Crítica: Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo

Se estivesse vivo, o cantor e compositor Antônio Gonçalves Sobral – mais conhecido como Nelson Gonçalves – completaria 100 anos de idade em 2019. Seu centenário é comemorado com a estreia do musical “Nelson Gonçalves – O Amor e o Tempo”, escrito por Gabriel Chalita (de “Hortance, a Velha”) e dirigido por Tânia Nardini (de “Nuvem de Lágrimas”). Falecido em 1998, Nelson se consagrou como o segundo maior vendedor de discos da história do Brasil, com mais de 80 milhões de cópias comercializadas, atrás apenas de Roberto Carlos. O número provavelmente não será ultrapassado nunca mais, dadas as novas formas de consumo de música.

(Foto: Dan Coelho)

“Nelson Rodrigues – O Amor e o Tempo” busca um caminho diferente para homenagear o ícone da MPB. Não se trata de uma biografia, como já foi feita no espetáculo “Metralha” em 1996 com Diogo Vilela (de “Cauby! Cauby!”). O novo musical é uma viagem romântica por seu repertório a partir de uma ficção que coloca em conflito sua razão e sua emoção. No palco, dois atores interpretam uma dualidade entre o amor, personificado no personagem de Guilherme Logullo (de “Pippin”), e o tempo, personificado no papel de Jullie (de “A Noviça Rebelde”). Isso dá a liberdade para o autor imaginar e criar diálogos e cenas sem compromisso com fatos reais, apresentando cenas belíssimas, ainda mais poéticas e sofisticadas pela visão da diretora.

Enfileirando canções neste confronto binário, os personagens de vez em quando apresentam fatos avulsos sobre a história de Nelson Gonçalves, que tornam o roteiro mais atrapalhado. O arco dramático do amor e do tempo não é claro: é difícil compreender para onde o argumento inicial avança ou até mesmo se existe uma trama para ser avançada. Quando episódios da biografia do retratado são inseridos, rompe-se com a narrativa ficcional sem ganhos. Ao tentar satisfazer expectativas de um mínimo biográfico, o espetáculo perde a oportunidade de mergulhar fundo em um formato totalmente diferente das costumeiras biografias musicais. Apresentado na peça, o episódio real dos presidiários quererem aumentar um dia de suas próprias sentenças para conseguir diminuir o tempo da pena de Nelson Gonçalves na cadeia é lindo, mas supérfluo dentro da proposta dramatúrgica. Com linhas cruzadas, o musical, que é curto e dura somente 70 minutos, parece ter mais tempo, porque o espectador nunca sabe em que ponto da história realmente está.

Guilherme Logullo, idealizador do espetáculo, e Jullie estão firmes, convincentes e totalmente imbuídos de seus personagens. Ele, passional; ela, austera. As coreografias e direção geral de Tânia Nardini optam acertadamente pela máxima de que “menos é mais”. O espetáculo é bastante sóbrio. Há sim uma inegável aparência de show – no elegante cenário de Doris Rollemberg; na iluminação de Renato Machado, que em momentos pontuais se abre para a plateia; nas trocas dos sofisticados figurinos vintage de Fause Haten; e até mesmo na disposição da banda, com a sempre boa direção musical de Tony Lucchesi. Apesar disso, esse é um musical que valoriza muito a representação dos atores. É muito valioso prestar atenção em detalhes – pequenos gestos e expressões sutis – e isso é raro em espetáculos deste segmento. Na sessão assistida, Jullie, em dado momento, se emocionou e é muito significativo o momento em que a razão cede à emoção.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica

Um musical idealizado por Guilherme Logullo e Gabriel Chalita

Direção e coreografia: Tânia Nardini

Roteiro: Gabriel Chalita

Elenco: Guilherme Logullo e Jullie

Coordenação Artística: Guilherme Logullo

Cenografia: Doris Rollemberg

Figurinos: Fause Haten

Direção Musical: Tony Lucchesi

Direção de Produção: Jenny Mezencio

Assistência de direção e movimento: Nadia Nardini

Visagista: Diego Nardes

Design de Som: Gabriel D’Angelo

Design de Luz: Renato Machado

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h30. R$ 50 a R$ 80 (sex), R$ 70 a R$ 100 (sáb e dom). 70 min. Classificação: livre. Até 24 de fevereiro. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2274-9696.

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