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Crítica: Nós – Teatro Sesc Ginástico

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23ª montagem do Grupo Galpão, “Nós” tem assinatura do diretor Marcio Abreu (de “Krum”) na direção e na dramaturgia, dividida com o ator Eduardo Moreira (de “De Tempos Somos”). O espetáculo estreita a relação entre cena e público. Para a temporada de estreia no Teatro Sesc Ginástico, a produção reconfigurou o mapa de assentos, levando os espectadores a se sentarem no palco, que é redimensionado. Em cena, os atores fazem de verdade caipirinha e sopa, que são servidas para o público. Em dado momento, a fronteira entre palco e plateia é totalmente quebrada para uma grande festa. O formato, sem dúvidas, é interessante. O quão legal é você ver os ingredientes sendo picados, a sopa sendo feita, e depois tomar com os personagens? Uma experiência e tanto.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

O espetáculo trata das relações humanas e, portanto, políticas. Preconceito, intolerância e violência são alguns dos temas pelos quais os diálogos perpassam. O fio condutor é a reunião de sete personagens para “a última sopa”. O texto e a encenação são carregados de analogias e metáforas, abertas para as mais variadas interpretações. Não é difícil correlacionar o que se vê com o noticiário envolvendo Eduardo Cunha e Dilma Rousseff, ambos afastados de seus cargos em meio à crise política. Não por acaso “Ódio à Democracia” (de Jacques Ranciere) é uma das leituras que serviram de referência para a concepção de “Nós”. Em determinada parte da peça, a personagem de Teuda Bara (de “Os Gigantes da Montanha”) é escorraçada da casa de forma agressiva, apesar de sua resistência. A atriz, aliás, merece elogios: está esplêndida.

É interessante como as cenas, familiares, traçam paralelo com questões maiores e mais amplas: a história cíclica, estagnada, que não avança por sempre esbarrar nos mesmos conflitos. Tudo é construído com muita perspicácia, explorando a linguagem da performance, e com preocupação também com a plasticidade. É um espetáculo e tanto, com elenco de alto nível, formato arrojado e conteúdo necessário. Uma bagunça organizada.

Falar de cenário, diante da experiência que se tem desde que se entra no teatro, é pouco. Mas a cenografia é assinada por Marcelo Alvarenga, que proporciona belíssimos momentos, com nuances, junto com a luz de Nadja Naira e os figurinos de Paulo André. Os efeitos sonoros de Felipe Storino também são sofisticados. “Nós” é teatro da melhor qualidade.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Marcio Abreu e Eduardo Moreira
Elenco: Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Teuda Bara
Cenografia: Play Arquitetura – Marcelo Alvarenga
Figurino: Paulo André
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e Efeitos Sonoros: Felipe Storino
Assistência de Direção: Martim Dinis e Simone Ordones
Preparação musical e arranjos vocais/instrumentais: Ernani Maletta
Preparação vocal e direção de texto: Babaya
Colaboração artística: Nadja Naira e João Santos
Assistência de Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Cenografia: Thays Canuto
Cenotécnica e construção de objetos: Joaquim Pereira e Helvécio Izabel
Operação e assistência de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Cleo Magalhães
Confecção de figurino: Brenda Vaz
Técnica de Pilates: Waneska Torres
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Fotos do programa: Fernando Lara, Gustavo Pessoa e Guto Muniz
Imagens escaneadas: Tibério França e Lápis Raro
Registro e cobertura audiovisual: Alicate Conteúdo Audiovisual
Projeto gráfico: Lápis Raro
Design web: Laranjo Design (Igor Farah)
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Produção: Grupo Galpão

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SERVIÇO: qua a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). 90 min. Classificação: 16 anos. Até 10 de julho. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.

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