Crítica: Para Onde Vão os Corações Partidos – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Para Onde Vão os Corações Partidos

A cortina já está aberta quando o espectador entra no Teatro Ipanema para assistir “Para Onde Vão os Corações Partidos”, peça da argentina Cynthia Edul, aqui dirigida por Guilherme Piva (de “Heisenberg – A Teoria da Incerteza”). Os atores estão no palco, já na pele de seus personagens, e o o cenário de Bia Junqueira chama mesmo a atenção: recria toda a ambiência de uma praia de maneira criativa e quase infantil, com tecidos e cores. Depois dos atores e da cenografia, o espectador se dá conta da sonoplastia que o acompanhará durante toda essa jornada: o som das ondas, que são quase outro personagem na montagem.

(Foto: Paula Kossatz)

A peça acompanha o recorte de uma tarde na vida de uma família composta pela mãe, seus dois filhos adultos e uma filha adolescente. Eles estão, com diferentes níveis de desgosto, em uma praia para onde costumavam ir no passado – quando os filhos eram crianças e o pai era vivo. Uma nostalgia superficial encobre incômodos e ressentimentos, que não tardam a vir à tona revelando um clã disfuncional. Eles esperam a chegada de um tio, que nunca chega. Todos parecem saber que o parente não aparecerá, ninguém quer estar ali, mas também ninguém vai embora.

O texto não esclarece motivações, intenções e condições dos personagens, e entrega ao público apenas o que a família se permite expor em público. Os personagens são construídos e apresentados a partir da relação conflituosa entre eles. O contexto é esburacado. Aos poucos, entende-se que se trata de um reencontro e que eles não ficam juntos há muito tempo. A ida à praia do passado representa uma tentativa de resgate de algo que já não existe mais. Ou de alguém que já não existe mais. A filha adolescente, interpretada por Julia Dalavia (de “Gypsy”), se isola dos demais com um fone de ouvido, até que vomita todos seus recalques. A filha mais velha (Clara de Andrade, de “Crônicas de Nuestra América”) faz o mesmo, menos incisiva, com um livro. O filho (João Pedro Zappa, de “A Importância de Ser Perfeito”), único homem na família, está entediado e mostra-se implicante e inconveniente com todas – um chato. A mãe (Cristina Amadeo, de “Corte Seco”), insistente para que esperem o tio, parece viver em uma realidade paralela, de quem se nega a aceitar o presente. O elenco é harmônico.

A direção realista de Guilherme Piva contrasta com as lacunas da peça, que permitem leituras mais lúdicas, e com a cenografia, engrandecida pela iluminação de Renato Machado, demarcadora da passagem de tempo. No que concerne à utilização do espaço, ora os atores fora de cena permanecem no palco, sentados em uma cadeira na lateral (deixando a incerteza se é ou não para serem vistos, embora o sejam) e ora se retiram para a coxia. A flexibilidade nos códigos não ajuda na construção de um pacto com a plateia, o que é sentido como um todo na montagem.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Paula Kossatz)

Ficha técnica

Dramaturgia Cynthia Edul

Tradução Sérgio Flaksman

Direção Guilherme Piva

Elenco Clara de Andrade, Cristina Amadeo, Julia Dalavia e João Pedro Zappa

Cenografia Bia Junqueira

Figurinista Antônio Medeiros

Iluminação Renato Machado

Direção Musical Rodrigo Marçal

Fotos Paula Kossatz

Programação Visual Raquel Alvarenga

Textos Projeto Aline Cardoso

Produção Executiva Dayana Lima

Produção de Ensaio Felipe Herculano

Assessoria de Imprensa Daniela Cavalcanti

Direção de produção Tatiana Garcias

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h30. R$ 40. 70 min. Classificação: 12 anos. Até 4 de novembro. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.

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