Crítica

Crítica: Moléstia

Você e seu marido acolhem em sua casa o amigo recém-saído da prisão, finalmente inocentado após dois anos de cárcere acusado de estuprar uma adolescente. Graças a influência do seu pai político na cidadezinha interiorana, arrumam um emprego para o hóspede como professor na escola católica da região. Um dia, seu filho autista aparece com sinais de ter sido violentado. De quem você desconfia?

Você é a madre superiora do colégio religioso e nota que um dos alunos têm marcas no corpo e repentinamente se torna introspectivo. Ele também desenha um Jesus Cristo excitado. A criança foi molestada. Ela mora com os pais e com um dos professores da escola, que chegou à cidade há pouco tempo. De quem você desconfia?

Você saiu da prisão e se mudou para a casa de um casal de amigos, criando ali uma tensão sexual, porque você já teve experiências sexuais com os dois. Eles têm um filho autista, não lidam bem com isso, e você rapidamente cria um laço com a criança, suprindo-lhe uma lacuna familiar. Certo dia, todos te acusam de ter abusado do garoto. Você, no entanto, lembra de uma madrugada em que flagrou o pai relapso saindo do quarto do filho. De quem você desconfia?

(Foto: Divulgação)

A riqueza de perspectivas é o grande trunfo de “Moléstia”, espetáculo escrito por Herton Gustavo Gratto (de “Sujeito a Reboque”) e dirigido por Marcéu Pierrotti (de “Hamlet & Laertes”). A trama gira em torno da chegada de Cadu à casa do casal Breno e Mabel, pais do pequeno Thiago. A dramaturgia fragmentada avança e recua no tempo para revelar detalhes das relações individuais e coletivas entre esses personagens até a explosão da bomba: a criança foi abusada. Quem é o culpado? O que fazer com o culpado? Mabel é filha do prefeito, a um mês da eleição que pode lhe reeleger, e a família não pode ser envolvida em um escândalo desse. O conflito de interesses e de preocupações é gritante entre todos os envolvidos.

A dramaturgia traz para o teatro um tema caro à sociedade – o abuso sexual de crianças e, principalmente, por pessoas conhecidas. As estatísticas comprovam que a maioria dos casos (o assunto ainda é tabu, então essa violência ainda é subnotificada) acontecem dentro das próprias famílias. É um assunto indigesto. O texto de Herton sabiamente conduz a história introduzindo gradualmente o conflito. A peça abre alguns caminhos aparentemente gratuitos, mas que contribuem para a complexificação da situação-limite dos personagens na reta final. O desfecho, aliás, é surpreendente.

A montagem tem boas qualidades também. Há certa precariedade na luz de Fernando Nicolau e pouca elaboração nos figurinos de Ticiana Passos, mas a direção ganha ao trazer uma câmera com transmissão ao vivo para um telão como um novo elemento para a cena. O elenco, formado por Ciro Sales (de “Galáxias I: Todo Esse Céu É um Deserto de Corações Pulverizados”), Camila Moreira (de “O tempo e os Conways,”), Deborah Figueiredo (de “Salém”) e Felipe Dutra, manuseia o dispositivo durante todo o espetáculo, como um quinto olhar. Talvez o do menino abusado, que não tem voz no texto. O público, deste modo, constrói a própria narrativa, escolhendo se olha para os atores em sua frente ou para detalhes da transmissão audiovisual. Além disso, algumas cenas acontecem nas laterais e atrás da plateia, construídas praticamente para a câmera, e o público as assiste pela tela grande. O hibridismo de linguagens artísticas impera. É uma concepção inteligente, valorizando a pluralidade de perspectivas propostas pela dramaturgia e a liberdade criativa na utilização de todo o espaço disponível.

Fora o telão, o cenário – assinado pelo próprio diretor – é muito simples ( composto apenas por uma mesa e quatro cadeiras) e funcional. A cenografia é base para o trabalho de atores, que formam, desformam e transformam o cenário de acordo com as necessidades de cada cena. É bastante bretchiana a encenação. O elenco está sempre no palco, mesmo que não em cena. Ora olhando, ora segurando a câmera e conduzindo o olhar de quem assiste pela tela. No início do espetáculo, há ainda certa artificialidade nos atores – aqui não exatamente um mérito, mas que reforça a quebra da ilusão. O desempenho dos artistas melhora a medida que aumenta a tensão entre os personagens. A reta final é maravilhosa.

“Moléstia”, infelizmente, encerra sua temporada nesta segunda, sem previsão de novas apresentações.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Dramaturgia: Herton Gustavo Gratto
Direção: Marcéu Pierrotti
Supervisão cênica: Eleonora Fabião
Supervisão plástica e visual: Livia Flores
Assistência de direção: Filipe Leon
Elenco: Ciro Sales, Camila Moreira, Deborah Figueiredo e Felipe Dutra
Ator stand in: Marcéu Pierrotti
Figurino: Ticiana Passos
Iluminação: Francisco Rufino
Produção executiva: Olívia Vivone
Realização: Otimistas artes e projetos e Marcéu Pierrotti

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SERVIÇO: sex, sáb e seg, 21h; dom, 20h. R$ 40. 50 min. Classificação: 14 anos. Até 6 de maio. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n – Copacabana. Tel: 2547-7003.

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