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Crítica: Os Sonhadores – Oi Futuro Ipanema

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Quando chega aos palcos um espetáculo chamado “Os Sonhadores”, não são necessárias explicações. A referência ao filme homônimo do italiano Bernardo Bertolucci (vencedor do Oscar por “O Último Imperador”) é instantânea. O longa-metragem popularizou a história escrita pelo escocês Gilbert Adair (1944-2011) e conquistou seus próprios fãs. Cultuado por cinéfilos, o “filme de festival” lotou suas sessões no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo em 2004. São vários os atrativos para essa turma: o diretor, o erotismo, Paris, o movimento de maio de 1968, o espírito libertário e principalmente a penca de referências a filmes clássicos. A peça mantém tudo isso, embora os créditos apontem uma dramaturgia “a partir do romance ‘The Dreamers’ de Gilbert Adair” – e você logo vai entender o porquê.

(Foto: Dalton Valerio)

(Foto: Dalton Valerio)

Na história, do livro, do filme e do espetáculo teatral, os jovens Theo e Isabelle são irmãos gêmeos franceses que mantêm uma relação incestuosa cheia de jogos psicológicos. Por conta de um interesse em comum, o cinema, conhecem o estudante americano Matthew, recém-chegado a Paris em intercâmbio, e rapidamente estabelecem uma amizade, e um triângulo amoroso (nada convencional ou clichê). É quando eclodem as manifestações estudantis nas ruas e uma série de protestos revolucionários. O curador da cinemateca é demitido e o local é fechado, o que catapulta manifestações juvenis nas ruas. Mas tudo que o trio quer é ver seus filminhos. Na impossibilidade disso, se trancam no apartamento dos irmãos, que acabaram de ficar sozinhos, pois os pais viajaram. Entre quatro paredes, propõem-se desafios de conhecimentos cinematográficos e aventuras sexuais livres de amarras e moralismos, sem “distinção entre o que é vida e o que é sua mera representação”. Na montagem em cartaz, esses personagens interessantes são interpretados por Igor Angelkorte (de “Elefante”), Bernardo Marinho (de “Momo e o Senhor do Tempo”) e Juliana David (de “A Bela e a Fera”), com direção de Vinícius Arneiro (de “Cássia Eller, o Musical”).

A adaptação do texto é de Diogo Liberano (de “O Narrador”), que manteve a maioria das cenas marcantes da trama. Estão na peça o jantar com os pais, a aposta de corrida no museu (referência ao filme “Bande à Part”, de 1964), a sensualidade na banheira, a primeira transa de Isabelle e Matthew, e a pedra que entra pela janela. É na reta final que Liberano faz as maiores alterações, acentuando o cunho político que não abala os personagens durante toda a narrativa. Theo, Isabelle e Matthew são despertados de sua alienação por essa pedrada. Depois de vários dias sem sair de casa, muito mal assistindo à revolução pela janela, os três vão às ruas – sem causa, ignorantes de que luta se luta. Um quarto personagem os apresenta “O Capital”, de Karl Marx. Liberano realmente toma algumas liberdades (não há o flagra dos pais, nem a tentativa de Isabelle matar os três), provavelmente motivado pelo panorama nacional desde as manifestações de junho de 2013 (“não é só pelos 20 centavos”). A questão é que trazer “Os Sonhadores” à plateia atualmente já é suficientemente significante, repleto de possibilidades de traçar vários paralelos entre 1968 e 2016. Não precisa de mais. No entanto, o dramaturgo repentinamente cria curvas inverossímeis para os personagens, usando os alienados para propor didaticamente o inverso ao público. Ao dizer para o espectador se posicionar (não ser um sonhador invisível), pesa a mão e é quase panfletário. Não seria um problema, se não resultasse pouco crível para o fio narrativo. É uma quebra que a plateia sente.

É difícil definir porque “Os Sonhadores” agrada tanto, ou não, desde Bertolucci. O Rio de Janeiro já viu, inclusive, outra tentativa de levar a história para os palcos – com a peça “Os Inocentes”, do Brecha Coletivo, em 2010. No espetáculo de Vinícius Arneiro, o ponto alto é a plasticidade. Cenário, figurinos (ou a ausência deles) e jogos de luz evocam constantemente a sétima arte – com elogios também para a trilha sonora. A quarta parede é materializada no palco, com uma enorme tela, enquadrando os atores como se fosse uma sala de cinema. A própria estrutura cenográfica já funciona como recortes, também. É lindo. Os efeitos possibilitados por esse artifício, em união com o design de luz, proporcionam verdadeiros frames. Logo na primeira cena, por exemplo, os atores forjam um slow motion bem coreografado, que é difícil de acreditar que está mesmo acontecendo ao vivo diante dos olhos. Parece gravado de tão perfeito. Quanto às conhecidas cenas de nudez (são várias e sucessivas), elas são tratadas com bastante crueza. O erotismo cede espaço para a consciência política na versão teatral de “Os Sonhadores”. Há projeções de frases de efeito e de imagens de arquivo de manifestações e protestos nas ruas, por exemplo. Pode-se dizer que Liberano e Arneiro conseguiram imprimir uma assinatura nessa obra tão conhecida.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Dalton Valerio)

(Foto: Dalton Valerio)

Ficha técnica:
Dramaturgia: Diogo Liberano, a partir do romance The Dreamers de Gilbert Adair
Direção: Viniciús Arneiro
Elenco: Bernardo Marinho, Igor Angelkorte e Juliana David
Co-Dramaturgia: Dominique Arantes
Diretora Assistente: Morena Cattoni
Direção Musical: Tato Taborda
Cenário: Aurora dos Campos
Direção de Imagens: Allan Ribeiro
Figurino: Graziela Bastos
Iluminação: Rodrigo Belay
Design: Radiográfico
Produção Executiva: Camila Martins Ribeiro e Marcelo Cabanas | Bateia Cultura
Coordenação Administrativa: Jéssica Araújo
Direção de Produção: Liliana Mont Serrat
Apoio Cultural: Oi

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. Classificação: 18 anos. Oi Futuro Ipanema – Rua Visconde de Pirajá, 54 – Ipanema. Tel: 3131-9333.

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