Crítica: Nerium Park – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Nerium Park

“Nerium Park” é a segunda peça do dramaturgo espanhol Josep Maria Miró montada no Brasil. A primeira foi “O Princípio de Arquimedes”, um suspense sobre a culpa ou inocência de um professor de natação acusado de pedofilia com um dos alunos. A nova peça, que também não fornece respostas e aqui ganha direção de Rodrigo Portella (de “Tom na Fazenda”), acompanha a derrocada da relação, do psicológico e do modelo de vida comprado por um casal de jovens de classe média. Eles são os primeiros moradores de um condomínio afastado do centro da cidade, tido como “perfeito”, com piscina e parque para crianças. Mas, com a crise econômica e o aumento do desemprego, a imobiliária não consegue vender os outros imóveis e o local se torna um condomínio-fantasma, deixado de lado. Ilhados, marido e mulher começam a discutir, porque aquela não é a vida que eles tinham idealizado, e tudo piora quando ele é dispensado de seu emprego. Ela, por sua vez, trabalha no RH de outra empresa e se vê demitindo vários funcionários. Vivendo lados diferentes da mesma crise, o casal não se entende e não se reconhece mais. Para completar, surpreendentemente, um terceiro morador – nada convencional – surge no condomínio…

(Foto: Renato Mangolin)

É um texto para dois atores, no caso Rafael Baronesi (de “Baal”) e Pri Helena (de “Antes da Chuva”). Eles dão vida ao casal. O terceiro morador é uma alegoria apenas mencionada, catalisadora de tensões e aflições entre os protagonistas. É um personagem não visto, embora cheio de ações e importantíssimo. Só quem o vê, na verdade, é o marido. A mulher o evita e sabe dele tanto quanto a plateia. Cabe aos dois atores, então, tocar essa história de três. Toda essa trama se desenrola no intervalo de 11 meses, com poucos interlúdios entre cenas, marcando a passagem de tempo. Há algo entre o texto e a direção que, infelizmente, não acontece. O thriller proposto na dramaturgia não alcança a plateia: o espectador percebe de forma indiferente e distante a mulher com medo e assustada enquanto o marido age de forma estranha. O suspense não envolve. É só dela. Com isso, o espetáculo perde muito. O último ato da personagem resulta descompassado.

O texto, no início, não ajuda também. Há muitos não-ditos pelos personagens – mais do que o tolerável para despertar curiosidade. Resulta enfadonha as voltas que marido e mulher dão para se comunicarem. Perde-se muito tempo nisso, e não recupera-se. Por sua parte, Rafael Baronesi e Pri Helena não convencem como casal recém-mudado para um apartamento novo. Falta química e verdade, o que prejudica o andamento da trama. Talvez para tornar mais interessante, a concepção cênica utiliza algumas marcações que quebram propositalmente com o realismo, com ações e movimentos incomuns. A cenografia, assinada por Julia Deccache e Rodrigo Portella, também se afasta do realismo: é um cômodo vazio, que vai sendo preenchido ao longo da encenação com diversos vasos de plantas, cada vez maiores, lixo e terra. Portella repete o artifício de “Tom na Fazenda” de contaminar os atores de cenário, com um banho de terra em Baronesi – uma referência a uma fala do texto, sobre virar vegetal. O “nerium” do título é um gênero botânico. Mas não orna. É como se a peça pedisse uma leitura mais realista para valorizar seu suspense e dar credibilidade às preocupações da mulher. Falta a tensão inerente à linguagem do gênero.

O contraste entre marido e mulher, como uma gangorra emocional, é demarcado pelas cores e pela transformação dos figurinos ao longo da história. Trabalho criativo de Ticiana Passos. Outro ponto positivo do espetáculo é a iluminação de Paulo César Medeiros, que cria sombras e a sensação de luz solar invadindo a residência. A trilha sonora de Marcelo H., desta vez, não é notável. Apesar da importância dos temas abordados – crise econômica, desemprego, saúde mental, projeto de família – o espetáculo não atinge suas melhores possibilidades.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Renato Mangolin)

Texto: Josep Maria Miró
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Rafael Baronesi e Pri Helena
Tradução: Daniel Dias da Silva
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha Sonora: Marcelo H.
Cenário: Julia Deccache e Rodrigo Portella
Figurino: Ticiana Passos
Programação Visual: Raquel Alvarenga
Divulgação em mídias Sociais: Egídio La Pasta
Preparação Corporal: Lu Brites
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Assistência de produção: Ana Luiza Pradel
Assistência de direção: Mariah Valeiras
Direção de Produção: Rogério Garcia
Idealização e produção: Rafael Baronesi
Realização: Dingão Produções e Usina D’Arte Produções Artísticas

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 50. 100 min. Classificação: 16 anos. Até 10 de setembro. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n – Copacabana. Tel: 2332-7904.

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