Crítica: Os Guardas do Taj – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Os Guardas do Taj

A montagem brasileira de “Os Guardas do Taj”, texto do americano Rajiv Joseph, marca o encontro de dois galãs nos palcos: Reynaldo Gianecchini (de “A Toca do Coelho”) e Ricardo Tozzi (de “Roque Santeiro, O Musical”). No espetáculo, contudo, não há lugar para o charme e a beleza que lhes são intrínsecos. Sob direção de João Fonseca e Rafael Primot (dupla de “O Livro dos Monstros Guardados”), os atores interpretam Humayun e Babur, amigos que trabalham como guardas da inauguração do Taj Mahal – monumento indiano construído por 20 mil homens ao longo de duas décadas e inaugurado em 1648. Pouco a pouco, os limites dos personagens vão sendo testados e eles definham aos olhos do público. Até que a amizade é colocada à prova. O que é certo e errado? Quem decide?

(Foto: Divulgação)

Apesar da cumplicidade de Humayun e Babur desde a infância, eles são completamente diferentes: um é rígido quanto às regras ditatoriais e o outro é bastante questionador. As distinções são potencializadas por causa das situações-limite às quais são conduzidos. Primeiro, participam da inauguração do Taj Mahal, onde são proibidos de olhar para o monumento, obrigados a se manterem de costas. Depois, são incumbidos de amputar as mãos de todos os operários que participaram da construção do palácio – um capricho violento ordenado pelo imperador para que ninguém volte a construir algo tão bonito quanto o Taj Mahal. Os dois ficam desnorteados após cumprirem a missão, mas reagem de diferentes maneiras com o que se sucede.

Cabe um parênteses. Localizado em Agra, na Índia, o Taj Mahal é considerado um patrimônio da humanidade pela UNESCO e foi eleito uma das novas sete maravilhas do mundo em 2007. O monumento é, na verdade, um mausoléu idealizado pelo imperador Shan Jahan para uma de suas esposas, Aryumand Banu Begam, que tinha o apelido de Mumtaz Mahal. Foi construído como uma homenagem depois que ela morreu no parto de um filho. Com isso, o palácio ficou conhecido como a maior prova de amor do mundo. Contudo, paradoxalmente guarda essa lenda de que o imperador teria mandado mutilar todos os operários para que nada tão bonito quanto Taj Mahal fosse construído novamente. Não existem comprovações históricas dessa loucura, mas é nela que o espetáculo se baseia.

O premiado texto de Rajiv Joseph – originalmente estreado em 2015 no Off-Broadway – começa bem humorado, sinalizando as distinções entre os amigos, e passa uma impressão errada para o espectador do que será esse espetáculo. A peça pode ser dividida em três momentos: esse primeiro, em que eles estão de costas para o Taj Mahal; o segundo, depois de amputarem 40 mil mãos; e o terceiro, com as consequências profissionais e psicológicas desse ato. Da primeira para a segunda parte, há um corte brusco e uma mudança drástica de tom, que impacta a plateia. O texto, gatilho para a reflexão da obediência cega a leis criadas por poderosos inescrupulosos, ganha força com a direção, que propõe uma estética sanguinária. Não vou entrar em detalhes para não tirar a potência da experiência para quem for assistir. As cenas chegam duras, incômodas. A espectadora do meu lado ficou com o estômago embrulhado. É a violência da estética que mais afeta o público. O espetáculo não é inofensivo, e esse é seu maior trunfo. Gianecchini e Tozzi têm boas atuações, satisfatórias, com destaque para a perturbação do personagem de Tozzi, um ótimo momento do ator.

O cenário (de Marco Lima) é composto por paredes móveis, que expandem o espaço ou enclausuram os personagens, dependendo do momento, e ganha com a projeção em vídeo (do Estúdio Bijari) na reta final. A iluminação de Dani Sanchez e a trilha sonora, com música original de Marcelo Pellegrini, têm sincronia perfeita na execução de efeitos, quase cinematográficos. Os figurinos de Fabio Namatame são ricos em detalhes, para serem vistos de perto e de longe, e vão do luxo ao lixo com a simulação de sangue, proporcionada pelo visagismo desconcertante de Guilherme Camilo. O resultado de “Os Guardas de Taj” é melhor do que eu esperava. Bom espetáculo, e atual: questionar e pensar diferente ainda mata muita gente, não só em ditaduras, mas também em supostas democracias. Escolher seguir regras arbitrárias ou confrontá-las: ambos os caminhos acabam tendo seu preço.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: João Caldas)

Ficha técnica:
TEXTO Rajiv Joseph
TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO Rafael Primot
DIREÇÃO Rafael Primot e João Fonseca
ELENCO Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi
MÚSICA ORIGINAL Marcelo Pellegrini
FIGURINO Fabio Namatame
CENÓGRAFO Marco Lima
VÍDEO PROJEÇÃO Estúdio Bijari
ILUMINAÇÃO Dani Sanchez
CENOTECNICO Fernando Brettas. Ono-Zone Estúdio
CENÓGRAFO ASSISTENTE Cesar Bento
PRODUÇÃO MUSICAL – Surdina
PREPARADOR CORPORAL (MÉTODO SUZUKI) Fabiano Lodi
VISAGISMO Guilherme Camilo
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO (ENSAIOS) Bruno Fagotti
PROGRAMAÇÃO VISUAL Vicka Suarez
ADAPTAÇÃO PROJETO GRÁFICO Erik Almeida
FOTOS PROGRAMAÇÃO VISUAL Fernando Torquatto
FOTOS DE CENA PORTUGAL Rogério Martins
FOTOS DE CENA BRASIL João Caldas Fº
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA Andréia Machado
MÍDIAS SOCIAIS: Dani Angelotti e Luciano Angelotti – Cuboweb
FILMAGENS E EDIÇÕES PARA WEB Jady Forte – Desteatrando
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Egberto Simões
PRODUÇÃO EXECUTIVA Martha Lozano
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO Bárbara Santos
ASSISTENTE ADMINISTRATIVA Alcení Braz
ADMINISTRAÇÃO Danilo Bustos
IDEALIZAÇÃO: Rafael Primot e Enkapothado Artes
PRODUTORAS: Selma Morente e Célia Forte
REALIZAÇÃO: Morente Forte Produções Teatrais
TEXTO RELEASE: MORENTE FORTE
ASSESSORIA DE IMPRENSA RJ Barata Comunicação
ASSESSORIA DE IMPRENSA SP Daniela Bustos, Beth Gallo e Thaís Peres – Morente Forte Comunicações

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h30; dom, 18h. R$ 90. 75 min. Classificação: 12 anos. Até 3 de junho. Teatro XP Investimentos – Avenida Bartolomeu Mitre, 1314 – Gávea. Tel: 4003-6860.

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