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Crítica: O Escândalo Phillipe Dussaert – Teatro Maison de France

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Três anos após a peça “Em Nome do Jogo”, Marcos Caruso retorna aos palcos como ator – em seu primeiro monólogo em mais de 40 anos de carreira. O texto escolhido é o premiado “O Escândalo Phillipe Dussaert”, do dramaturgo francês Jacques Mougenot. Na França, o solo, interpretado pelo autor, teve mais de 600 apresentações, o que é um bom indicador de seu potencial de popularidade, apesar da temática que o guia: artes visuais, em especial a arte contemporânea. O escândalo do título ocorre no mercado de arte, ambiente com o qual a maioria das pessoas não tem exatamente alguma proximidade – para não dizer interesse. Mesmo assim, funciona: o público ri, se diverte, pensa e entende que a questão tratada supera a necessidade de qualquer instrução artística.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

O espetáculo é formatado como uma palestra. Dirigido por Fernando Philbert (de “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha”), Caruso tem um banquinho, uma mesinha, um jarro d’água, alguns livros, anotações e projeções de pinturas para fazer seu show. O cenário relativamente limpo, concebido por Natalia Lana, é suficiente para a encenação, focada no conteúdo, grau de convencimento e carisma do narrador/personagem. O texto é brilhante, por todas as reflexões que gera – sobre arte, valor, estética, discurso – da maneira mais acessível possível.

Em cena, o palestrante apresenta a história do pintor Phillipe Dussaert, conhecido por pintar quadros conceituais – o fundo de obras conhecidas. “Monalisa”, de Leonardo Da Vinci, por exemplo: retirando a mulher do enquadramento, o que resta? O fundo. É o que ele pinta. Ele faz isso para várias pinturas, retirando o que há de vida humana ou animal, firmando seu nome nos museus e galerias. Sua série “ao fundo de…” se torna um sucesso. Essa introdução sobre o pintor consome cerca de meia hora do espetáculo: um tanto longa, mas necessária para criar o vínculo com a plateia e criar uma linguagem comum. Então, Caruso-narrador revela o “escândalo”: inquieto com “ao fundo de…”, Phillipe Dussaert anuncia uma nova exposição, “No Fundo”, para mostrar o que estaria ao fundo do fundo – ou seja, por trás da paisagem. Quando os convidados chegam à galeria, a encontram vazia: não há nem mesmo uma tela em branco, ou uma moldura. Dussaert se desfaz de forma e conteúdo levando sua obra à limitação de um conceito. “No fundo” é o nada. E essa obra termina vendida para o governo francês em um leilão por oito milhões de francos. É aí que se inicia a discussão: o Estado está jogando dinheiro fora adquirindo uma ideia (o nada) ou “No Fundo” pode mesmo ser considerada como arte e, portanto, valer tanto? A plateia se divide, ri do que considera absurdo, mas não se desinteressa.

A dramaturgia é muito bem amarrada e Marcos Caruso como contador de história está no ponto. O ator dá conta de um texto cheio de especificidades e não se furta das ocasionais intromissões do público. Como se dirige aos espectadores em tempo integral, alguns sentem-se na liberdade de fazer comentários, e ele usa tudo como material cênico, seguro e inteligente em sua função. O que se percebe da direção de Fernando Philbert em cena limita-se às marcações do ator. A concepção de banquinho-mesinha-e-projeções já veio do espetáculo original francês, importado.

“O Escândalo Phillipe Dussaert” apresenta uma estética harmoniosa. Natalina Lana, que assina o cenário, também cuida do figurino – calça, camisa social e blazer em tons escuros – que se comunica diretamente com a iluminação de Vilmar Olos, marcada pelos momentos de lilás e roxo. Sem muito em cena, é o desenho de luz que ocupa e diminui espaços, com certa beleza. Um ponto alto da montagem é quando a projeção de vídeo transporta o narrador para dentro da galeria de arte vazia, com a exposição “No Fundo”. É um ganho na encenação, que traz ainda uma canção original composta por Maíra Freitas para a trilha sonora, único ponto esquecível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Jacques Mougenot
Tradução: Marilu de Seixas Corrêa
Direção: Fernando Philbert
Interpretação: Marcos Caruso
Cenário e Figurino: Natalia Lana
Iluminação: Vilmar Olos
Trilha Original: Maíra Freitas
Projeções e Vídeo Mapping: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Assistente de Direção: Vinicius Marins
Fotos: Paula Kossatz
Design Gráfico; Bruno Dante e Fernando Nicolau
Mídias Sociais: Ramon de Angeli
Administração: Priscila Fialho
Direção de Produção: Carlos Grun – Bem Legal Produções
Realização: Galeria de Arte CorMovimento Ltda

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SERVIÇO: qui e sex, 20h; sáb, 21h; dom, 18h. R$ 60 (qui e sex) e R$ 70 (sáb e dom). 80 min. Classificação: 12 anos. Até 18 de dezembro. Teatro Maison de France – Avenida Presidente Antonio Carlos, 58 – Centro. Tel: 2544-2533.

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