Crítica: O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu

É uma pena que as pessoas que criticam precocemente o espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” não o assistam. Seria realmente valioso para eles, como é para para as plateias lotadas que o solo da atriz Renata Carvalho vem arrebatando. Renata é uma travesti e isso aparentemente é o suficiente para gerar tentativas de censura em pelo menos quatro cidades da turnê do espetáculo, incluindo o Rio de Janeiro sob a prefeitura do bispo licenciado Marcelo Crivella, guardião do conservadorismo. Para quem pegou o bonde andando, explico: a peça parte de um argumento simples e tão genial quanto controverso – “e se Jesus fosse transexual?”. Parte dos cristãos considera uma blasfêmia tal provocação. O único motivo para isso é a discriminação com pessoas trans, claro. O problema não está em “O Evangelho…”, e sim nessas pessoas.

(Foto: Alex Silva / Estadão)

A peça foi escrita pela dramaturga britânica Jo Clifford, uma mulher trans, e também causou polêmica na Inglaterra. No dia da estreia, em 2009, houve protestos na porta do teatro com cartazes como “Deus: meu filho não é pervertido”, algo similar ao que aconteceu em junho, nas apresentações que Renata fez no Rio: um grupo de católicos realizou uma vigília na porta da Fundição Progresso, na Lapa. Para mim, isso é o mais curioso: o espetáculo gera uma repulsa antes mesmo de ser visto. Eu aprendi que tem que conhecer algo para dizer que não gosta, mas enfim… Foi assim no Brasil, foi assim na Europa. Na peça, a autora não transforma o Jesus Cristo do relato bíblico em uma travesti. Não se trata disso. A peça imagina como seria se Jesus voltasse nos dias atuais. Faz sentido, para mim, ser no corpo de uma pessoa trans. Jesus, o personagem bíblico, sempre defendeu e andou com os excluídos e marginalizados. Travestis são excluídos e marginalizados. Assassinados por serem travestis. E a galera não liga muito para essas mortes, não. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), uma pessoa trans foi assassinada a cada 48 horas no Brasil em 2017. Não vejo nenhum tipo de comoção nacional com esse genocídio. Revoltante mesmo é uma atriz travesti subir no palco e fazer o trabalho dela.

Deus já foi homem branco (Dan Stulbach, no espetáculo “Meu Deus!”), homem negro (Morgan Freeman, no filme “Todo Poderoso”), mulher branca (Alanis Morissette, no filme “Dogma”) e mulher negra (Whoopi Goldberg, no filme “Pronta Para Amar”) – licenças artísticas aceitas pelo público. Agora, Jesus travesti é uma “falta de respeito”, dizem. Isso denota como Jo Clifford tocou no ponto certo, porque gerar discussão é sempre algo positivo. Há mais de dois gêneros e isso já deveria ser senso comum. Ao contrário do que se pode pensar, o espetáculo não é um ataque, uma crítica ou um deboche das religiões cristãs. Não é e nem há nada assim em momento algum. Não existe nada propositalmente ofensivo ali. Ele, na verdade, invoca diversas passagens bíblicas em uma missa realizada por Jesus, rainha do Céu. Passa a mensagem de amor de Jesus e de Deus para espectadores que talvez não fossem entrar em contato com ela tão cedo de outra maneira. Eu mesmo não lembro a última vez que fui a uma missa de verdade. Dessa, gostei. A verdade é que pessoas LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) sempre foram e ainda são apagadas nas religiões cristãs. Digo apagadas porque somos bem vindos nas igrejas desde que não nos exponhamos ou que busquemos a salvação. Ou seja, a autoaceitação e o orgulho têm que ficar da porta para a rua. O que “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” faz é devolver a toda uma comunidade o direito à religiosidade na síntese “Deus é amor”. Sem poréns… É um texto divertido, bem humorado e muito especial mesmo. Apresentá-lo no Brasil é necessário.

A montagem brasileira tem tradução, adaptação e direção de Natalia Mallo. Na entrada do teatro, os espectadores recebem uma vela eletrônica e uma tacinha de vinho. Ambos são usados nos momentos indicados pela atriz. É uma delicadeza que soma à experiência. O cenário, criado por Jimmy Wong, limita-se a uma mesa de altar e uma mesa alta de bar. Os figurinos, assinados por Natalia Mallo e Gabi Gonçalves, marcam a antítese do corpo reprimido. Renata faz uma troca de roupa em cena – uma nudez à meia-luz, graças à iluminação de Juliana Augusta e Anna Turra. Ela é ótima. Conduz a plateia com interação e descontração, segura do que faz. Ótima atuação. Infelizmente, há quem se prive dessa bela comunhão.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista de Jornalismo Cultural.

(Foto: André Penner)

Ficha técnica
Direção, tradução e adaptação: Natalia Mallo
Texto: Jo Clifford
Atuação: Renata Carvalho
Assistência de direção: Gabi Gonçalves
Trilha sonora: Natalia Mallo
Iluminação: Juliana Augusta e Anna Turra
Cenografia: Jimmy Wong
Figurino: Natalia Mallo e Gabi Gonçalves
Confecção do figurino: Maria do Desterro
Treinamento corporal: Fabricio Licursi e Gisele Calazans
Treinamento vocal: Patricia Antoniazi

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SERVIÇO: ter a qui, 21h; sex e sáb, 22h. Entrada gratuita: pague quanto der. De 10 a 14 de julho. Sede das Cias – Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa. Tel: 2137-1271.

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