Crítica

Crítica: O Homem de la Mancha

Sucesso no Brasil e no mundo, o musical “O Homem de la Mancha” cumpre uma aguardada temporada no Rio de Janeiro. A montagem nacional, estreada em 2014, com versão e direção de Miguel Falabella (de “Os Produtores”), ganhou vários prêmios de “melhor musical” e encheu temporadas em São Paulo, repetindo no país seu feito na Broadway. O espetáculo estreou por lá em 1965 e ficou seis anos seguidos em cartaz, com mais de 2,3 mil apresentações. Ganhou cinco Tony Awards de uma vez – melhor musical, ator, direção, letras/músicas e cenário – e foi remontado quatro vezes, além de exportado para outros países, traduzido em cerca de duas dezenas de idiomas. Assistindo ao espetáculo no Teatro Bradesco, no Shopping Village Mall, não consegui entender toda dessa força.

(Foto: Divulgação)

“Man of la Mancha”, o original, foi escrito por Dale Wasserman, com letras de Joe Darion e músicas de Mitch Leigh (em comum, nenhum deles conta com outros trabalhos memoráveis). O musical é inspirado em “Dom Quixote”, um dos romances mais influentes em língua espanhola, escrito por Miguel de Cervantes. Na peça, ambientada no século XVI, Miguel de Cervantes é o personagem principal, preso em um calabouço durante a Inquisição Espanhola. Para se livrar do ataque e de uma “condenação” por parte dos outros prisioneiros, ele lhes conta a história de Alonso Quijano, um homem que perdeu a lucidez e acredita ser Dom Quixote. O musical, portanto, não é uma adaptação do livro propriamente dita, e tampouco uma biografia do autor. Mistura os universos. Na nova versão brasileira (houve outra em 1972), Miguel Falabella troca a seu bel prazer o calabouço por um manicômio da década de 1950, o que não me parece que ajuda. Ao contrário, dilui o potencial político e histórico, e deixa a trama mais confusa para o espectador. Tem uma peça dentro de outra peça, e um personagem fazendo outro personagem, que acredita ser outro, um terceiro. Tudo tem um ar delirante… ainda mais se passando no hospício.

Volto a falar sobre minha falta de entendimento quanto à força do musical, que atravessa décadas e é constantemente resgatado. O roteiro é tolo e pouco interessante para os dias de hoje. Linear, regular, sem surpresas ou ganchos capazes de prender atenção. Não fica claro para onde a história caminha, então as cenas parecem uma sucessão de momentos irrelevantes. Vi o espetáculo na estreia para convidados, que costuma ser mais calorosa, cheia de amigos, e mesmo assim as pessoas deixavam a sala sem constrangimento. O espetáculo entedia com sua monotonia, e a culpa é do próprio texto, que já não satisfaz. Talvez em 1965.

Em contrapartida, essa é uma montagem excelente para uma dramaturgia chata. É um espetáculo evidentemente caro, com 30 atores em cena, 16 músicos e mais 46 profissionais na equipe técnica, de acordo com o material enviado à imprensa. O elenco principal é formado por Cleto Baccic (de “Mamma Mia!”) como Cervantes/Quijano/Quixote, que dá conta belamente da imponente música “Impossible Dream” (O Sonho Impossível) e não deixa a bola cair durante todo o espetáculo; Sara Sarres (de “O Fantasma da Ópera”), como Aldonza/Dulcinéia, a prostituta que o protagonista vê como uma doce dama; e Jorge Maya (de “O Beijo no Asfalto – O Musical”) como Sancho, o fiel escudeiro de Dom Quixote, personagem que cativa a plateia facilmente. É preciso dizer que a sessão assistida não foi muito feliz. Sarres pareceu burocrática, apesar de infalível, e Jorge Maya simplesmente não tinha voz alguma – o que não é uma força de expressão. Aparentemente sem ninguém para substituí-lo, o ator fez o espetáculo inteiro de maneira sofrível. Quando falava, dava para ver seu esforço, mas pouco se compreendia. Nos números musicais de seu personagem, constrangedoramente, outro ator assumiu seus vocais e cantou por ele direto da coxia. Algo que realmente nunca tinha visto acontecer. Foi triste. Do restante do elenco, vale destacar a voz de Cássia Raquel (de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”), sempre impressionante e marcante. O ensemble é muito bom, coeso, com ótima direção musical de Daniel Rocha, mas com coreografias (de Katia Barros) pouco desafiadoras, que perdem oportunidades de tornar especiais algumas cenas.

Diante desse contexto, o valor estético do musical imperava. Miguel Falabella se inspirou na obra do artista plástico Bispo do Rosário para a concepção cênica, o que imprimiu singularidade para sua montagem. Considerado louco por uns e gênio por outros, Bispo do Rosário – como o protagonista do musical – também foi internado em uma instituição psiquiátrica, então a referência faz todo sentido. Os figurinos do elenco (assinados por Claudio Tovar) têm riqueza de detalhes e são mesmo deslumbrantes. O cenário (de Matt Kinley), com dois andares e duas escadas móveis, impõe dinamismo a algumas cenas, além de ser belíssimo. Além disso, a iluminação (de Drika Matheus) explicita diferentes emoções no palco, ajudando a contar a história. É uma pena que nada disso distraia da história pouco envolvente.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Dale Wasserman
Letras: Joe Darion
Música: Mitch Leigh
Adaptação e direção: Miguel Falabella
Elenco: Cleto Baccic, Sara Sarres, Jorge Maya, Davi Barbosa, Fred Oliveira, Fred Reuter, Luiz Gofman, Cássia Raquel, Clarty Galvão, Floriano Nogueira, Dino Fernandes, Noedja Bacic, Gabriela Germain, Fabrício Negri, Bruno Fraga, Beto Marque, Helcio Mattos, Cássio Collares, Julio Félix, Ditto Leite, Nando Motta, Guilherme Gonçalves, Renato Caetano, Bia Castro, Fernanda Biancamano, Giovanna Oliveira, Alice Zamur, Manu Littiery, Anelita Gallo, Félix Boisson
Diretor cênico associado: Floriano Nogueira
Diretor musical/Regente: Daniel Rocha
Cenógrafo: Matt Kinley
Cenógrafo associdado: David Harris
Coreógrafo: Katia Barros
Figurinista: Claudio Tovar
Produtora de figurino: Ligia Rocha
Designer de luz: Drika Matheus
Designer de luz associado: Jackis Roberto
Designer de som: Gabriel D’Angelo
Diretor Técnico: Gabriel Amato
Produtores associados: Carlos Cavalcanti, Cleto Baccic e Vinicius Munhoz

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 17h e 21h; dom, 20h. R$ 75 até R$ 190. 105 min. Classificação: 10 anos. Até 27 de julho. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, das Américas, 3900 – Barra da Tijuca. Tel: 3431-0100.

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