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Crítica: O Musical Mamonas – Theatro Net Rio

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A melhor característica de “O Musical Mamonas”, dirigido por José Possi Neto (de “Raia 30”), é sua fidelidade ao espírito divertido da banda de rock Mamonas Assassinas (1995-1996). O espetáculo se apoia em elementos de biografia, besteirol e show para resgatar a curta história do quinteto, que morreu em um trágico acidente de avião ao voltar de uma apresentação em Brasília. Entre o lançamento do álbum de estreia e a morte, passaram-se menos de nove meses – tempo suficiente para Dinho, Bento, Júlio, Samuel e Sérgio se tornarem inesquecíveis para os brasileiros.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Musicais biográficos são fórmulas certeiras para encher teatros, por se apropriarem de músicas consagradas e de figuras com forte apelo com o público. Não há muito espaço para originalidade. É sempre o mesmo: um pouco de história, um pouco de música, mais um pouco de história, mais um bocado de músicas. O público compra os ingressos para essa viagem nostálgica, para cantar junto. “O Musical Mamonas” proporciona esse clichê, mas também tira sarro da fórmula. A peça, escrita por Walter Daguerre, já começa em tom de palhaçada, com pretensão subversiva: os músicos estão no céu e recebem a missão angelical de voltar à Terra para montar um musical teatral contra a caretice que impera no Brasil atual. E essa é a única referência à morte dos Mamonas, porque o final é feliz. Dessa maneira metalinguística, os personagens começam a contar suas trajetórias em Guarulhos, com a formação da banda Utopia, que depois mudaria de nome e composições por sugestão de Rick Bonadio.

O espetáculo faz o público rir, como a banda, mas indiscutivelmente há também piadas bobas, cenas com excessos e personagens, inclusive principais, com construções extremamente pobres e limitadas. Por ser um tributo a uma banda de rock, a montagem também perde a chance de ter um elenco de atores-cantores-músicos (o que é pedir muito, sim, mas “Gilberto Gil – Aquele Abraço, o Musical” está aí com o elenco tocando 38 instrumentos). É controverso o musical de uma banda ter os personagens simulando tocar. Além disso, a direção musical de Miguel Briamonte optou por um som muito límpido, que parece uma base pré-gravada, quase um karaokê, e carece de uma pegada mais forte, com emoção e vitalidade. A banda invisível é competentíssima, mas, quando as cenas são de shows, e quase sempre são, falta punch.

O elenco principal do musical é formado por Yudi Tamashiro (Bento), Adriano Tunes (Júlio), Elcio Bonazzi (Samuel), Arthur Ienzura (Sérgio) e Ruy Brissac (Dinho). Na sessão vista, Ruy foi substituído por Rafael Aragão, incrivelmente carismático e seguro na condição de líder do espetáculo. Rafael dá um show e conquista os espectadores com facilidade. O elenco secundário se reveza entre vários papeis, e merecem elogios Patrick Amstalden (Rick Bonadio/Anjo Gabriel/Vereador) e Bernardo Berro (Jô Soares/Faustão/Rafael), ambos com as melhores interpretações cômicas. Os dois também são perspicazes na captação de detalhes de Rick Bonadio e Jô Soares.

Walter Daguerre e José Possi Neto conseguem juntos reconstruir momentos emblemáticos da carreira dos Mamonas e histórias que todo o público conhece. A entrevista para o Jô Soares e o show no Thomeuzão em Guarulhos (foco da trama) são ótimas. O cabo-de-guerra entre Faustão e Gugu Liberato, disputando os Mamonas nas tardes de domingo, é uma cena especialmente boa pela teatralidade. Além disso, o cenógrafo Nello Marrese encontra saídas criativas para as mudanças de ambientação que o texto demanda e coloca em cena a icônica Brasília amarela. Do mesmo modo, os figurinos de Fabio Namatame reproduzem figurinos e fantasias que marcaram a iconografia da banda. Tudo muito colorido, lúdico, infantil. O design de luz de Wagner Freire acentua essas características sem poluir o palco com mais informação.

O musical é para quem gostava dos Mamonas Assassinas, o que significa muita gente, pelas milhões de cópias vendidas em pouquíssimo tempo. Ele é uma grande festa, bem organizada, com a moral de persistir na busca pelos sonhos. Afinal, se o tempo de carreira da banda foi curto, pela morte de todos os integrantes, eles não se tornaram um sucesso da noite para o dia.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica
Texto – Walter Daguerre
Direção Geral – José Possi Neto
Direção Musical – Miguel Briamonte
Elenco:
Ruy Brissac – Dinho/ Adriano Tunes – Julio/ Yudi Tamashiro – Bento
Elcio Bonazzi – Samuel/ Arthur Ienzura – Sergio/ Rafael Aragão – Cover Dinho/ Patrick Amstalden – Rick Bonadio
Ensemble:
Vanessa Mello / Nina Sato / Gabriela Germano / Maria Clara Manesco
Marco Azevedo / Reginaldo Sama / Bernardo Berro / Andre Luiz Odin
Coreografia – Vanessa Guillen
Cenário – Nello Marrese
Figurinos – Fabio Namatame
Designer de Maquiagem e Cabelo – Anderson Bueno
Designer de Luz – Wagner Freire
Designer de som – Gabriel D’Angelo
Produtores associados – Rose Dalney, Márcio Sam e Túlio Rivadávia
Apresentado por Ministério da Cultura e Banco do Brasil Seguridade.
Patrocinado por Banco do Brasil Seguridade e realizado por MINIATURA 9

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50 (balcão 2) a R$ 120 (plateia e frisa). 150 min. Classificação: 12 anos. Até 28 de agosto. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.

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