Crítica: O Jornal – The Rolling Stone – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: O Jornal – The Rolling Stone

“Te amar destruiu minha vida”.

Colonizada pelo Reino Unido até 1962, a Uganda amarga uma história de pobreza, violência, péssima distribuição de renda, guerras e corrupção: contexto ideal para problemas na educação e totalitarismo religioso. De acordo com dados de 2013 do Banco Mundial, 34,6% da população do país africano vive com menos de US$ 1,90 por dia. É mais ou menos seis reais diários. Nesse contexto, tudo o que eles têm é a fé: mais de 80% dos ugandeses se declaram cristãos. É com esse pano de fundo que se traça a história da peça “O Jornal – The Rolling Stone”, escrita pelo britânico Chris Urch e traduzida no Brasil por Diego Teza (o mesmo de “O Camareiro”). A dramaturgia é baseada em um dado real: um dos países mais conservadores do mundo, a Uganda tem um política de forte intolerância com pessoas LGBTQ. “Atos homossexuais” são considerados ilegais no país e, em 2014, um projeto de lei chegou a ser aprovado punindo com prisão perpétua gestos homoafetivos como “se tocar em público”. Na época, o presidente da Uganda declarou com todas as letras: “homossexuais são nojentos. Que tipo de pessoas eles são? Eu nunca soube o que eles faziam, me disseram recentemente, e é terrível, nojento”.

(Foto: Kiko Mascarenhas)

A peça conta a história do jovem homossexual ugandês Dembe, que mora com a irmã Wummie e o irmão mais velho Joe, que acaba de ser promovido a pastor da igreja da comunidade. A família passa por necessidades financeiras após a morte do patriarca e tem na Igreja uma chance de arrecadar fundos, caso Joe consiga atrair mais fiéis. Dembe mantém um namoro secreto com um médico irlandês e ateu chamado Sam – que traz o frescor europeu e contestações de dogmas para sua vida. Em meio à confusão típica de um jovem gay impossibilitado de ser quem é em um ambiente conservador, Dembe tem que enfrentar um medo maior: um jornal da região, “The Rolling Stone”, passa a publicar uma lista de fotos e nomes de suspeitos de homossexualidade. Um colega de classe, acusado na lista, dias depois foi encontrado morto com o cerebro martelado. E ele nem era gay de verdade. O radicalismo leva o povo a viver uma verdadeira caça às bruxas. Ou às bichas. Não muito diferente do que o nazismo fez com judeus.

Esse jornal realmente existiu: em 2010, publicou uma lista de 100 homossexuais, incitando os leitores a perseguirem-os e enforcá-los. A peça somatiza isso à religião: a homossexualidade, pauta em missas e cultos, é absolutamente condenável e repudiada pelos líderes religiosos, que exercem uma influência incontestável em seus seguidores. No espetáculo, Dembe se vê entre o discurso libertário do namorado Sam e a pressão religiosa presente em casa com Joe e uma espécie de tia sonsa chamada Mama, totalmente favorável às denúncias feitas pela mídia. O texto produz um crescente de tensão no personagem, e o espetáculo é perpicaz em provocar o mesmo no público, com a ótima direção de Lázaro Ramos (de “Namíbia, Não!”) e Kiko Mascarenhas (de “Tistu, o Menino do Dedo Verde”).

