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Crítica: O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece – Theatro Net Rio

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Espetáculo original, “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece” mescla clássicos de musicais com jingles de comerciais de TV, o que não tem exatamente muito a ver. São 100 minutos embalados desde “Me dá, me dá, me dá, me dá Danoninho, Danoninho já…” até “Somewhere over the rainbown, way up high…”. A proposta, ousada, não nega sua origem mercadológica. Luiz Calainho, sócio da produtora Aventura Entretenimento, quis, com esse projeto, “estimular o setor da indústria criativa, aproximando a larga produção de musicais do país às marcas anunciantes e agências”. Podia ser uma peça apresentada apenas em convenções de executivos, mas o apelo popular é inegável. A plateia é conquistada rapidamente ao reconhecer os jingles do passado – até mais do que os sucessos de “O Mágico de Oz” ou “A Noviça Rebelde”. Os homens, acompanhando esposas e namoradas, também se divertem, de verdade.

(Foto: Caio Gallucci)

(Foto: Caio Gallucci)

Cabe ao dramaturgo e diretor Rodrigo Nogueira – que escreveu “Rock in Rio, o Musical”, “Chacrinha, o Musical” e “BarbarIdade” – fazer essa comédia musical dar certo. Ele criou a história de um casal em crise, vivendo em realidades completamente diferentes debaixo do mesmo teto. Dora é apaixonada por musicais, muito sonhadora, e Franco é um publicitário, dono de agência, fissurado por comerciais de TV. Sempre ligado nas telas, seja do tablet, do celular ou da TV, ele simplesmente não ouve a mulher. O marido se esquece do aniversário de 20 anos do casamento, preferindo comemorar o aniversário da primeira transmissão de TV, e ela surta e entra em transe. A partir disso, eles só conseguem se comunicar cantando. O texto é raso, mas gracioso e divertido.

O casal protagonista é interpretado por Amanda Acosta (de “My Fair Lady”) e Marcelo Várzea (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), com interpretações na medida certa. O elenco principal conta também com Reiner Tenente (de “Bilac Vê Estrelas”), Hugo Kerth (de “The Book of Mormon”) e Bia Montez (de “8 Mulheres”), que tem a personagem mais engraçada da peça, e aproveita todas as (muitas) oportunidades de brilhar. Bia interpreta uma senhora jovial e namoradeira, que é vizinha do casal e está sempre ali com boas tiradas. O coro tem ainda outros oito atores, que circulam pelas cenas vestidos como Dorothy (O Mágico de Oz), Don Lockwood (Cantando na Chuva), O Fantasma da Ópera e Maria (A Noviça Rebelde), entre outros.

Os números musicais, até mesmo os de jingles, são bem construídos. As coreografias de Rodrigo Negri e Priscilla Mota imprimem doçura na história, e as canções inéditas divertem por satirizar o gênero, ou seja, a si mesmo. Amanda Acosta torna até os jingles mais ínfimos em cenas dignas. A banda, com direção musical e arranjos de Tony Lucchesi, que assina três composições originais com Rodrigo Nogueira, fica no andar superior, aparecendo eventualmente.

(Foto: Caio Galluci)

(Foto: Caio Galluci)

O espetáculo se passa inteiro na sala da casa de Dora e Franco, um cenário bonito de Jackson Tinoco, que traz um estilo novo para as produções da Aventura, mais acostumada a apostar em megaproduções. Aqui, é a luz de Adriana Ortiz que supre as diversidades cênicas. Um problema é que os vizinhos e o colega de trabalho do marido entram e saem da casa, sem bater, tocar campainha ou pedir permissão, como se fosse o Passeio Público: é absurdo. Na parte superior, a peça reproduz, aleatoriamente e sem gancho dramatúrgico, publicidades famosas – como “O Primeiro Sutiã a Gente Nunca Esquece”, que inspirou o título da peça. Algumas concessões do artístico em prol do target publicitário incomodam, porém, como são apresentadas com humor, releva-se.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica

Consultoria criativa – Washington Olivetto
Texto e direção – Rodrigo Nogueira
Coreografia – Rodrigo Negri e Priscilla Mota
Direção Musical e Arranjos – Tony Lucchesi
Direção de arte e cenografia – Jackson Tinoco
Figurino – Paula Acioly
Design de som – Carlos Esteves
Iluminação – Adriana Ortiz
Casting – Marcela Altberg
Consultoria publicitária – Lula Vieira
Elenco – Marcelo Varzea, Amanda Acosta, Bia Montez, Reiner Tenente, Hugo Kerth, Marcelo Ferrari, Leandro Melo, Junior Zagotto, Pedro Arrais, Leilane Teles, Fabiana Tolentino, Debora Polistchuck e Carol Botelho
Músicos: Tony Lucchesi (teclado), Alexandre Queiros (teclado e violão), Diogo Gomes (trompete), Thais Ferreira (violoncelo), Luiz Felipe (violino), Pedro Aune (contrabaixo) e Léo Bandeira (bateria)
Realização – Aventura Entretenimento

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SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 21h30; dom, 18h30. R$ 50 a R$ 120 (sex) e R$ 50 a R$ 130 (sáb e dom). 100 min. Classificação: livre. De 8 de janeiro até 6 de março. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 145 – Copacabana. Tel: 4003-1212.

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