Gabriel, um astro reconhecido, é o único nome confirmado, pois foi convidado pela diretora. Também uma estrela, Myra é sua esposa e quer passar no teste para que eles possam trabalhar e viajar o Brasil juntos em turnê. No dia da audição, no entanto, aparece Jéssica, que Helga conheceu em um barzinho e convenceu a ir até lá. Jéssica, no caso, foi a última namorada da Gabriel antes de ele conhecer Myra. Os dois terminaram porque Jéssica decidiu tentar a vida em Nova York, deixando-o para trás. Ao reverem-se, os sentimentos ficam confusos. Arma-se aí um conflito entre os três. Carol, Mateus e Marina também são atores e buscam um lugar ao sol. Carol é uma menina crua, que quer provar ao pai (Leonardo) que pode ser bem sucedida na carreira que escolheu. Mateus é um atrapalhado, que fala demais, e quer conquistar Carol (sem saber que outra pessoa é apaixonada por ele). Marina, competitiva, gosta de causar intrigas e fazer comentários maldosos: aquela pessoa tão bad vibe que se torna cômica. Esses três também apresentam construções seguras de seus personagens.

(Foto: Caio Gallucci)

Então, na dramaturgia, existem duas escalas de objetivos: um coletivo (levantar o musical da diretora, para o qual todos passam no teste) e os individuais dos personagens, que podem ser pessoais ou profissionais. O fio condutor é sobre a criação do espetáculo, mas as questões de cada um impregnam o processo e criam ramificações. Muitas ramificações, em geral, rasas. O conflito do triângulo amoroso é resolvido mais facilmente do que se arma. Há ainda uma subtrama de bissexualidade, apresentada en passant. No segundo ato, todas as subtramas são resolvidas em uma sequência de cenas muito fracas, com transições bruscas entre si. O texto, na verdade, é a maior fragilidade de “Meu Destino É Ser Star”. Há ainda alguns equívocos graves. No primeiro ato, entende-se que Jéssica havia ido para Nova York (e usam os versos “não vá para Nova York, amor, não vá” para expressar isso em uma cena). No segundo ato, a personagem canta que vai para a Califórnia, porque o roteiro quer usar os versos “vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star” da música “De Repente, Califórnia”. Basta dizer que Nova York e Califórnia ficam em extremos opostos nos Estados Unidos. Fora isso, os atores confundem o nome de Carol no palco, ora chamando-a de Carolina, ora chamando-a de Caroline. Isso é péssimo.

As músicas do Lulu Santos, em sua maioria grande sucessos, entram na dramaturgia sem critérios. Na maioria das vezes, não colaboram com a história e são desperdiçadas. A lírica de Lulu Santos é muito potente na criação de imagens no imaginário do ouvinte. Cada composição traz uma história. No espetáculo, essas mesmas músicas conseguem não significar absolutamente nada. São usadas de maneira avulsa na criação de números espetaculares, com exibicionismos vocais (direção vocal de Felipe Habib) e coreográficos (de Victor Maia) que pouco comunicam dramaturgicamente. Há sequências de coreografias lindas e desafiadoras, mas sobressalentes. Além disso, diálogos descartáveis são inseridos apenas para criar situações para a entrada das músicas, por exemplo com o personagem de Mateus convidando os colegas para um happy hour simplesmente para que o roteiro pudesse usar a música “Sábado à Noite”. Outro caso, um diálogo de Jéssica e Gabriel diz exatamente o que eles acabaram de cantar, como se o número musical não bastasse. No segundo ato, as canções estão mais amarradas à dramaturgia, e o problema acaba sendo sua má condução referente à interpretação da letra por parte dos atores. Arrasar na extensão vocal não pode se sobrepor à dramaticidade da cena, senão é só um show.

(Foto: Caio Gallucci)
(Foto: Caio Gallucci)

A direção musical é de Zé Ricardo, que utiliza três músicos no palco, e transforma alguns arranjos icônicos do astro pop brasileiro, sem com isso tornar as canções irreconhecíveis. É fácil perceber algumas pessoas cantando baixinho na plateia. Há ainda uma cena que se aproxima da performance, em que a banda acompanha um candidato de verdade em uma audição real no meio do espetáculo. As pessoas se inscrevem previamente e são testadas no palco, cantando alguma música de Lulu na frente de todo mundo. Caso o repertório varie muito, mais um desafio para os profissisonais.

Para “Meu Destino É Ser Star”, o cenógrafo André Cortez criou um cenário com quatro estruturas de dois andares, com prateleiras de utensílios domésticos. Cada estrutura traz os utensílios monocromáticos: uma é verde, outra é rosa e por aí vai. A história, contudo, acontece à revelia da cenografia a maior parte do tempo. O cenário pouco ou nada ajuda a compor a maior parte da trama. A iluminação de Renato Machado segue a proposta espetacular das coreografias, sempre que possível escurecendo o cenário ao fundo. Os figurinos de Bruno Perlatto proporcionam algumas trocas para os atores: são, na maior parte, roupas de ensaio coloridas. Já para a cena final, a do tão aguardado espetáculo que os personagens constroem, os figurinos são cafonas e pavorosos, e não dão a menor noção do que seria esse musical que se ouviu falar o tempo inteiro. “Meu Destino É Ser Star” não ornou.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Caio Gallucci)

Ficha técnica:
Texto – Diego De Angeli, Leandro Muniz e Renato Rocha
Direção – Renato Rocha
Elenco: Jéssica Ellen, Myra Ruiz, Gabriel Falcão, Helga Nemeczyk, Victor Maia, Carol Botelho, Marina Palha, Mateus Ribeiro, Ana Elisa Schumacher e Leonardo Senna.
Direção Musical e Arranjos – Zé Ricardo
Direção vocal – Felipe Habib
Direção de Movimento e Coreografia – Victor Maia
Cenário – André Cortez
Figurino – Bruno Perlatto
Desenho de luz – Renato Machado
Desenho de som – Carlos Esteves
Produção de elenco – Marcela Altberg

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 18h. R$ 40 a R$ 110 (sex); R$ 50 a R$ 150 (sáb); R$ 50 a R$ 140 (dom). Classificação: livre. Até 24 de fevereiro. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38 – Centro. Tel: 3554-2934 / 2533-8799.

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