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Crítica: O Bigode – Teatro Glauce Rocha

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O escritor e cineasta francês Emmanuel Carrère publicou o livro “O Bigode” (La Moustache) em 1986 e estreou sua adaptação cinematográfica no Festival de Cannes em 2005. Desde o início de março, os cariocas podem ver também a primeira adaptação teatral do mundo, sob os cuidados do Grupo LUPA. A história é um thriller psicológico de fio condutor aparentemente insignificante: após anos usando bigode, Marc decide raspá-lo, mas ninguém nota a mudança. Ao contrário disso, todos agem como se ele nunca tivesse usado bigode, o que o deixa muito angustiado e inquieto. É o início da crise de identidade do personagem, que não consegue mais dormir bem, trabalhar, nem ter paz em casa, com constantes brigas com a mulher. Precisa reconhecer-se na visão dos outros.

(Foto: Aline Macedo)

(Foto: Aline Macedo)

No início, Marc acredita que sua esposa Agnes está lhe pregando uma peça ao fingir que não notou a transformação. Ela, afinal, é conhecida por sustentar brincadeiras e mentiras absurdas por bastante tempo. Mas a verdade é que os amigos dele tampouco reparam a mudança. Será que ela armou com eles? Todos são firmes: nunca o viram de bigode. Marc começa, então, a duvidar da própria sanidade, enquanto tenta recolher provas de como ele era. Briga com a mulher, faz as pazes, desconfia da lucidez dela, tenta levá-la ao psiquiatra e por fim marca uma consulta para si mesmo. Antes de ir, porém, tem um estalo: e se sua esposa e seu colega de trabalho estiverem mancomunados em uma conspiração contra ele? São amantes, é isso!

Como se vê, a história é intrigante. Começa cômica e aos poucos se torna tensa em detrimento do humor. A adaptação teatral resulta ainda mais insana que o livro por ser narrada pelo próprio Marc. Na obra de Carrère, têm-se acesso ao fluxo de pensamentos do personagem, mas na 3ª pessoa. Na dramaturgia de Ricardo Leite Lopes (de “O Desenforcamento de Tiradentes”), não há intermediário entre ele e o público. A plateia é conduzida por seus questionamentos e suas teorias. Se ele tem razão ou não, ninguém sabe, mas seu processo de enlouquecimento é visível, e isso é muito rico. O ator Vicente Coelho (de “Silêncio!”), protagonista da peça, está no tom certo, capaz de criar empatia com o público, sem abandonar o distanciamento necessário para dar espaço à desconfiança. João Lucas Romero (de “Como a Gente Gosta”) e Dulce Penna (de “Apenas o Fim do Mundo”) completam o elenco com harmonia cênica.

A direção é de Eduardo Vaccari (de “Essa Chuva Que Não Passa”), que aposta na “síntese de elementos cênicos”, o que dá ao público alguns momentos de leveza no thriller. A maneira como a cama do casal é representada faz rir nas primeiras vezes, assim como as viagens de barco de Marc, representadas com um aquário em cena. Com essa economia de objetos, o cenário de Carla Ferraz é um acerto, bonito e funcional, com uma estrutura de estantes usada de diferentes maneiras, e transformações causadas com a luz de Vitor Emanuel. Ao público que não tem a informação da publicação do livro nos anos 1980, telefone com fio e disco em vinil ajudam a situar a trama no tempo.

O espetáculo é bem amarrado, e só se arrasta um pouco na parte do protagonista em Hong Kong (sem mais detalhes, senão é spoiler): perde-se o ritmo e o dinamismo com as cenas pacatas e solitárias. Em decorrência da fidelidade ao livro, há também algumas repetições que tardam o avanço da trama. Os pontos altos são os momentos em que Marc é confrontado com a realidade (a realidade dita por sua mulher, ao menos). O choque dele acaba sendo também o do espectador. Para quem gosta de sair do teatro com a pulga atrás da orelha, essa é a pedida. Ele tinha bigode antes ou não?

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Aline Macedo)

(Foto: Aline Macedo)

Ficha técnica
Autor: Emmanuel Carrère
Adaptação: Ricardo Leite Lopes
Direção: Eduardo Vaccari
Elenco: Vicente Coelho, Dulce Penna e João Lucas Romero
Cenário e Figurinos: Carla Ferraz
Iluminação: Vitor Emanuel
Trilha Sonora Original: Arthur Ferreira
Programação visual: Evee Avila e Fernanda Guizan – Balão de Ensaio
Direção e Execução de Produção: Paula Valente e Rubi Schumacher – Curiosa Cultural
Realização: LUPA e Alessandra Reis 27 Produções Artísticas

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SERVIÇO: qua a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 40. 80 min. Classificação: 16 anos. De 5 até 27 de março. Teatro Glauce Rocha – Avenida Rio Branco, 179 – Centro. Tel:2220-0259.

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