Crítica

Crítica: Os Sete Gatinhos

(Foto: Dalton Valerio)

O inocente título de “Os Sete Gatinhos” não dá ideia do conteúdo da peça de Nelson Rodrigues (1912-1980), mas qualquer um que conheça minimamente sua obra imagina que há algo oculto. O texto, apresentado pela primeira vez em 1958, faz parte das chamadas “tragédias cariocas” – definidas assim pelo próprio dramaturgo. Nesta peça, ele trabalha com a antítese virgindade/prostituição no seio de uma família. Quase 60 anos após sua estreia, o texto ganha uma nova montagem sob cuidados da Cia. Teatro Esplendor, com direção de Bruce Gomlevsky (de “Festa de Família” e “O Funeral”), provando que ainda é potente. O espetáculo, protagonizado pelo ator Tonico Pereira (de “O Beijo no Asfalto”), marca a reinauguração do Teatro Nelson Rodrigues, no Centro.

A história gira em torno da família apodrecida de Seu Noronha, formada por ele, sua esposa e cinco filhas. Todas as irmãs mais velhas se prostituem para garantir que a mais nova, Silene, de 16 anos, mantenha sua pureza e possa ter um casamento digno – diferentemente de todas elas. De imediato, Nelson Rodrigues já provoca desconforto ao tratar da hipocrisia da sociedade: todas as prostitutas da família têm também outros empregos, para manter as aparências. No entanto, essa é a camada mais superficial da dacadência do lar – encabeçado por uma mãe passiva e um pai autoritário. Todos vêem na virgindade de Silene a salvação do nome da família. O conflito aparece quando ela é trazida de volta para casa, de surpresa. Silena foi expulsa do colégio interno por ter matado a pauladas uma gata grávida. Seu retorno proporciona uma série de descobertas e consequências fatídicas. As viradas são muito bem estruturadas.

Como costuma acontecer nas peças de Nelson Rodrigues, os desenlaces mais absurdos e incômodos são apresentados com humor. A direção de Bruce Gomlevsky acentua esse aspecto em vários pontos, principalmente com dois músicos no palco, que sublinham a comicidade por meio da sonoplastia ao vivo. Tonico Pereira, em especial, é cheio de timing cômico em sua atuação, o que torna a trama mais digerível e não menos forte. O cenário de Fernando Mello da Costa exibe vários cômodos da casa ao mesmo tempo, cheia de quinquilharia, em roforço de tudo que há de caquético e degradante nas vidas dos personagens (na peça, há uma menção a pênis voadores desenhados no banheiro – como se fosse um banheiro público). Os figurinos de Carol Lobato, em um primeiro momento, também despertam o riso pela vulgaridade. Menos criativa, a iluminação, assinada por Elisa Tandeta, não traz variações.

Além de Tonico, o elenco traz mais dez atores em cena – todos muito conscientes de seus papéis para o todo, com trabalhos competentes. Alguns destaques são Alice Borges (de “Bilac Vê Estrelas”), como a mãe da família, Karen Coelho (de “Branca”), como a primeira irmã que o público conhece, Gustavo Damasceno (de “Festa de Família”), como o homem por quem ela se apaixona no ponto de ônibus, e Thiago Guerrant (de “Festa de Família”), como o representante do colégio que comunica a expulsão de Silene à família. Ótimos trabalhos. Essa montagem se faz especial. Vale a pena ver e conhecer o teatro reformado.

(Foto: Dalton Valerio)

Ficha técnica
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Bruce Gomlevsky
Elenco / Personagem:
Alice Borges / D. Aracy
Tonico Pereira e Lourival Prudêncio / Seu Noronha
Karen Coelho / Aurora
Louise Marrie / Silene
Luiza Maldonado / Arlete
Patricia Callai / Débora
Ingrid Gaigher / Hilda
Gustavo Damasceno / Bibelot
Jaime Lebovitch / Seu Saul
Luiz Furlanetto / Dr. Bordalo
Thiago Guerrant / Portela
Músicos: Felipe Cotta e André Silvestre
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Wagner Pinto
Direção de Produção: Luiz Prado
Realização: LP ARTE Produções
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: qui e sex, 20h; sáb e dom, 19h. R$ 40. 90 min. Classificação: 16 anos. Até 29 de outubro. Teatro da Caixa Nelson Rodrigues – Avenida República do Chile, 230 – Centro. Tel: 3980-3815.

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