Crítica

Crítica: O Censor

Um espetáculo teatral em cartaz em uma sala de cinema. Essa é a proposta de “O Censor”, texto de Anthony Neilson montado por Alexandre Varella (de “A Hora do Poço ou a Boca do Céu”), Cavi Borges e Patricia Niedermeier e apresentado em uma das pequeninas salas do Estação Net Botafogo (capacidade para 20 pessoas), concorrendo com “Os Vingadores” da sala ao lado. Soa curioso, mas as novidades param por aí. A montagem é muito convencional, e poderia estar em qualquer sala de teatro. Estar no cinema não traz novos elementos e logo explicarei esse ponto.

(Foto: Alvaro Riveros)

A peça gira em torno de um censor e suas relações com a esposa, que fica com outros homens e conta para ele depois, e uma cineasta com o filme censurado, mas insistente na liberação de sua obra, integralmente feita com cenas explícitas de sexo ou masturbação. O contato do censor com essas duas mulheres gradualmente revela mais sobre ele mesmo – seu trauma, sua fantasia, sua vergonha, sua potência – e expõe uma discussão sobre o conceito de arte e sua fronteira com a pornografia. A diretora censurada tenta convencer o censor de que seu filme é mais do que um pornô: o sexo é uma maneira de expressar o que ela queria mostrar para o espectador. Ela quer fazê-lo ver o que ela vê no filme.

O texto é provocante e importante para a plateia brasileira, dada nossa história ainda recente com a ditadura e todas as ameaças de censura que artistas vem sofrendo nos últimos anos, sempre em nome da moral e dos bons costumes. Em “O Censor”, a obsessão por dizer o que pode ou não pode é sintomática dos desejos reprimidos do protagonista. Fica a dica. O ator, Alexandre Varella, defende muito bem o personagem, com seus desajustes, desconfortos e defensivas. Patricia Niedermeier faz a diretora e, apesar de alguns exageros, domina as cenas em que está presente. A gangorra entre sua personagem e o censor funciona muito bem, graças à sintonia entre os atores. Emilze Junqueira (de “O Último Que Sair Apaga a Luz”), no papel da esposa, não alcança o nível dos outros atores, com habilidades limitadas.

A direção coletiva é problemática – tanto no polimento do elenco quanto na concepção da montagem. “O Censor” é apresentado sob o conceito de “peça-filme”. Uma falácia. É um espetáculo, nada diferente disso. O que há são poucas exibições de vídeos na tela do cinema – três ou quatro ao todo. Por duas vezes, são um mash-up de cenas eróticas já existentes e dirigidas por mulheres como Agnes Varda, Chantal Akerman, Erica Lust, Jane Campion e Maya Deren. Em outro momento, não passa da exibição de fotos de obras de arte censuradas. Isso já existe em inúmeros espetáculos – a projeção de conteúdo audiovisual, muitas vezes original – e não é algo inovador. O conceito de peça-filme não cabe. Os atores não contracenam com o telão. No máximo, o assistem. O espetáculo se sustenta mesmo que se elimine todos os vídeos. É mal explorado o fato da encenação se dar em uma sala de cinema. A montagem é, na verdade, tradicionalíssima. Um mérito do diretor é a construção das cenas de tensão sexual, principalmente aquelas em que o sexo quase acontece mas não chega a ser concretizado: o público fica à espreita do que verá (ou não).

O cenário trabalha basicamente com duas mesas e duas cadeiras, explorando o ambiente real do cinema. A disposição da cenografia, com ocupação do corredor lateral da sala, pode ser incômoda para os espectadores, dependendo de onde estiveram sentados. Além disso, em uma cena, flores artificiais destoam da concepção realista do todo. Os figurinos, por sua vez, satisfazem a composição dos personagens, apesar de detalhes de acabamento. A iluminação de Luiz Paulo Nenen cumpre seu papel. “O Censor” acaba sendo uma montagem regular para uma peça ótima.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Alvaro Riveros)

Ficha técnica

Autor: Anthony Nelson

Direção, produção e criação geral: Alexandre Varella, Cavi Borges, Patrícia Niedermeier

Elenco: Patrícia Niedermeier, Emilze Junqueira e Alexandre Varella

Tradução: Alexandre Varella

Iluminação: Luiz Paulo Nenen

Vídeos: Cavi Borges, Christian Caselli, Terêncio Porto, Hsu Chien

Assessoria de Imprensa: Patrícia Terra

Administração: Marina Trindade

Arte gráfica: Christian Caselli

Fotos: Alvaro Riveros

Câmera (Trailer): Brunno Rodrigues

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 18h e 20h. R$ 40. 75 min. Classificação: 18 anos. Até 18 de maio. Estação Net Botafogo – Rua Voluntários da Pátria, 88 – Botafogo.

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