A montagem original de “The Rolling Stone” estreou em 2015 na Inglaterra e recebeu o prêmio de “melhor peça original” no Manchester Theatre Awards. Em 2016, o espetáculo foi transferido para Londres e recebeu seis indicações ao The Offies, premiação da cena independente londrina. No Rio, o espetáculo também estreia em caráter de produção independente, mas com direção de dois nomes fortes e capazes de chamar muita atenção para o trabalho, apesar da falta de patrocínio. Eles selecionaram o elenco de seis atores em uma oficina sobre afrobrasilidade com cerca de 70 artistas. Do time, o mais conhecido é André Luiz Miranda (da novela “O Rico e o Lázaro”), que interpreta Joe, o irmão rígido, autoritário e desesperado para manter a ordem na casa. É de muita sensibilidade o trabalho que o ator apresenta em cena: apesar de todos os conflitos, o afeto é pulsante. Danilo Ferreira (de “Pixinguinha, Um Homem Carinhoso”) faz Dembe, perto do perfeito no papel; Indira Nascimento (de “A Serpente”) vive a irmã Wummie, e sua química com Danilo é essencial para o resultado do espetáculo; Heloisa Jorge (de “Race”), a tia Mama, aprofunda as camadas de sua personagem; Marcos Guian (de “A Peça Ao Lado”), o namorado Sam, age em uma frequência paralela; e Marcella Gobatti dá vida à filha de Mama, muda após um trauma misterioso e cotada para ser a esposa de Dembe. Que atriz! Sem nenhuma fala, comunica tanto! A direção de movimeto de José Carlos Arandiba merece reconhecimento nessa encenação.

Esse é um espetáculo de alto nível. A cenografia de Mauro Vicente Ferreira, associada com a brilhante iluminação de Paulo Cesar Medeiros (que chama a atenção desde o início) e a trilha sonora de Wladimir Pinheiro, é capaz de criar verdadeiras paisagens na imaginação do espectador. Bem orquestrados, esses três pontos, plenos de teatralidade, desenham imagens com muito pouco. Na sessão assistida, houve um pequeno problema com o som em uma cena, mas nada que comprometesse. Há ainda os figurinos de Tereza Nabuco, apoiados no cinza, com exceção do protagonista – o único com alguma cor no vestuário e, desde o começo, julgado pelo “mau gosto”.

“O Jornal – The Rolling Stone” é um presente nessa safra final de fim de ano no teatro carioca – principalmente depois dos conflitos político-religiosos em torno da programação do “outubro da diversidade” no Castelinho do Flamengo. É uma história que precisa ser contada, como alerta. Difícil não sair do teatro mexido. É um espetáculo necessário.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Kiko Mascarenhas)

Ficha técnica
Texto de Chris Urch
Tradução de Diego Teza
Direção de Kiko Mascarenhas
Codireção de Lázaro Ramos
Com André Luiz Miranda (Joe), Danilo Ferreira (Dembe), Heloísa Jorge (Mama), Indira Nascimento (Wummie), Marcella Gobatti (Naome) e Marcos Guian (Sam)
Assistência de Direção de Ana Luiza Folly
Direção de Movimento de José Carlos Arandiba (Zebrinha)
Preparação Vocal de Edi Montecchi
Realização e Produtores Associados Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas
Produção KM ProCult e BR Produtora
Direção de Produção Viviane Procópio e Radamés Bruno
Produção Executiva e Administração Viviane Procópio
Assistência de Administração Jandy Vieira
Equipe de Produção Igor Dib, Milena Garcia e Diego Teza
Iluminação Paulo César Medeiros
Assistência de Iluminação Júlio Medeiros
Montagem de Luz Boy Jorge, Luíza Ventura, Fabiano Gomes, Vilmar Ollos e Rodrigo Emanuel
Operação de Luz Walace Furtado
Trilha Sonora Original Wladimir Pinheiro
Operação de Som Marcito Vianna
Estúdio de Gravação “DRS” e “FD”
Cantores Flavia Santana, Lu Vieira, Renato Ribone, Wladimir Pinheiro
Cenografia Mauro Vicente Ferreira
Assistência de Cenografia Rogério Chieza
Construção de Cenário Em Família Cenografia e Eventos
Adereços Mauro Vicente Ferreira
Figurinos Tereza Nabuco
Assistência de Figurinos Júlia Custódio
Costureiras Adélia Andrade e Severina da Silva Viana (Mainha)
Calçados Jailson Marcos
Assessoria de Imprensa de Antonio Trigo
Comunicação Web Urgh
Arte e Lay Out do Projeto Léo Dória / BR Produtora
Projeto Gráfico Novo Traço
Fotos de Estúdio Jorge Bispo

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 80. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 25 de fevereiro. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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