Crítica

Crítica: O Preço

Decidida a estudar textos da dramaturgia norte-americana, a CiaTeatro Epigenia inicia uma trilogia de montagens de Arthur Miller com o espetáculo “O Preço”, depois da bem sucedida trilogia de peças David Mamet. Gustavo Paso, que dirigiu todo o projeto anterior, se mantém encabeçando a nova trilogia. Em “O Preço”, dirige quatro atores: Romulo Estrela (de “Apartamento 171”), Erom Cordeiro (de “Laio e Crísipo”), Glaucio Gomes (de “Festa de Aniversário”) e Luciana Fávero (de “Hollywood”), todos com atuações impecáveis.

(Foto: Gustavo Paso)

O preço do título não poderia ser mais apropriado. A trama trata de dois significados de “preço” – o valor monetário e o valor simbólico. A história se passa a partir do reencontro de dois irmãos depois de anos sem contato. Um se tornou um médico bem sucedido e o outro sobrevive com o salário de policial. Eles se reúnem para fechar (ou não) negócio com o avaliador da mobília da casa do pai falecido, que está para ser demolida. A discussão desse valor é direta e explícita. O reencontro, porém, traz à tona também uma reflexão acerca do preço que cada um teve que pagar pelas decisões que tomou na vida. Um foi egoísta e focou em seu plano de carreira, e o outro, que abriu mão de tudo para cuidar e garantir o sustento do pai doente, não conseguiu chegar aonde queria, embora fosse notadamente mais inteligente. Os dois se olham com diferentes níveis de desaprovação e estabelecer uma nova relação, já maduros, envolve o preço de engolir o orgulho e aceitar sua versão dos fatos talvez não seja a verdade absoluta.

Divisão de bens, reencontros familiares, conflitos entre irmãos tão diferentes e mágoas fraternais são gatilhos para incontáveis peças de teatro. Mas “O Preço” tem algo de especial. A construção da narrativa de Arthur Miller primeiro te apresenta a história da família pela visão de um irmão. Depois, quando o outro chega de surpresa, a maioria dos fatos conhecidos vão sendo desconstruídos e confrontados. Nunca fica totalmente definido quem tem a razão e quem vê apenas o que quer. Essa complexidade é o grande trunfo dessa ótima peça, indicada ao Tony Award quando foi montada pela primeira vez na Broadway, em 1968.

A direção de Gustavo Paso respalda as boas qualidades do texto, valorizando principalmente o trabalho de cada ator. Deste modo, Romulo Estrela carrega a vida de privações de seu personagem nas costas. É dele o papel do irmão que ficou cuidando do pai. É um personagem denso, que demonstra seu desconforto mais no corpo do que nas falas, até que explode vocalmente. Luciana Fávero, às vezes histérica na medida exata, encarna a esposa do policial, ambiciosa por uma vida melhor, constantemente pressionando o marido para tomar as decisões corretas. Erom Cordeiro brilha com a arrogância dos ricos crédulos de que podem resolver tudo com dinheiro. É o irmão bem sucedido, e também um tanto arrependido. Glaucio Gomes, por sua vez, dá o alívio cômico de toda essa tensão, no papel do avaliador inconveniente e intrometido. Todos os atores têm excelentes personagens. Funciona muito bem.

A montagem apresentada em formato de arena sofrerá modificações para as próximas temporadas,em palco italiano. No que se viu, o cenário criado por Gustavo Paso traz elementos dessa mobília antiga com grandes tapetes forrando o chão – o suficiente para criar o imaginário de um sótão. Há uma harpa, algumas cadeiras, mesinhas, e o elenco atua entre esses objetos, que os circundam. A iluminação de Bernardo Lorga acentua a atmosfera densa. Os figurinos de Luciana Fávero correspondem, em geral, às menções do próprio texto. O resultado do conjunto é mesmo muito positivo. “O Preço” é uma das melhores estreias do trimestre.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Gustavo Paso)

Ficha técnica

Texto: Arthur Miller

Tradução: Thiago Russo e Gustavo Paso

Direção: Gustavo Paso

Elenco: Romulo Estrela, Erom Cordeiro, Glaucio Gomes e Luciana Fávero

Figurinos: Luciana Fávero

Iluminação: Bernardo Lorga

Cenário: Gustavo Paso

Direção Musical: André Poyart

Direção de Produção: Luciana Fávero

Assistente de Ensaio: Vinicius Cattani

Administração da Temporada: Andre Roman

Designer: Paso D´Arte Eventos

Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação

Realização: CiaTeatro Epigenia

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 90 min. Classificação: 12 anos. Até 31 de março. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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