Crítica: O Cego e o Louco – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: O Cego e o Louco

Com temporada curtinha e uma sala de somente 50 lugares, a montagem de “O Cego e o Louco” dirigida por Gustavo Wabner (de “Politicamente Incorretos”) teve ingressos disputados no Sesc Copacabana. A comédia é o quarto espetáculo da Lunática Cia. de Teatro, que já apresentou “O Princípio de Arquimedes” (2017), “Esse Vazio” (2016) e “Matador” (2012) para o público carioca. Desta vez, estão no palco os atores Alexandre Lino (de “O Porteiro”) e Daniel Dias da Silva (de “Esse Vazio”), com excelentes atuações, em grande parte muito responsáveis pelo sucesso da temporada.

(Foto: Divulgação / zero8onze Photo Cine)

A peça, escrita por Claudia Barral (de “Cordel do Amor Sem Fim”), mostra a relação de poder entre dois irmãos solitários dentro de um apartamento apático. Nestor é o irmão mais velho, o cego do título, que domina e humilha o caçula Lázaro, evidentemente sequelado e cheio de remorsos. Nestor, por sua vez, também tem suas mágoas da vida – é um pintor que não pode mais exercer seu ofício por não enxergar – e encontrou alguém em quem descontar sua insatisfação.É Lázaro quem cuida de Nestor, mas este age como se fosse o contrário, sempre menosprezando e nunca demonstrando qualquer gratidão. Um só tem ao outro. Nestor, cego, fica recluso no apartamento e Lázaro, com dificuldades sociais, não consegue ir muito além dali. Certo dia, Nestor decide convidar a nova vizinha do prédio – uma moça jovem – para jantar com eles. Enquanto esperam sua chegada, conflitos de toda a ordem dominam a sala dos irmãos.

Há uma surpresa no fim da peça, mas a história é basicamente essa. É como se, ao invés de andar para frente, a trama mergulhasse profundamente no íntimo de cada personagem. Por isso mesmo, o trabalho dos atores é crucial. Certamente, Alexandre e Daniel engrandecem o texto. Alexandre causa certo fascínio como o cego pedante, ao mesmo tempo divertindo e gerando antipatia no espectador. Daniel, por sua vez, apresenta uma construção mais delicada, com um tique marcante, e detalhes minuciosos até no olhar. Um fator importante também é que a direção optou por manter Alexandre a maior partedo tempo sentado. Daniel que vai e vem ao seu redor. Há um subtexto precioso nisto.

O espetáculo em si se passa inteiro na sala do apartamento e a cenografia de Sergio Marimba é mesmo marcante. O ambiente é cheio de molduras vazias, pincéis de tinta seca e papéis velhos acumulados. Tem toda a cara de sótão com quinquilharias, mas é a sala de estar dos irmãos. A iluminação de Mantovaniluz explora objetos cênicos, como abajour e iluminária, criando uma atmosfera aconchegante de alguma maneira. Já os figurinos de Victor Guedes contrastam com todo o resto, o que é interessante, e tem seu sentido ainda que não claro à primeira vista. A montagem, como um todo, é refinada.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação / zero8onze Photo Cine)

Ficha técnica

Texto: Claudia Barral

Direção: Gustavo Wabner

Elenco: Alexandre Lino e Daniel Dias da Silva

Figurino: Victor Guedes

Cenografia: Sergio Marimba

Iluminação: Mantovaniluz

Operação de Som e Luz: Nina Balbi

Direção de Movimento: Sueli Guerra

Direção musical: Tibor Fittel

Direção de palco: Renato Rodolfo

Estagiária de Direção: Juliana Thiré de Negreiros

Design Gráfico: Gamba Jr.

Fotos e imagens: zero8onze Photo Cine (Aguinaldo Flor / Fernando Cunha Jr.)

Gravação Trilha: Musimundi (Klauber Fabre)

Locução do rádio: Germana Guilherme

Produção Executiva: Letícia Reis

Direção de Produção: Daniel Dias da Silva

Co-Produção: Cineteatro Produções

Realização: Territórios Produções Artísticas e Lunática Companhia de Teatro

Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

_____ SERVIÇO: qui a dom, 18h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 60 min. Classificação: 12 anos. Até 27 de janeiro. Sesc Copacabana – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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