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Crítica: O Mambembe (UNIRIO) – Sala Paschoal Carlos Magno

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Popularizado com “The Book of Mormon”, o projeto UNIRIO Teatro Musicado, tocado pelo professor Rubens Lima Jr. desde 1995, apresenta sua nona montagem acadêmica sem fins lucrativos, “O Mambembe”. Após cinco espetáculos seguidos versionados do inglês, o diretor decidiu fazer um musical brasileiro e escolheu esse metalinguístico, que mostra as desventuras de uma trupe mambembe para conseguir se apresentar, comer e encontrar lugares razoáveis para dormir nas cidades por onde passa. Com quase três horas de duração, 28 atores em cena, cinco músicos na banda e diversas trocas de figurino, a produção universitária não faz feio comparada a espetáculos do gênero no circuito comercial. O elenco, seu principal trunfo, muitas vezes se revela superior ao que às vezes se vê por aí sob a alcunha do profissional.

(Foto: Bianca Oliveira)

(Foto: Bianca Oliveira)

“O Mambembe” é uma comédia musical escrita por Artur Azevedo (1855-1908), um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, e José Piza. Ele foi montado originalmente em 1904, mas é mais lembrado pela remontagem de 1959, que apresentou a Cia. Teatro dos Sete ao público carioca, com temporada no Theatro Municipal, direção do italiano Gianni Ratto (1916-2005) e atores como Fernanda Montenegro (de “Viver Sem Tempos Mortos”), Ítalo Rossi (1931-2011), Zilka Sallaberry (1917-2005) e Sergio Britto (1923-2011) no elenco. A história acompanha a atriz de 22 anos Laudelinda (papel de Fernanda Montenegro), que, apesar da superproteção da madrinha Dona Rita, aceita o convite do empresário Frazão para viajar em um mambembe com artistas de todo tipo, aperfeiçoar seu dom e explorar sua vocação vivendo de arte pela arte. Por vezes, a plateia assiste a uma peça dentro da peça.

A montagem da UNIRIO conta com adaptação e letras de Alexandre Amorim. A dramaturgia mantém a época da história em algum lugar entre o fim do século XIX e início do século XX, mas traz várias referências midiáticas atuais. Memes como “tchau, querido” e “não sou capaz de opinar”, entre outros, são pontuados em cenas, dando fôlego à encenação – muito longa, um dos seus principais deméritos. Com todo respeito a Artur Azevedo e José Piza, que escreveram a peça há mais de 100 anos (pré-cibercultura, portanto), mas peca-se por repetições, excessos e uma trama arrastada. O segundo ato, especialmente, é cansativo e dá vontade de dizer “tchau, querido” para alguns diálogos e números musicais supérfluos. É obrigatório que todo o elenco principal tenha um solo, ainda que o enredo não peça?

As questões que o espetáculo aborda, entretanto, são muito pertinentes. A maneira como os artistas da história têm que se sujeitar às imposições dos patrocinadores para conseguir trabalhar conversa com as discussões atuais sobre as relações entre a Lei Rouanet e os gerentes de marketing das empresas. Na trama, o grupo mambembe se submete a fazer um espetáculo ruim, de 12 atos, porque o coronel Pantaleão – um dramaturgo frustrado – quer, e eles dependem financeiramente dele. Tido como um velhaco nojento, ele também dá investias na virginal Laudelinda, que é incentivada pelos colegas a corresponder para não deixá-los em maus lençóis. Atual, também. Pelo riso e com leveza, “O Mambembe” denuncia questões assim. Mas há também algumas pausas para declamações sobre as maravilhas do teatro, cenicamente menos interessantes para quem vê.

Duas atrizes se revezam no papel de Laudelinda, a “primeira dama” da companhia: Giuliana Farias e Roberta Monção. Na sessão assistida, estava Giuliana, bem sucedida em sua defesa do papel, com meiguice, docilidade e indiscutível talento. O elenco é de alto nível, resultado também da direção de Rubens Lima Jr., que, entre os testes e a estreia, passa mais de seis meses trabalhando com os atores. Alguns nomes merecem destaque. Flora Menezes (Dona Rita), como diz um trecho da peça, “não tem direito de não estar no teatro”. Além de todas as qualidades técnicas, tem também o carisma. Rodrigo Naice (o Frazão) toma para si a condução do espetáculo, com eficácia; Joaz Perez (o Pantaleão) capricha no trabalho corporal e é um dos melhores atores em cena; e Ingrid Klug (Dona Vidinha e Dona Bertoleza) faz rir com facilidade. O coro tem unidade, é harmônico e apresenta belos números. Ainda com relação ao elenco, é importante sublinhar o ótimo trabalho de visagismo de Vitor Martinez, que colabora imensamente para a compreensão dos personagens.

Os figurinos de época, assinados por Rick Barboza, têm algo de positivamente farsesco. O cenário, de Cris de Lamare, é fundamentado em uma estrutura de dois andares, de ferro e madeira, que ganha diferentes painéis demarcando cada momento da história. É uma invocação do espírito mambembe. Ainda que os cenários de “O Jovem Frankenstein”, o musical anterior do projeto, fossem mais sofisticados, os daqui não comprometem a montagem – e ainda contam com a iluminação do renomado Paulo Cesar Medeiros, certamente um ganho. Na parte musical, “O Mambembe” supera “O Jovem Frankenstein” pela ótima banda ao vivo, ausente da outra vez. Guilherme Menezes é quem assina a direção musical, elogiável. Já as coreografias de Gabriel Demartine, um dos frutos do projeto, agora fora de cena, podiam ser mais elaboradas: não me agrada, particularmente, quando um elenco grande inteiro está fazendo exatamente o mesmo passo.

