Crítica

Crítica: Ouvi Dizer Que a Vida É Boa

Que sonho você tem deixado para depois? O novo espetáculo da Cia. Dramática de Comédia, “Ouvi Dizer Que a Vida É Boa”, mostra como uma pessoa pode sucumbir à rotina e não realizar aquilo que mais quer na vida. Com trilha sonora executada ao vivo pelos atores-músicos, conta-se a história de uma mulher que passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro sem nunca ter visto o mar. Morando longe das praias, a baldeação de ônibus-trem-outro-ônibus se tornou um obstáculo insuperável. Soa incrível, mas é verídico: a peça – escrita por João Batista Leite (de “Satã, um Show Para Madame”) – se inspira em uma matéria de jornal, na qual uma senhora revelava nunca ter realizado o sonho de ver o mar, mesmo morando no Rio: “uma hora é uma coisa, outra hora é outra coisa, o tempo vai passando…”.

(Foto: Rai Junior / Divulgação)

A personagem é vivida pela atriz Carol Machado (de “Antes Que Tudo Acabe”) da infância até a velhice. O espetáculo se inicia com a menina pedindo aos pais para ir à praia e ouvindo sempre que eles irão “outro dia”, “algum dia”, “hoje não, amanhã não, depois, com calma”. Ela cresce e vê no amigo do irmão a chance de realizar seu sonho. Ele está de viagem marcada para o Rio para trabalhar como porteiro e morar no serviço, “que é só atravessar a rua e está na praia”. Ela casa-se com ele e viaja junto. Mas o destino lhe prega uma peça e o casal vai viver em um morro, muito longe da praia. Ele, sim, trabalha de frente para o mar. Ela, logo presa à casa e aos filhos, nunca consegue atravessar a cidade para tal. Cada dia é um obstáculo diferente – alguns reais, outros criados, imaginários. É fácil se identificar. O mar da protagonista pode ser qualquer outro adiamento nosso: uma visita a alguém, um livro não aberto, um curso desejado, um bolo prometido, uma aventura qualquer. É sempre mais fácil adiar e seguir no conforto da idealização. Mais fácil, porém, não significa melhor.

O texto é muito motivacional, sem pieguismo ou imperativo. Cada espectador pode associar com algo que está empurrando em sua própria vida enquanto o tempo passa. Contudo, a mensagem é breve e a peça não tarda a ficar repetitiva, porque não tem material suficiente a ser desenvolvido. É como se ela mesma embromasse e não alcançasse o sonho de seu encerramento, enquanto o tempo passa. Os 60 minutos de duração parecem demorar muito mais para passar. Fiquei com a impressão que um poema daria conta da ideia belamente.

A ótima encenação explora as alegorias da peça de maneira lúdica e delicada. As músicas originais, criadas pelo diretor musical Marcelo Alonso Neves, dão o tom do espetáculo. O elenco, alternando-se entre os instrumentos musicais, o canto e os múltiplos personagens, brinca no palco, no melhor dos sentidos. Carol Machado é muito expressiva e consegue ser marcante e sutil ao mesmo tempo no que concerne às nuances de sua personagem, associadas à passagem do tempo. Além dela, Ana Moura (de “Valsa nº 6”), Cleiton Rasga (de “O Homem da Cabeça de Papelão”), Giselda Mauler (de “O Homem da Cabeça de Papelão”), Lucas Miranda, Luciano Moreira (de “Cabeça [um documentário cênico]”) e Sonia Praça (de “O Homem da Cabeça de Papelão”) dão vida à peça.

A frágil cenografia de Dóris Rollemberg Cruz, no teatro de arena, é compensada por um design de luz esplêndido de Renato Machado. Carol e os holofotes estão coreografados em um jogo durante toda a apresentação. A luz chama a atenção positivamente desde o início: ela conduz o espetáculo. Os figurinos, de Mauro Leite Teixeira, são estampados e coloridos, acentuando o caráter lúdico. No caso da protagonista, a mesma roupa se adequa a todas as fases da vida: o que diferencia as idades são os penteados da atriz, e é curioso ver como funciona. É uma montagem interessante e graciosa para uma dramaturgia limitada.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Rai Junior / Divulgação)

Ficha técnica

Autor e Diretor: João Batista Leite

Elenco: Ana Moura, Carol Machado, Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Lucas Miranda, Luciano Moreira e Sonia Praça

Trilha Sonora Original e Direção Musical: Marcelo Alonso Neves

Cenografia: Dóris Rollemberg Cruz

Iluminação: Renato Machado

Figurino: Mauro Leite Teixeira

Preparadora vocal: Paula Bentes Leal

Fotografia e vídeo: Rai Júnior

Produção: Palavra Z Produções Culturais

Direção de Produção: Bruno Mariozz

Realização: Companhia Dramática de Comédia

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 60 min. Classificação: 12 anos. Até 1º de julho. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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