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Crítica: Nuvem de Lágrimas, o Musical – Oi Casa Grande

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É a junção de “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen (1775-1817), com as músicas de Chitãozinho e Xororó que define o musical “Nuvem de Lágrimas”, estrelado pelos cantores Lucy Alves e Gabriel Sater. A proposta é ousada e pretensiosa, mas o resultado é superficial e previsível. É um espetáculo meloso, como se pode deduzir, que aparenta ter a missão de inserir o máximo de canções possíveis da dupla sertaneja: 30 ao todo.

(Foto: Otavio Dias)

(Foto: Otavio Dias)

A dramaturga Anna Toledo (de “Vingança”) diz que o texto é livremente inspirado na obra britânica de 1813, mas 100% brasileiro. Ela adaptou a história para o interior do Brasil, o que embasa em parte sua afirmação, e trocou alguns nomes. Elizabeth Bennet virou Bete Borba, por exemplo. Mas Darcy continuou Darcy. Na trama, ela é uma caipira batalhadora, que lidera o negócio familiar e, nas horas vagas, se apresenta com a irmã Jane em formato de dupla sertaneja. Elas conhecem os amigos Carlinhos Jardim (Mr. Bingley, no livro), por quem Jane se apaixona, e Darcy, por quem Bete pega rápida antipatia – embora fique claro desde o início que eles terminarão juntos. São as diferenças sociais (preconceito) e as relações familiares (orgulho) que marcam os obstáculos até o final feliz. Um clichê com o qual o público já está acostumado.

As músicas de Chitãozinho & Xororó entram tanto em formato de show (das irmãs Borba) quanto na boca dos personagens. “Fio de Cabelo”, “Se Deus Me Ouvisse”, “Alô”, “Tristeza do Jeca”, “Galopeira”, “Rancho Fundo”, “Beijinho Doce”, “Evidências”: estão todas lá, algumas muito forçosamente. O espetáculo não consegue minimizar a sensação de algumas cenas foram escritas apenas para inserir esse repertório, e são uma paródia de si mesmas. Por outro lado, como a dramaturgia é muito rasa, são os números musicais que dão um mínimo de ânimo. Alguns derrapam na adaptação para o teatro musical, mas, no geral, são satisfatórios, exatamente o que se espera deles. Os atores cantam acompanhados de nove músicos, e a direção musical é de Carlos Bauzys (de “O Homem de La Mancha”).

O elenco é formado por 23 atores, sendo nove no núcleo principal e os demais no coro. Na sessão assistida, Luciana Pandolfo (de “O Grande Circo Místico”) substituía Lucy Alves, e defendeu bem o papel. Mas há alguns problemas aqui. Erika Altimeyer é a única que se demonstra confortável em seu papel, da irmã nariz em pé de Carlinhos. É a parte cômica da peça, e ela segura. Os demais estão apáticos e mecânicos. É difícil se envolver com os casais apaixonados, que não imprimem essa paixão. O texto não colabora, mas faltou uma melhor direção de atores, também.

Os diretores Tania Nardini (de “Rent”) e Luciano Andrey (ator de “Priscilla, Rainha do Deserto”) criam “momentos”. Cada música é como um clipe, em termos de ambientação cênica e coreografias (da própria Tania), prontos para serem apresentados independentemente, fora do musical, e ainda assim fazerem sentido. Em contrapartida, minúcias ficam de lado. A superficialidade da dramaturgia é transpassada para a encenação. Se as canções não fossem hiperpopulares, o espetáculo ficaria muito comprometido.

Os cenários de Paulo Corrêa se apoiam em um painel de fundo (que não mostra muito mais do que nuvens), com elementos que entram e saem para caracterizar cada ambiente. É básico, por vezes precário, mas funcional. Os figurinos, de Fábio Namatame, delimitam as diferenças sociais dos personagens de forma estereotipada: os ricos estão sempre em ternos, mesmo em momentos privados, e os pobres mal vestidos, ainda que em ocasiões especiais. O mais esdrúxulo, no entanto, acontece na cena de uma festa na fazenda da família rica: os convidados trajam figurinos que parecem saídos da corte do Brasil monárquico ou imperial – e não do campo, do interior, em uma realidade mais atual. Nem a referência a “Orgulho e Preconceito” torna a cena menos deslocada. Pelo menos, ela tem o cenário mais elaborado de todo o musical.

“Nuvem de Lágrimas” é puro entretenimento, para quem gosta de música sertaneja e é fã de Chitãozinho & Xororó. Caso contrário, não se justifica. São 140 minutos de duração, divididos em dois atos: pode ser maçante.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Otavio Dias)

(Foto: Otavio Dias)

Ficha técnica

Texto: Anna Toledo
Diretora e coreógrafa: Tania Nardini
Diretor e produtor: Luciano Andrey
Diretor musical: Carlos Bauzys
Elenco: Lucy Alves, Gabriel Sater, Luciana Pandolfo, Adriana Del Claro, Blota Filho, Rosana Penna, Marcelo Várzea, Letícia Maneira Zappulla, Sérgio Dalcin, Erika Altimeyer, Fabio Augusto Barreto, Jaqueline Brambilla, César Pezzuoli, Carol Dezani, Giovana Cirne, Otávio Zobaran, Pamela Machado, Paulo Ocanha Jr., Janaína Bianchi, Gabriel Stauffer, Tinho Zani, Vanessa Rodrigues, Wilson Feitosa Jr.
Produtora executiva: Tatiana Véliz Lobos
Engenheiro de som: Fernando Fortes
Iluminador: Ney Bonfante
Figurinista: Fabio Namatame
Cenógrafo: Paulo Correa
Assistente de direção: Tatiana Toyota
Assistente de coreografia: Gisele Gonçalves
Direção musical associada: Daniel Rocha

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SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 17h e 21h30; dom, 19h. R$ 50 a R$ 170. 140 min. Classificação: livre. De 13 até 29 de maio. Oi Casa Grande – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 3114-3712.

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