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Crítica: Os Realistas – Teatro Poeira

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Trazido ao Brasil pela atriz Debora Bloch, o texto “Os Realistas” (The Realistic Joneses), do dramaturgo norte-americano Will Eno, utiliza a aproximação de dois casais de vizinhos de uma cidade bucólica para tratar de morte, medo, solidão, falsas aparências, compartilhamento e identificação. A primeira cena entrega rapidamente que há algo mal no casamento dos Silva, mas conforme a peça se desenrola o espectador percebe que os outros Silva – sim, eles têm o mesmo sobrenome – são mais semelhantes do que deixam aparentar. Com as interpretações de Debora Bloch (de “Brincando em Cima Daquilo”), Emílio de Mello (de “In on It”), Fernando Eiras (de “O Grande Circo Místico”) e Mariana Lima (de “Nômades”), isso fica realmente maravilhoso.

(Foto: Divulgação / Leo Aversa)

(Foto: Divulgação / Leo Aversa)

O texto começa com uma conversa de Júlia (Mariana) e José (Fernando) sentados à mesa, em lados opostos, ela querendo conversar, ele “só querendo ficar sentado”. Há um claro problema de comunicação entre os dois. Ele tem uma doença rara, sobre a qual não gosta de falar nem de saber de nada, e ela, de esposa, vira uma espécie de enfermeira, administrando todo seu tratamento. De repente, os dois são surpreendidos por João (Emílio) e Pônei (Debora), que chegam agarrados, rindo, animados, com uma garrafa de vinho na mão. São os vizinhos recém-mudados, que, fora o sobrenome igual, parecem significar o extremo oposto. Mas só parecem. Em meio a trivialidades, como idas ao médico e ao supermercado, os casais se inter-relacionam e o público disseca mais sobre cada personagem e o quadro geral que formam. Se as angústias são as mesmas, seriam diferentes apenas as maneiras de camuflá-las?

Falando assim, pode induzir ao erro. A obra de Will Eno não apresenta uma progressão óbvia na narrativa. É um texto sobre personagens, e não sobre o que acontece com eles, portanto vê-se o passar dos dias, e como eles se comportam. Cabe muito aos atores fazer dar certo – e esses quatro estão esplêndidos. Não há uma inspirada ou expirada fora de lugar, que não façam sentido em cena, e é um enorme prazer assisti-los. O peso nas costas de Júlia, o desânimo de José, o mistério de João e as nuances de Pônei são muito críveis. Também é primorosa a direção de Guilherme Weber (de “Thom Pain – Lady Grey”), que é um especialista em Will Eno, com o título de ator que mais encenou o Eno em todo o mundo. Suas opções cênicas engrandecem o espetáculo.

Tecnicamente, é tudo no ponto. O cenário não menospreza a inteligência do público e, junto com a trilha sonora e a sonoplastia, causa uma ambientação em toda a sala: é como se o espectador estivesse ali naquele lugar também, espiando tudo. Os figurinos são plausíveis, e colaboram com a construção dos personagens no imaginário da plateia.

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Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural

Ficha técnica

Texto – Will Eno
Tradução – Erica de Almeida Migon e Ursula de Almeida Migon
Direção Geral, Adaptação e Trilha Sonora – Guilherme Weber
Elenco – Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima
Cenografia – Daniela Thomas e Camila Schmidt
Figurinos – Ticiana Passos
Iluminação – Beto Bruel
Direção de Produção – Alessandra Reis

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 70 (qui e sex) e R$ 90 (sáb e dom). Classificação: 12 anos. De 14 de janeiro até 27 de março. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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