Em resumo, é uma montagem de qualidade, sem dúvidas, ainda que “The Book of Mormon” e “O Jovem Frankenstein”, as duas anteriores, fossem superiores, no geral. É importante lembrar que se trata do ambiente universitário e digo isso porque é fácil esquecer essa informação ao assistir ao que Rubens Lima Jr. concebe. O futuro do teatro musical carioca está nascendo ali, entre aqueles artistas. Dá para ser otimista.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Bianca Oliveira)

(Foto: Bianca Oliveira)

Ficha técnica

Elenco (por ordem de entrada):
D. Rita ………………………………. Flora Menezes
Eduardo …………………………….. Robson Lima
Laudelina …………………………… Giuliana Farias/Roberta Monção
Frazão ………………………………. Rodrigo Naice
D.Vidinha/D. Bertoleza ………… Ingrid Klug
Pantaleão …………………………… Joaz Perez
Chico Inácio ……………………….. João Saraiva
Madama ……………………………. Talita Silveira
Coro ………………………………….. Adriana Dehoul, Alessandra Quintes, Alexandre Neves, Barbara Sut, Bruno Nunes, César Viggiani, Diego Bastos, Edmundo Vitor, Felipe Carreiro, Guilherme Neto, Isabela Quadros, João Dabul, Julia Nogueira, Lucas Baptista, Maicon Lima, Maria Penna Firme, Marina Paiva, Pedro Ruivo, Rayza Noia, Victor Zott.

Banda:
Bateria: Raphael Dias e Pedro Prata
Piano: Victor Brum e Victor Camelo
Baixo: Fabio Rocco e Guilherme Ashton
Guitarra: Guilherme Menezes
Flauta: Erick Soares e Gabriel Ferrante

Direção: Rubens Lima Jr.
Texto: Arthur Azevedo e José Piza
Adaptação e Letras: Alexandre Amorim
Direção Musical: Guilherme Menezes
Coreografia: Gabriel Demartine
Direção de Arte e Cenografia: Cris de Lamare
Figurino: Rick Barboza
Caracterização/Visagismo: Vitor Martinez
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Direção de Produção: Marcus Brandão
Adereços de Cenário: Fernanda Correia, Pedro Luiz de Azevedo e Silas Pinto
Adereços de Figurinos: Edjane Guimas
Ilustrações: Camilla Camu Muniz
Produção Executiva (UNIRIO): Clara Costa, Giovana Abreu, Stephany Lins e Thayana Blois
Produção Executiva (Fundação CESGRANRIO): Bruno Torquato e Urbano Lopes
Produção Musical: Gabriel Gravina
Preparação vocal: Doriana Mendes
Orientadora de caracterização: Mona Magalhães
Assessoria Técnica: Prof. Ângela Reis
Assessora de imprensa: Amanda Barros
Programação Visual: Gabriella da Rocha
Fotografia: Bianca Oliveira
Assistente de Direção: Julio Ângelo
Assistência de Direção Musical: Maíra Garrido
Assistente de Coreografia: Isabela Vieira
Assistentes de Cenografia: Camilla Camu Muniz e Silas Pinto
Assistente de Figurinos: Nanda Gomides
Assistente de caracterização: Lucas Drigues
Equipe de caracterização: Adriana Dehoul, Bárbara Sut, Carolina Coimbra, Ingrid Klug, Lucas Baptista e Marianna Chaves
Postiços/Barbas: Vicente Baptista
Perucas da abertura: Rick Barboza
Cabeleireira: Katia Marques
Assistência de Produção Musical: Alexandre Seabra
Assistência de preparação vocal: Alessandra Quintes
Desenho de Som: Leandro Lobo e André Breda
Operador de Som: Alexandre Seabra e Filipe Cretton
Técnico de Som: Leo Maia, Jorginho e Nathan dos Santos Nascimento
Sonorização: Quintal da Ideia e MDM Sonorizações
Arranjos: Guilherme Menezes
Músicas originais: Gabriel Gravina, Guilherme Menezes e Guilherme Ashton*
*As canções O Armazém, Festa do Pantaleão e Laudelina e Pantaleão
Estagiários de Produção: Luiz Felipe Manso, Marianna Chaves e Tadeu Fernandes
Estagiários de Som: Alex Faria, Amanda Brasil, Eugênio Moreira, Gabriella Adami e Júlia Drummond
Estagiário de Recepção: João Manoel
Estagiários de Cenografia: Fernanda Correia e Pedro Luiz de Azevedo
Estagiários de Iluminação: Caroline Dias, Paulo Coquito e Victor Bueno

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h; seg, 21h. Entrada franca: distribuição de senhas 1h antes (e de pré-senha 3h antes). Até 15 de maio. Sala Paschoal Carlos Magno – Palcão da UNIRIO – Avenida Pasteur, 436, fundos – Urca. Tel: 2542-2205.

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