Crítica

Crítica: O Imortal

Gisele Fróes, vencedora do Prêmio Shell de melhor atriz por “Deve Haver Algum Sentido Em Mim Que Basta”, estreou neste ano o primeiro monólogo de sua carreira, “O Imortal”. Baseado no conto homônimo do argentino Jorge Luis Borges, o espetáculo é resultado de uma parceria dela com os Irmãos Guimarães (de “Hamlet – Processo de Revelação”), que assinam a direção. Fantástico e alegórico, pensa a vida a partir da consciência humana da finitude, da mortalidade. No palco, Gisele mescla ação performativa, interpretação e narração, com fronteiras diluídas e pouco delimitadas.

(Foto: Ismael Monticelli)

Ela recebe os espectadores quando a porta do teatro é aberta: cumprimenta os colegas, sorri, indica lugares vagos, faz brincadeirinhas, e cria um clima amistoso. Quando todos estão acomodados, oferece água, pergunta se alguém precisa deixar o celular ligado e, de repente, já está atuando. Ou esteve o tempo todo. A direção opta por eliminar os três sinais que separam ficção e realidade. O intuito é embaralhar. Gisele fala sobre a ida a um antiquário a Londres, onde recebeu a tradução inglesa de “Ilíada”, de Homero, e encontrou um manuscrito escondido entre as páginas. Já não é ela. É a personagem. Mas ela pode voltar a ser Gisele a qualquer momento (e realmente volta, quando o celular de uma senhora toca na plateia, o que acentua o estado de presença e comunhão). Conta que o manuscrito é um relato autobiográfico de um militar do Império Romano, que ouviu falar de um rio mágico capaz de conceder imortalidade e saiu em busca dele, tentando encontrar a “Cidade dos Imortais”. A peça e o conto originário mostram como o valor da vida humana é resultado do sentido que damos a ela, por conta do medo da morte.

A concepção cênica é 100% apoiada na oratória. Gisele pouco se move (embora a ficha técnica cite Marcia Rubin na direção de movimento). Sentada em uma cadeira no meio do cenário, ela divide com o público o que teria lido nesse manuscrito, dando voz em primeira pessoa ao personagem do militar, mas sem tentar sê-lo. Provoca imagens imaginárias e reflexões filosóficas, mas esbarra nas consequências da falta de ação, o que pode causar alguma sonolência. O relato não se trata de uma aventura excitante, pelo contrário. Interessante, mas monótono. Lá para a reta final, a atriz – com ótimo desempenho dentro da proposta – mostra uma música, e isso é tudo.

O belo cenário (de Adriano Guimarães e Ismael Monticelli), o primeiro ponto a chamar atenção, é formado por muitas caixas de papelão numeradas e empilhadas, e pelo menos uma centena de livros espalhados pelo chão e pendurados com cara de desordem. Identifiquei Kafka, Dante e Shakespeare, mas havia muito mais. A cenografia, no entanto, não soma de forma evidente à atuação de Gisele. São independentes uma da outra. O figurino, assinado pela própria atriz, é todo preto e inespecífico, sublinhando que não há personagem. Neste trabalho, o tempo todo, a artista apresenta, ao invés de representar. Quando representa, simula que não o faz. O desenho de luz de Dalton Camargos, que poderia criar movimentos, opta por não fazê-lo e, na maior parte do tempo, deixa a plateia mais clara que escura, outra maneira de explicitar o estado de co-presença entre atriz e espectadores. Estamos aqui, vivendo isso, e tem seu valor, porque algum dia vamos todos morrer. O espetáculo, inclusive, termina com esse pensamento: a imortalidade não se manifesta também pela lembrança ou invocação da obra de alguém? Para pensar no assunto.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Ismael Monticelli)

Ficha técnica

Texto | Baseado no conto “O Imortal” de Jorge Luis Borges

Dramaturgia | Adriano Guimarães e Patrick Pessoa

Direção | Irmãos Guimarães

Direção de movimento | Marcia Rubin

Cenografia | Adriano Guimarães e Ismael Monticelli

Figurino | Gisele Fróes

Desenho de luz | Dalton Camargos

Projeto gráfico e fotografias | Ismael Monticelli

Colaboração na pesquisa | Camille Paranhos

Consultoria teórica | Alexandre Costa

Direção técnica | Josenildo de Sousa

Assessoria jurídica | Roberto Silva

Assistência de produção | João Fragha e Marcella Nascimento

Direção de produção | Bianca De Felippes / Gávea Filmes

Tradução | Companhia das Letras

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