Crítica

Crítica: Ocupação Rio Diversidade – Teatro SESI Centro

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Indicado ao Prêmio APTR por sua temporada anterior, a Ocupação Rio Diversidade, que antes dividia cômodos do Castelinho do Flamengo, agora é apresentada no palco italiano do Teatro Sesi Centro, onde fica até o dia 11 de fevereiro. Não se trata de um espetáculo. É a reunião de quatro monólogos curtos e independentes, apresentados em formato de evento, conduzido pela drag de cerimônias Magenta Dawning. Em comum, os quatro tratam de assuntos relacionados à sexualidade e à identidade de gênero. Daí, a diversidade. O programa entregue aos espectadores explica que o objetivo é fomentar uma dramaturgia com outras possibilidades, que não a de narrativas e protagonistas heterossexuais. O nome Ocupação, além disso, não deixa escapar o cunho político do evento.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

O projeto é idealizado pela dramaturga Marcia Zanelatto (de “Desalinho”), que assina o primeiro solo, interpretado por Larissa Bracher (de “Trágica.3”). Cada peça é escrita e dirigida por alguém diferente, ou seja, são quatro atores, autores e diretores envolvidos na ocupação. “Genderless – Um Corpo Fora da Lei”, o primeiro, tem direção de Guilherme Leme Garcia (“Fatal”), e conta a história de Norrie Way-Welby, primeira pessoa do mundo reconhecida legalmente como “sem gênero específico”, após 26 anos como homem e dez como mulher. O segundo é “Como Deixar de Ser”, de Daniela Pereira de Carvalho (de “Renato Russo”), dirigido por Renato Carrera (de “Abajur Lilás”), com atuação de Kelzy Ecard (de “Incêndios”): trata de uma mulher de meia-idade, ainda no armário. O terceiro monólogo, “A Noite em Claro”, coloca em cena o assassino de um homem gay: o michê, que se considera heterossexual, mata o cliente em um crime de intolerância. O texto é de Joaquim Vicente , dirigido por Cesar Augusto (de “A Tropa”), com atuação de Thadeu Matos (de “Vampiras Lésbicas de Sodoma”). O último, “Flor Carnívora”, de Jô Bilac (de “Conselho de Classe”), utiliza da metáfora do hermafroditismo das plantas para contestar a catalogação humana do que é naturalmente diverso. Em cena, a atriz Gabriela Carneiro da Cunha (de “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”) se desnuda para dar vida à flor carnívora do título, com direção de Ivan Sugahara (de “El Pánico”).

Caberia uma descrição e avaliação mais detalhadas de cada solo, mas é mais importante tratar do conjunto. Em resumo, temos um agênero, uma lésbica reprimida, um assassinato motivado por homofobia, e as plantas em seu show sob a humanidade. A diversidade proposta no nome da ocupação é concretizada tanto na temática quanto no formato, graças à pluralidade de profissionais envolvidos. Enquanto “Genderless” é encenado apenas com um jogo entre a atriz e a luz de seu tablet, o solo seguinte, “Como Deixei de Ser”, ganha um cenário grande e criativo. Já o terceiro propõe uma coreografia com luz e sombra, câmera no palco e exibição em close no telão. No último, “Flor Carnívora”, a intenção intermídia ultrapassa as paredes da sala do teatro. Desse modo, fora as histórias – umas mais envolventes do que outras -, o público também é surpreendido em cada solo pelas diferentes linguagens propostas. As encenações assinadas por Cesar Augusto e Ivan Sugahara são particularmente interessantes.

A linearidade proposta também comunica. Primeiro, um ser humano vanguardista, livre de rótulos sociais. Em seguida, uma mulher enclausurada na heteronormatividade. Porque, no mesmo tempo e espaço, existem os dois comportamentos, mesmo: a liberdade e a prisão. Na terceira história, um assassinato cuja única motivação é a sexualidade da vítima. No último, a redução da discussão às plantas, para ficar mais fácil do ser humano entender. Enquanto as três primeiras peças são obscuras, marcadas por pouca ou nenhuma luz, a última é solar. Tudo isso faz pensar.

Em algum momento do evento, Magenta fala sobre representatividade – realmente um ponto importante. Reconhecer-se nas dramaturgias, identificar-se. O Rio Diversidade ocupa uma lacuna de multiplicidades, que outros espetáculos também se propõem a fazer, mas com limitações: ter quatro histórias compiladas juntas proporciona essa leitura mais ampla. É uma pena que o teatro não esteja lotado. Merecia, e precisava estar. Não é uma comunicação que deva ficar restrita a poucos, ou ao nicho LGBTQ. O diálogo deve ser ampliado. Descobrir como é uma missão.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Idealização e Direção Geral: Marcia Zanelatto
Elenco: Bruno Henriquez, Gabriela Carneiro da Cunha, Kelzy Ecard, Larissa Bracher e Thadeu Matos
Direção: César Augusto, Guilherme Leme Garcia, Ivan Sugahara e Renato Carrera
Cenários e Design Gráfico: Daniel de Jesus
Iluminação: Daniela Sanchez e Tiago Mantovani
Design de Som para a peça “Genderless”: Marcello H.
Visagismo: Márcio Mello
Cenotécnico: Renato
Contrarregragem: Renato Barreto e Cristiane Murilo
Técnico de Luz: Anderson Peixoto
Fotos: Elisa Mendes e Juliana Chalita
Vídeo: Diogo Fujimura
Edição de Vídeo: Raquel Diniz
Mídias Sociais: Marina Rattes
Assistente de Produção: Glauco Deris
Produção Executiva: Pedro Uchoa
Direção de Produção: Juliana Mattar
Realização: Transa Arte e Conteúdo

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SERVIÇO: qui e sex, 19h30; sáb, 19h. R$ 40. 110 min. Classificação: 18 anos. Até 11 de fevereiro. Teatro SESI Centro – Avenida Graça Aranha, 1 – Centro. Tel: 2563-4163.

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