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Crítica: O Capote – CCBB

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A temporada de “O Capote”, com direção de Yara de Novaes (atriz de “Contrações”), no CCBB terminou, mas merece registro. É impressionante como o conto homônimo de Nikolai Gogol (1809-1852), que serve de base para a dramaturgia, se mantém atual dois séculos depois. O conto é de 1842, mas se comunica sem delay com a sociedade contemporânea. Basta trocar o capote por um iPhone, por exemplo. O texto trata dessa alienação consumista, da obrigação de ter sempre o mais novo, e da associação do poder de consumo com algum status social no mundo capitalista. Há uma fala específica que diz, com outras palavras, que é a ambição que legitima a vida: o esforço para se adquirir um objeto de consumo vitaliza o ser humano.

(Foto: Cristina Granato)

(Foto: Cristina Granato)

A trama se passa no frio rigoroso de São Petesburgo, na Rússia do século XIX. Seu protagonista é o escrevente Akaki, brilhantemente interpretado por Rodolfo Vaz (de “Salmo 91”), funcionário de uma repartição pública, que passa os dias copiando documentos à mão. Ele leva uma vida pacata e confortável até que os colegas de trabalho passam a zombar de seu velho casaco com buracos e remendos. Seu capote, essa espécie de sobretudo mais pesado, é como um trapo e, da mesma maneira, tratam Akaki: como um trapo. Se fosse hoje, seria bullying. O que acontece é que ele se vê pressionado – obrigado mesmo – a comprar um capote novo, o que está além de suas finanças. Ele chega a ficar sem comer para juntar dinheiro. Quando efetua a compra, há uma reviravolta na história: todos passam a vê-lo e tratá-lo como alguém melhor, convidando-o para rodinhas de conversas e eventos sociais. Akaki se torna uma pessoa popular por ter um capote novo.

Neste ponto, a adaptação é de uma genialidade que merece palmas. Inicialmente, Drauzio Varella transformou o conto de Nikolai Gógol em monólogo, mas o dramaturgo Cássio Pires (de “Mergulho”) inseriu dois narradores na peça – papeis de Rodrigo Fernan e Marcelo Villas Boas (de “Sit Down Drama”). Eles que guiam os passos e as falas de Akaki a maior parte do tempo. O personagem só desfruta do poder de contar a própria história, sem intervenções, quando se torna um consumidor. Antes disso, é quem tem capote novo que tem voz.

A direção de Yara de Novaes se sai bem em detalhes e analogias, mas a opção por ter uma pianista no palco durante toda a encenação não se justifica. Há uma cena em que Akaki canta – uma letra ótima, aliás – e esse é um bom momento, mas em geral a música ao vivo pouco ou nada agrega. Na sessão assistida, o ator Rodolfo Vaz teve que lidar com um espectador inconveniente brincando de adivinhar o fim dos versos, e soube contornar a situação com jogo de cintura. O elenco, que já fez temporadas nos CCBB de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, é mais do que afiado. Os três sabem exatamente o que estão fazendo, e sabem que o fazem bem.

O cenário, a princípio muito claramente o escritório da repartição pública, se transforma simplesmente com a retirada de mobiliária, atendendo às mudanças de ambientação da trama. A iluminação desenha os contornos do que é interior e exterior, com projeções de videoarte. Os figurinos, por fim, são condizentes com sua importância para o fio narrativo do espetáculo, que infelizmente não tem previsão de volta à cidade.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Cristina Granato)

(Foto: Cristina Granato)

Ficha Técnica

Autor: Nikolai Gogol.
Adaptação: Drauzio Varella.
Dramaturgia: Cássio Pires.
Direção: Yara de Novaes.
Elenco: Rodolfo Vaz, Rodrigo Fregnan e Marcelo Villas Boas.
Musicista: Sarah Assis.
Cenografia e figurinos: André Cortez.
Trilha sonora e música original: Dr.Morris.
Vídeo arte e design de projeção: Rogerio Velloso.
Criação de luz: Bruno Cerezoli.
Visagismo: Leopoldo Pacheco.
Arte e projeto gráfico: Lápis Raro.
Fotografia: João Caldas.
Produção: Oitis Produções Culturais
Produção executiva : Rose Campos

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