Crítica

Crítica: O Som e a Sílaba

Vários fatores separam a ópera do teatro musical – a linguagem, o lugar da música e dos diálogos, a origem dos artistas e dos formatos, entre outros. “O Som e a Sílaba”, espetáculo escrito e dirigido por Miguel Falabella (de “O Homem de la Manha”) especialmente para a atriz Alessandra Maestrini (de “Yentl em Concerto”), aproxima um pouco os dois universos, explorando suas qualidades, sem ser essencialmente nem um nem outro.

(Foto: Pedro Jardim de Mattos)

A história gira em torno de duas mulheres, Sarah Leighton (Alessandra) e Leonor Delise (Mirna Rubim, de “Paradinha Cerebral”). Sarah é uma jovem solitária, portadora de Síndrome de Asperger, um autismo altamente funcional, e quer ter aulas de canto para explorar melhor uma de suas habilidades específicas, a música. Leonor, por sua vez, é uma cantora de ópera elegante, com mais de 50 anos, também solitária mas menos sincera quanto a isso. Ela não se considera professora de canto: diz que “está professora de canto”. De início, não tem o menor interesse em dar aulas para Sarah, mas essa a convence a “lhe esticar uma mão” e as duas constroem juntas uma bela amizade, com grande impacto na vida de ambas.

A ópera, então, entra como elemento dramatúrgico. As árias apresentadas em “O Som e a Sílaba” são retiradas das composições originais de letristas como Giacomo Puccini, Charles Gounod e Léo Delibes e recontextualizadas para cenas de aulas de canto, por exemplo. “O Som e a Sílaba” obviamente não é uma ópera. Os diálogos são predominantes à música. Por outro lado, sua definição como musical teatral também é questionável. As canções raramente avançam com a história ou expressam pensamentos, sentimentos ou falas das personagens e, quando o fazem, acredito que a maior parte da plateia não entende as letras (óperas não são traduzidas). Elas poderiam ser substituídas por outras músicas sem perda de sentido na história. O que se vê no palco, neste caso, é um espetáculo musicado. A ópera entra como recurso para abrilhantar.

Neste aspecto, Mirna e Alessandra se complementam e caminham uma na direção da outra, em parceria bonita de apreciar. De formação lírica, Mirna Rubim se tornou atriz em um segundo momento de sua trajetória. Alessandra, por sua vez, galgou sua carreira como artista popular na TV e no teatro, e sua bela habilidade vocal ainda não é conhecida de todo o público. No palco, o que falta a uma, a outra compensa. Mirna impressiona e arranca muitos aplausos quando canta, e o público fica hipnotizado pela atuação e comicidade de Alessandra, que também entrega ótimas interpretações musicais.

Há algumas questões, claro. Na sessão assistida, o som do microfone de Alessandra estava com muitos ruídos, o que não comprometeu mas incomodou. O visagismo dela, para quem estava perto do palco, também era falho, deixando à mostra marcas da peruca descolando. Fora isso, o texto de Miguel Falabella demora a sinalizar seu norte e quais os objetivos das personagens, o que pode deixar a primeira parte da história um tanto maçante para parte da plateia. Ainda assim, “O Som e a Sílaba” é um espetáculo sofisticado. Os cenários criados por Zezinho Santos e Turíbio Santos dosam bem realismo e teatralidade, com alto valor estético; os vários figurinos assinados por Ligia Rocha e Marco Pacheco colaboram no rejuvenescimento de Alessandra e na curva narrativa da personagem de Mirna; a iluminação de Wagner Freire engrandece as vozes das artistas; e a direção de Miguel Falabella é muito sábia no uso dos silêncios e das pausas, algo que quem assistir vai entender que é importante para o aprendizado de Sarah Leighton.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Julia Lanari)

Ficha técnica

Texto e direção: Miguel Falabella

Elenco: Alessandra Maestrini e Mirna Rubim

Design de luz: Wagner Freire

Design de som: Mario Jorge Andrade

Figurinos: Ligia Rocha e Marco Pacheco

Visagismo: Wilson Eliodorio

Cenário: Zezinho Santos e Turíbio Santos

Produtora comercial: Carla Schvaitser

Direção de produção: Deco Gedeon

Direção de marketing: José Vinicius Toro

Assessoria de imprensa: Motisuki PR – Regis Motisuki e Vitor Deyrmandjian Rosalino e Nobre Assessoria – Aline Nobre e Lucas Pasin

Apresentação: Ministério da Cidadania e Porto Seguro

Realização: Maestrini Produções

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50 (plateia superior) e R$ 100 (plateia). Classificação: 14 anos. Até 21 de abril. Tetro XP Investimentos – Jockey Club – Avenida Bartolomeu Mitre, 110 – Leblon. Tel: 3807-1110.

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