Crítica: Molière – Uma Comédia Musical – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Molière – Uma Comédia Musical

“Molière – Uma Comédia Musical” promove o encontro cênico de Matheus Nachtergaele (de “Processo de Conscerto do Desejo”), Renato Borghi (de “O Rei da Vela”) e Georgette Fadel (de “Entrevista com Stela do Patrocínio”), só para citar alguns nomes do elenco. E ainda tem direção de Diego Fortes (de “O Grande Sucesso”). Foi dele o Prêmio Shell de melhor texto (em São Paulo) no ano passado. Em “Molière”, além da direção, ele também assina a adaptação, que ganha canções de Caetano Veloso. Todas essas credenciais tornam o espetáculo muito atraente. Mas tem mais.

(Foto: Divulgação)

A peça, escrita pela mexicana Sabina Berman, se passa em Paris do século XVII e acompanha o duelo entre os dramaturgos Molière e Racine – de um lado a comédia e do outro a tragédia – na corte de Luis XIV, o Rei Sol da França. Eles disputavam a soberania artística no reino, o que na prática significava a preferência do rei, que permitia acesso a regalias como dinheiro e bons teatros. A história é contada em flashback, retomando ao primeiro encontro dos dois autores. Racine, ainda desconhecido, busca Molière, já consagrado, para oferecer uma tragédia para montagem. Mas os dois pensam e têm interesses muito distintos e a parceria não emplaca. O jogo vira quando Racine se associa ao arcebispo e escreve uma peça por encomenda para influenciar o comportamento do rei, que cai como um patinho e troca de dramaturgo predileto. Quando Molière escreve uma peça sobre um arcebispo hipócrita, que assedia uma mulher casada e manipula os que estão à sua volta, tem que lidar com o sufocamento e a perseguição às artes. Seu teatro é incendiado pelos fiéis, incitados pela Igreja. Racine ascende, com todo tipo de honraria.

O texto se conecta perfeitamente com tudo que o Brasil e, mais especialmente o Rio de Janeiro (com um prefeito-bispo), vive com essa onda de moralismo e criminalização da arte e dos artistas. A peça mostra como a linguagem artística pode servir ao poder ou confrontá-lo. Molière e Racine, os personagens centrais, fazem opções de vida distintas e colhem as agruras e glórias decorrentes disso. Também como podemos notar por aqui.

Diego Fortes concebe uma “França tropicalista” em sua montagem, não apenas pela trilha sonora executada ao vivo, com direção musical de Gilson Fukushima, mas também pelos figurinos divertidos e coloridos de Karlla Girotto e pela atuação do elenco de 14 atores. Fora isso, ele torna complexa a relação palco-plateia, diluindo as fronteiras. O espetáculo começa com uma grande farra, bem Molière, com atores surgindo da plateia rumo ao palco. A metalinguagem proposta pela peça, com trechos de apresentações de Molière e Racine, ao estilo “peça dentro da peça”, é replicada também na encenação, com “o público vendo o público”. O espectador está sempre assistindo às reações do rei e do arcebispo, localizados em um camarote, parte do cenário. A cenografia de André Cortez, com dois andares e passeios entre a realidade e a fantasia, tem um quê de circense – também presente nos figurinos – criando grandes momentos com relativamente pouco. A iluminação de Beto Bruel e Nadja Naira é muito bem utilizada neste sentido.

Contudo, “Molière – Uma Comédia Musical” dura mais de duas horas e o tempo é sentido. A linguagem cômica, resgatada em sua essência, é abobada por mais tempo do que o tolerável, sobretudo no início do espetáculo, que é mais arrastado. São muitas piadinhas e gestuais tolos, que cansam e desviam a atenção da discussão proposta. A trama também demora a caminhar. Fica mais interessante quando o confronto entre Molière e Racine ganha o panorama institucional como pano de fundo. Os personagens são interpretados carismaticamente por Matheus Nactergaele, o Molière, e Elcio Nogueira Seixas (de “Fim de Jogo”), o Racine. Grandes atores! Renato Borghi faz o arcebispo, em ótima atuação, personificando o fascismo. Georgette Fadel interpreta o irmão de Racine, que vai trabalhar com o líder religioso: é um bufão. Outra ótima atuação! Entre os destaques do elenco, há ainda Nilton Bicudo (de “Myrna Sou Eu”) como o rei e Luciana Borghi (de “Na Casa do Rio Vermelho – O Amor de Zélia e Jorge”) na pele da mulher de Molière e da mãe do rei – essa segunda personagem especialmente engraçada. Todo o elenco funciona como uma trupe cativante. Bom espetáculo.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Texto: Sabina Berman
Tradução: Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi
Adaptação: Diego Fortes e Luci Collin
Direção: Diego Fortes
Elenco: Matheus Nachtergaele, Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas, Nilton Bicudo, Rafael Camargo, Luciana Borghi, Georgette Fadel, Regina França, Marco Bravo, Débora Veneziani, Edith de Camargo, Fábio Cardoso, Beatriz Lima, Renata Neves, Thomas Marcondes
Assistencia de direção: Carol Carreiro
Cenografia: André Cortez
Figurino: Karlla Girotto
Direção Musical: Gilson Fukushima
Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira
Fotos: Eika Yabusame, Jamil Kubruk, Luísa Bonin, Paulo Uras
Mídias Sociais: Bliss Comunicação e Cultura
Produção Executiva: Jamil Kubruk
Direção de Produção: Camila Bevilacqua e Fioravante Almeida
Coordenador de Produção: Luís Henrique Daltrozo (Luque)
Produção: Lady Camis e Daltrozo Produções
Idealização e Execução: Teatro Promíscuo e Flo Produções

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 18h. R$ 60. 120 min. Classificação: Até 2 de setembro. Teatro Adolpho Bloch – Rua do Russel, 804 – Glória.

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