Crítica

Crítica: Peça do Casamento

O diretor Guilherme Weber (de “Os Realistas”) assina a montagem de “Peça do Casamento”, escrita por Edward Albee (1928-2016) e estrelada por Eliane Giardini (de “Édipo Rei”) e Antônio Gonzalez (de “O Último Lutador”). Ela é a segunda peça de uma trilogia sobre o casamento que o diretor está concebendo desde “Os Realistas”, de Will Eno. Aqui, contudo, a história começa com um pedido de separação. O marido entra em casa e avisa à esposa: “estou te deixando”. A frase serve como gatilho para que eles relembrem histórias das décadas de casados e impliquem um com o outro, tanto em uma prova de intimidade quanto de surpresa e de desgaste.

(Foto: Flávia Canavarro/Divulgação)

O texto foi montado pela primeira vez em 1987, na Áustria, e chegou ao Off-Broadway em 1993. Nunca fez sucesso sequer similar a “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”, outra obra de Albee, montada e premiada diversas vezes até hoje desde os anos 1960. Mas “Peça do Casamento” tem seu valor. O autor propõe um jogo tanto entre os personagens quanto entre atores e espectadores, testando a paciência de todos. Quando o marido entra em casa e anuncia que vai embora, a esposa reage com indiferença. Surpreso com o que vê, o marido repete a cena um monte de vezes para se certificar de que a mulher está entendendo. Ela aceita o que ele propõe e tem uma nova reação a cada uma de suas entradas. Nenhuma das repetições, porém, corresponde às expectativas do homem. A esposa é uma mulher debochada e altiva – que se tivesse um signo expresso, seria leonina com certeza – e a atuação de Eliane Giardini é maravilhosa. A personagem engole o marido e tem a cumplicidade da plateia. É notório quem o público prefere. Neste jogo, Antônio Gonzalez cumpre com dignidade a função de escada. É uma peça para a atriz brilhar.

Ao anúncio do divórcio, a esposa responde com uma revela ção: está escrevendo um livro. Um livro de memórias. Mais do que isso: anotações sobre todas as trepadas do casal desde a primeira vez. Tudo documentado, com comentários e observações. Há muito de humor nisso, obviamente. A plateia se diverte ao ver o marido cada vez mais exposto, inseguro, ameaçado. Quanto mais ela lê em voz alta, menos peças de roupa Antônio veste. O ator tira uma a uma até ficar completamente nu no palco.

A montagem concebida por Guilherme Weber é muito conceitual. O que há no palco são apenas paredes espelhadas e um livro, geralmente na mão de Eliane Giardini. Nada mais. As paredes sublinham o casulo do qual o marido quer se ver livre. Mas estar ali dentro exige que encare os fatos. Um lugar vazio e tão cheio ao mesmo tempo. O cenário de Daniela Thomas e Camila Schmidt comunica muito. Os figurinos de Bruno Perlatto indicam para o público que se trata de um casal burguês, informação importante para o teor dos diálogos. A iluminação de Beto Bruel é simples. A direção de movimento de Toni Rodrigues, junto com a direção de Weber, em geral deixa os personagens como baratas tontas dentro de uma caixa de sapato. São os ótimos diálogos, somados à potência de Giardini, que superam esse percalço.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Flávia Canavarro/Divulgação)

Ficha Técnica

Adaptação e Direção: Guilherme Weber

Com: Eliane Giardini e Antônio Gonzalez

Cenário: Daniela Thomas e Camila Schmidt

Iluminação: Beto Bruel

Figurino: Bruno Perlatto

Direção de movimento: Toni Rodrigues

Produção: Quintal Produções

Direção de Produção: Verônica Prates

Coordenação Artística: Valencia Losada

Produtor Executivo: Thiago Miyamoto e Nely Coelho

Assessoria de Imprensa: Factoria Comunicação

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SERVIÇO: sex e sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). Classificação: 14 anos. Até De 7 até 30 de junho. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Cento. Tel: 2279-4027.

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