Crítica

Crítica: O Homem no Espelho

Michael Jackson morreu aos 50 anos, época em que ensaiava para sua temporada de 50 shows na O2 Arena em Londres, que marcaria seu retorno aos palcos mais de dez anos após a última turnê. Os shows, como se sabe, nunca aconteceram. Mas os ensaios gravados viraram um documentário e um álbum ao vivo. Foi em 2009. De lá para cá, houve dois álbuns póstumos, relançamentos, coletâneas, mais documentários, shows-tributo nacionais e internacionais e até um espetáculo do Cirque du Soleil em sua homenagem. Há cinco anos, ele é o artista morto que mais fatura no mundo, de acordo com a revista Forbes. É piegas dizer, mas é verdade: ele ainda está no meio de nós.

(Foto: Fotografia e Teatro)

Neste cenário, em que tributos ao Rei do Pop não são escassos, nasce “O Homem no Espelho”, musical teatral brasileiro com roteiro e direção musical de Jules Vandystadt e direção geral de Kika Freire. Trata-se de um musical revue, como “Beatles Num Céu de Diamantes”, o que significa que não há dramaturgia. São apenas as canções conhecidas com releituras teatralizadas. Os atores-cantores Jules, Evelyn Castro (de “Vamp – O Musical”), Gottsha (de “Rocky Horror Show”), Ester Freitas (de “Love Story, o Musical”) e Raphael Rossatto (de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”) cantam (e bem!), tocam percussão, fazem coreografias irrisórias (um ponto negativo da montagem), manuseiam uma marionete (que não diz a que veio) e criam um número interessante com a sombra de uma silhueta na parede da plateia (ponto positivo). No geral, parece haver falta de direcionamento. É notável a intenção de criar “momentos”, mas no geral não são alcançados. O formato de show do musical proporciona minutos de destaque para cada um dos cantores. Todos têm pelo menos um solo. Evelyn Castro e Ester Freitas se beneficiam das oportunidades de mostrarem seu alcance vocal em interpretações contagiantes. Empolgado, o público aplaude incontrolável. Na sessão de estreia, com a casa lotada e ingressos disputados, aconteceram muitos problemas técnicos com o som – microfones altos ou baixos demais, prejudicando muito do desempenho coletivo. Por conta disso, alcance e potência revelaram-se importantes. Há de melhorar.

Uma das características marcantes de Michael Jackson era seu perfeccionismo, o que gera muita controvérsia em torno do lançamento de seus álbuns póstumos, pois não eram músicas que o artista havia considerado prontas para serem divulgadas. Ou, em grande parte dos casos, sequer foram finalizadas por ele. No caso de “O Homem no Espelho”, suas canções ganham novos arranjos nas mãos de Jules Vandystadt. Dado o contexto, já é um atrevimento. Mas consideremos que toda obra está aí disponível no mundo à disposição da antropofagia… Ainda assim, todas as versões apresentadas são inferiores às lançadas por Michael Jackson. É difícil suplantar o grau de excelência e minúcia do Rei do Pop. Não é à toa que se está homenageando-o: o cara era bom pra caramba. O trabalho de Jules não é ruim, mas é aquém: não se justifica. O medley de abertura, especificamente, é esquisito. A favor dele, destaco um arranjo valioso: “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” com mix de sonoridades brasileiras, com percussão e funk carioca. É uma mistura envolvente para o público. O mash-up de “Remember the Time” e “Billie Jean” também apontou um caminho interessante. A lista de músicas, aliás, é muito agradável, mas inevitavelmente cada espectador sentirá falta de uma ou algumas canções. Michael teve muitos sucessos, afinal.

A montagem é bem simples – principalmente se tratando de algo envolvendo Michael Jackson, que era tudo menos minimalista. A cenografia e os figurinos são de Teca Fichinski: placas espelhadas dispostas no fundo do palco formam o cenário, que absorve as cores da iluminação de Aurélio di Simoni. Já as vestimentas trabalham com os cinquenta tons de cinza: no geral calças pretas com camisas cinzas ou brancas, com estampas de fragmentos do rosto do artista americano. Nenhum brilho, nenhuma cor, nada que se encaixaria em Neverland. O destaque estético fica por conta do visagismo – com os rostos parcialmente pintados de branco – e as perucas que transformam os atores. O resultado é elementar demais para alguém conhecido pela grandiosidade em tudo que fazia. É uma proposta cênica válida, subverter esse universo ao mínimo necessário, mas sua realização não é convincente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Fotografia e Teatro)

Ficha técnica
Direção: Kika Freire
Roteiro/ Dir Musical/Arranjos: Jules Vandystadt
Coordenação Artística: Cris Fraga
Direção de Produção: Nilza Guimarães
Arranjos instrumentais: Heberth Souza
Elenco: Gottsha, Jules Vandystadt, Evelyn Castro, Ester Freitas e Raphael Rossato
Músicos: Heberth Souza, Thais Ferreira, Matias Correa, Naife Simões
Figurino e Cenário: Teca Fichinski
Visagismo: Uirandê de Holanda
Luz: Aurélio Di Simoni
Som: Andre Garrido
Programação Visual: Victor Hugo Cecatto
Assessoria de Imprensa: Julyana Caldas – JC Assessoria de Imprensa
Realização: Dois Atos Produções Culturais.
Foto: Hugo Cecatto

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SERVIÇO: seg e qua, 21h. R$ 80. 70 min. R$ 80. Classificação: 10 anos. De 3 até 31 de janeiro. Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2540-6004

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