Crítica

Crítica: MPB – Musical Popular Brasileiro

Novidade no Rio de Janeiro, “MPB – Musical Popular Brasileiro” enfileira canções conhecidas, de artistas nacionais de diferentes épocas, para contar uma história irrisória e risível. Com texto de Enéas Carlos Pereira e Edu Salemi (dupla de “Ataulfo Alves – O Bom Crioulo”), dirigido por Jarbas Homem de Mello (de “Constellation”), o espetáculo usa uma trama frágil como desculpa para trabalhar o repertório popular. Na história, um diretor decadente é contratado por uma multinacional para criar um musical em uma semana, com objetivo de agradar os executivos gringos que chegarão ao país. A ideia é mostrar para os turistas o que o Brasil tem de melhor. O argumento não é nada impressionante – na verdade, um clichê. Inclusive, houve algo parecido em 2017, com “Rio Mais Brasil – O Nosso Musical” (a diferença é que, ao invés de um musical, a trama mostrava a criação de um filme sobre o Brasil).

(Foto: Robson Trindade0

A dramaturgia de Enéas e Edu abre muitos caminhos e deixa pontas soltas e mal trabalhadas. Há um romance avulso entre o diretor e a maior atriz de musicais do país; uma advogada de olho na carreira artística; paralelamente ao plano terrestre, dois anjos caídos que tentam entrar no céu; o coma do diretor, que o leva ao encontro desses anjos no portão do céu; mensagens sociopolíticas sobre racismo e feminismo salpicadas à gosto; e conflito geracional entre o diretor, preso a estereótipos realmente ultrapassados, e a advogada, com frescor da pauta contemporânea. Com tantas abas abertas, nenhuma engata de verdade. O grande acerto é o resgate da linguagem do teatro de revista, escolhido pelos idealizadores do projeto. Ali, entre maiôs brilhosos, muito humor e grande quantidade de músicas em sequência, a dramaturgia se acomoda e fica digerível para a maioria das pessoas. Cada cena é como um esquete cômico – alguns razoáveis, outros nem tanto.

O elenco principal é formado por Negra Li (de “Jesus Cristo Superstar”), como a diva dos musicais contratada para o projeto relâmpago; Reiner Tenente (de “Cantando na Chuva”) e Danilo de Moura* (de “Rio Mais Brasil – O Nosso Musical”) como os anjos caídos; Marcelo Góes (de “O Palhaço e a Bailarina”) como o diretor decadente; Dagoberto Feliz (de “Palhaços”) como o produtor; e Vivian Albuquerque (de “A Madrinha Embriagada”) como a advogada aspirante a diretora. Os melhores personagens são os anjos, ainda que prescindíveis na história, e a advogada, que propiciam maiores oportunidades para seus intérpretes. Reiner e Danilo divertem mesmo com piadas bobas e Vivian é enorme no palco, ditando o ritmo de todas as cenas em que está presente. Negra Li, que é o destaque nas fotos e pôsteres de divulgação do espetáculo, na verdade tem uma personagem bastante rasa, que serve apenas de escada para os colegas de cena. Cumpre sua função.

Como o título indica, o repertório do espetáculo é todo de sucessos da MPB. As canções convidam o público a cantar junto, em vários momentos. O problema é que, se a peça tenta vez ou outra discutir clichês e estereótipos, a seleção musical não é lá muito criativa. A tentativa de criar um caldeirão que represente a diversidade nacional se afunda em lugares comuns. É um repertório essencial, sem grandes surpresas. O grande acerto, neste quesito, são os pot-pourri, que agrupam versos de várias músicas na criação de diálogos originais para os personagens. Neste ponto, a direção musical e os arranjos de Miguel Briamonte são notáveis.

A concepção cênica de Jarbas Homem de Mello explora o espaço vertical, diante da limitação horizontal. Os atores sobem e descem em escadas e andaimes do cenário criado por Marco Lima e existe também um “segundo andar” – para o elenco ao fundo do palco (onde fica “o céu”) e para os músicos nas laterais. Ajuda a contar a história que vai e volta de plano astral o tempo todo. O musical também aposta em grande pluralidade de figurinos, praticamente um diferente para cada entrada do ensemble. Eles são assinados por Fabio Namatame, nome disputado na cena paulistana, mas o resultado aqui deixa a desejar. Os figurinos parecem de baixa qualidade em sua grande maioria. Na história, o diretor é contratado para criar esse musical quando estava trabalhando em uma escola de samba de segundo escalão. Os figurinos de “MPB – Musical Popular Brasileiro” seguem essa estética carnavalesca, coerentemente, e também parecem todos saídos do desfile de uma agremiação de baixo orçamento.

O espetáculo se sairia melhor se sua apresentação tivesse menos acidentes de percalço. Na sessão assistida, houve falhas na iluminação criada por Fran Barros, ora deixando atores sem holofotes ora iluminando atores errados; falhas na sonoplastia; e falhas em diversos microfones, tornando inaudíveis artistas no meio das músicas. O elenco teve que rebolar. Oscar Fabião (de “Vamp – O Musical”) conseguiu contornar o problema em dada cena, emitindo sua voz mais em volume mais alto, mas quando os instrumentos eram tocados isso era impossível. Além disso, atrizes se esbarraram em coreografias, evidenciando que o palco é pequeno para tanta gente e tantos adereços, e uma integrante se estabacou durante um número musical na reta final. As coreografias de Kátia Barros, em geral, engrandecem o espetáculo e o tornam mais bonito, mas dependendo do tamanho dos figurinos em cena, os atores ficam atrapalhados com o espaço muito limitado.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Erik Almeida/Divulgação)

Ficha técnica

Texto: Enéas Carlos Pereira e Edu Salemi

Concepção Geral e Direção: Jarbas Homem De Mello

Elenco: Negra Li, Reiner Tenente, Danilo de Moura, Marcelo Góes, Dagoberto Feliz, Vivian Albuquerque, Carol Tanganini, Leilane Teles), Mariana Barros, Nina Sato, Eduardo Leão, Leandro Naiss, Oscar Fabião, Sophie Dalamancco, Débora Polistchuck, Lucas Becerra, Rodrigo Fernando e Leonardo Rocha.

Direção Musical e Arranjos: Miguel Briamonte

Direção de Movimentos e Coreografia: Kátia Barros

Cenografia: Marco Lima

Adereços: Luis Rossi

Iluminação: Fran Barros

Figurinos: Fabio Namatame

Visagismo: Dicko Lorenzo

Design de Som: Tocko Michelazzo

Coordenação de Produção: Valdir Archanjo e Bira Saide

Idealização, Produção e Realização: ViaCultura – Renata Ferraz e Silvio Ferraz

Assessoria de Imprensa: Oribá Soluções Criativas

Fotos: João Caldas

Patrocínio: BB Seguros

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 105 min. Classificação: 12 anos. Até 9 de setembro. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.

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