Crítica

Crítica: Navalha na Carne

Peça famosa de Plínio Marcos (1935-1999), “Navalha na Carne” já teve diversas montagens desde sua estreia em 1967. A mais nova é assinada por Gustavo Wabner (de “Sambinha”) e presta homenagem à Tônia Carrero, que protagonizou a primeira montagem no Rio. No mesmo papel imortalizado por ela, o da prostituta Neusa Sueli, agora está sua neta Luisa Thiré (de “Feliz Por Nada”), em atuação premiável.

(Foto: Alexandre Nunis)

Acompanha o espetáculo uma exposição de fotos com a trajetória de Tônia no teatro, ampliando a experiência do espectador. Antes da apresentação, o público assiste também a um curta documental que contextualiza o que significou para a atriz fazer “Navalha na Carne” naquela época. É uma peça violenta, densa, visceral e foi a oportunidade para que Tônia se despisse da vaidade e mostrasse que era mais do que uma beleza estonteante. Na história, a prostituta Neusa Sueli divide o quarto de uma pensão com Vado, o gigolô que ela ama apesar de maltratá-la com agressões físicas e verbais. A dramaturgia é cheia de cenas incômodas de violência explícita. Infelizmente, o texto ainda é muito atual.

A trama começa ao amanhecer, quando Neusa Sueli volta de uma noite inteira na rua e é recebida da pior maneira por Vado. Ele a agride sem se dar ao trabalho de apontar uma causa. Por fim, reclama que ela não deixou o dinheiro para que ele se divertisse (com sinuca e maconha) – o que fica claro ser uma obrigação diária dela. Neusa se defende e diz que deixou sim, na mesinha de cabeceira, como sempre, e que a única pessoa que pode ter roubado é Veludo, o faxineiro da pensão. Ela desconfia dele, porque viu um garotão saindo de seu quarto e acredita que Veludo o pagou para ter o que queria: sexo. Vado dá uma surra nele até ouvir a confissão – com uma forcinha de Nueli e sua navalha. Ainda é relativamente o início da peça e já existe ali violência doméstica, machismo, exploração sexual, roubo, homofobia, depreciação e relacionamento tóxico entre personagens marginalizados. Os atores apresentam atuações espetaculares. Luísa Thiré é densa e profunda em cada gesto de sua personagem. Você fica curioso para saber o que Neusa Sueli está pensando. Alex Nader (de “Caranguejo Overdrive”) segura sem instabilidade o alto nível de crueldade de seu papel, Vado, do início ao fim do espetáculo – o que não é uma missão fácil. Se é difícil ver, imagine fazer. Ranieri Gonzalez (de “Krum”), como o afetado Veludo, dá mais uma prova de seu excelente trabalho. Sua construção de um gay afeminado não cai na caricatura e é muito convincente. O público ri do que Veludo diz ou faz, não do que ele é, e isso tem grande importância.

Toda a trama se desenrola dentro do quarto de Neusa Sueli e Vado. A concepção cênica delimita as fronteiras desse espaço (com as paredes do ótimo cenário de Sergio Marimba), o que reforça a panela de pressão que se torna o dia da prostituta e seu explorador. O lugar ser pequeno e haver uma pia e um varal dentro do quarto aumentam – para o espectador – a noção do estresse que é estar ali. Os figurinos de Marcelo Marques e o visagismo de Rose Verçosa sublinham a decadência de quem tenta disfarçá-la com alguma vaidade. A trilha sonora brega comunica muito sobre aquele universo, e a iluminação de Paulo Cesar Medeiros é condizente com um ambiente interno. Excelente montagem de “Navalha na Carne”! Não perca.

(Foto: Victor Hugo Cecatto)

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Texto: Plínio Marcos
Direção: Gustavo Wabner
Elenco: Luísa Thiré, Alex Nader e Ranieri Gonzalez
Cenário: Sergio Marimba
Figurino: Marcelo Marques
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Sueli Guerra
Preparação vocal: Ana Frota
Visagismo: Rose Verçosa
Fotografia e design: Victor Hugo Cecatto
Vídeo: Carlos Arthur Thiré, Marcelo Duque e Luísa Thiré
Direção de produção: Celso Lemos
Supervisão de Produção: Norma Thiré
Assessoria de Imprensa: Barata Comunicação
Idealização: Luísa Thiré

Comentários

comments