Crítica

Crítica: O Frenético Dancin’ Days

O musical “O Frenético Dancin’ Days”, que conta a história da mítica boate carioca dos anos 1970 que virou nome de telenovela, se aproxima do fim de sua temporada de estreia, na qual contou com recepção calorosa na Barra da Tijuca. Coreografado e dirigido por Deborah Colker, premiada na Rússia no início do ano, o espetáculo foi escrito por Patrícia Andrade e Nelson Motta (os mesmos de “Elis, a Musical” e “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”). É importante ressaltar que Nelson foi um dos fundadores da casa noturna retratada. Como dramaturgo, ele mistura fatos reais de sua própria biografia com outros inventados, trabalhando no campo da autoficção.

(Foto: Leo Aversa)

Dividido em dois atos, o espetáculo explora o repertório de discoteca da época para costurar a história da idealização, construção e manutenção da Dancin’ Days, que funcionou por apenas quatro meses onde hoje é o Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. Canções das Frenéticas – grupo de garçonetes-cantoras que se formou na boate e conquistou o sucesso nacional – e outras famosas, como “You Make Me Feel Might Real”, “Y.M.C.A.” e “Marrom Glacê” estão todas lá. Há bastante músicas, algumas apresentas em medleys, e nem sempre inseridas convincentemente na dramaturgia. Às vezes, ao contrário, elas entram como quebras e excessos. A direção musical é de Alexandre Elias, que trabalha com samples e um DJ operando a música ao vivo direto do palco. No elenco, impressiona especialmente o número musical de Ariane Souza (de “O Musical da Bossa Nova”), que também se sobressai pelo humor bem executado de seu papel.

Além dela, que dá vida à empregada promovida à sócia, o time protagonista é formado por Bruno Fraga (de “Dois Filhos de Francisco – O Musical”) como Nelson Motta, Cadu Fávero (de “Pulsões”) como Djalma, Franco Kuster (de “Romeu e Julieta, musical”) como Léo Netto, André Ramiro como Dom Pepe e Larissa Venturini como Scarlet. São seus personagens que tiram a boate do papel, inspirados nas discotecas de Nova York. Formam um grupo coeso, que conduz o espetáculo. Há ainda a misteriosa Bárbara, mulher do proprietário do espaço, vivida por Natasha Jascalevich (de “Ayrton Senna do Brasil”), com forte presença cênica, aproveitando suas habilidades de contorcionismo. As Frenéticas são vividas por Carol Rangel, Ester Freitas (de “O Homem no Espelho”), Ingrid Gaigher (de “A Vida Não É um Musical”), Julia Gorman (de “Dançando no Escuro”), Larissa Carneiro e Ludmila Brandão (de “Deuses Invisíveis — Ou o Deus Dançante”), essas um grupo menos coeso e carismático, mas também com poucas oportunidades dramatúrgicas. Stella Miranda (de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”), a estrela do musical, só aparece no fim do primeiro ato e instantaneamente torna-se a alma do espetáculo. Sua personagem é uma vizinha, que acaba se tornando sócia da boate ao reclamar do barulho alto à noite. Com um ótimo papel, a atriz tem facilidade para fazer o público rir em todas as suas tiradas.

Curiosamente, o ponto mais fraco do musical é a coreografia – principalmente se você vai com expectativa alta por conta do nome de Deborah Colker. As coreografias, creditadas a ela e Jacqueline Motta, são simplórias na tentativa de resgatar o espírito dos passinhos das discotecas. O trabalho deixa a desejar se você já viu qualquer espetáculo de dança da coreógrafa. A direção geral dela também tem problemas – sofre de oscilações de ritmo e marcações arrastadas, principalmente quando são incluídas músicas forçosamente na trama.

A parte estética de “O Frenético Dancin’ Days” é positiva, promovendo uma viagem de volta aos anos 1970. A direção de arte e a cenografia são de Gringo Cardia, que concebeu uma base fixa de dois andares, que ganha luzes, cores e ornamentos dependendo da cena e, quando não, torna tudo muito aconchegante. O desenho de luz de Maneco Quinderé realmente transforma o palco em uma boate. Os figurinos de Fernando Cozendey e o visagismo de Max Weber traçam um olhar contemporâneo para a moda da era “disco”. Juntos, todos esses elementos corroboram uma produção que mira o despertar da nostalgia.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Leo Aversa)

Ficha técnica
Texto – Nelson Motta e Patrícia Andrade

Direção geral – Deborah Colker

Elenco – Bruno Fraga (Nelson Motta), Larissa Venturini (Scarlet Moon), Cadu Fávero (Djalma), Franco Kuster (Léo), André Ramiro (Dom Pepe), Stella Miranda (Dona Dayse), Ariane Souza (Madalena), Gabriel Manita (Geraldo / Inácio / Catarino), Natasha Jascalevich (Bárbara), Carol Rangel (Frenética Edyr de Castro), Ester Freitas (Frenética Dhu Moares), Ingrid Gaigher (Frenética Lidoca), Júlia Gorman (Frenética Regina Chaves), Larissa Carneiro (Frenética Leiloca), Ludmila Brandão (Frenética Sandra Pêra), Karine Barroso (Vera / swing feminina), Rômulo Vlad (Bailarino / Tenente Möeller), Andrey Fellipy (bailarino), Isadora Amorim (bailarina), Elio Barbe (bailarino / Capitão Matoso), Eddy Soares (bailarino), Júlia Strauss (bailarina) e Rogger Castro (bailarino e Tony Manero)

Direção Musical – Alexandre Elias

Coreografia – Deborah Colker e Jacqueline Motta

Cenografia e direção de arte – Gringo Cardia

Desenho de luz – Maneco Quinderé

Figurinos – Fernando Cozendey

Visagismo – Max Weber

Assistente de direção: Gustavo Wabner

Colaboração artística: Toni Platão

Produção de elenco: Cibele Santa Cruz

Produção geral – Joana Motta

Gerente de Produção Opus – Graziele Saraiva

Direção de Produção – Renata Costa Pereira e Edgard Jordão

Produção Executiva – Vanessa Campanari

Realização – Irmãs Motta e Opus

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SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 17h e 21h; dom, 15h e 18h. R$ 75 a R$ 160. 120 min. Classificação: livre. Até 21 de outubro. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca. Tel: 3431-0100.

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