Crítica: Pippin – Teatro em Cena

“Pippin” está no Brasil, pela segunda vez. Quatro décadas após a primeira montagem, a nova tem assinatura de Charles Möeller e Claudio Botelho (os mesmos de “A Noviça Rebelde”) e dois rostos conhecidos nos papéis principais: Totia Meireles (de “Cinderella”) e Felipe de Carolis (de “Incêndios”), respectivamente a mestre de cerimônias e o personagem-título. Com letras e músicas de Stephen Schwartz (o mesmo de “Godspell” e “Wicked”), esse musical fez muito sucesso na Broadway. A montagem original, dirigida por Bob Fosse em 1972, ficou em cartaz por quase cinco anos e ganhou cinco Tony Awards (melhor ator, coreografia, direção, luz e cenário). Perdeu o título de “melhor musical” para “A Little Night Music”, de Stephen Sondheim. Em 2013, a Broadway contou com uma remontagem, sob os cuidados de Diane Paulus, que rendeu quase dois anos de temporada, mais quatro Tonys (melhor atriz, direção, atriz coadjuvante e remontagem) e um faturamento de US$ 62 milhões em venda de ingressos. São credenciais suficientes para justificar o espetáculo nos palcos brasileiros, mas dá para pensar além. “Pippin” é um musical existencialista sobre um jovem recém-formado e profundamente insatisfeito, em busca do sentido da vida (da sua vida) – ele quer algo extraordinário, que preencha um vazio e que seja motivação para seguir em frente. É o tipo de pensamento que leva à depressão: a vida da maioria de nós é mesmo ordinária. O Brasil tem o maior número de casos dessa doença na América Latina: um total de 11,5 milhões de brasileiros foram diagnosticados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O suicídio é a quarta maior causa de morte no país, com número acentuado entre jovens. “Pippin” não toca em nenhuma dessas duas palavras – depressão e suicídio (há uma breve menção a “estar deprimido” usada no senso comum) – mas, entre todas as cores e coreografias, o sentimento de não pertencimento do protagonista remete a ambas. O suicídio, em si, tem seu momento alarmante na dramaturgia.

(Foto: Dan Coelho)

Pippin é o filho do Rei Carlos Magno, da França, e o primeiro na linha sucessória do trono. Ele teve a oportunidade de fazer um curso universitário, estudar fora, e pensa, age e se veste de uma maneira diferente daqueles de seu reino. Ao retornar para casa, é recebido pelo pai (Jonas Bloch, de “O Delírio do Verbo”), que não o reconhece, e a madrasta (Adriana Garambone, de “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”) e o meio-irmão (Guilherme Logullo, de “Kiss Me, Kate”), que o veem como um obstáculo ao trono. Ali evidentemente não é seu lugar. Mas Pippin também não sabe onde é. Em busca da realização pessoal, vai para a guerra (e volta horrorizado), destrona o pai (e se arrepende), ouve um conselho da vovó (e não funciona), tenta a satisfação no sexo desenfreado (e não alcança), forma uma familiazinha (e se entedia)… Pippin nunca está satisfeito. Quer sempre mais. Precisa de mais. O interessante é que sua história é contada por uma trupe de artistas, como “uma peça dentro da peça”, e o ator que faz o Pippin é um novato no elenco, algo sinalizado para o público logo em sua primeira aparição. Quem conduz a história é a/o mestre de cerimônia, papel que já rendeu o Tony para um homem, Ben Vereen, e uma mulher, Patina Miller. Desta maneira, todos os personagens estão, na verdade, representando uma história. Apenas Pippin, de fato, a vive. E ele, protagonista, não tem as rédeas de sua própria vida: na busca por algo extraordinário, é conduzido em uma sucessão de frustrações.

O texto, escrito por Roger O. Hirson, com versão brasileira de Claudio Botelho, é repetitivo, porque a questão do personagem se repete mesmo. Mas tem substância. Ele verticaliza o drama existencial do jovem príncipe, aprofundando-o e convidando o espectador a entender o mecanismo de sua mente. Mas há quem se identifique e quem fique enfadado de Pippin. Sua questão pode fazer sentido ou ser um white people problem – para usar um termo da moda. Eu me identifiquei: a história me emocionou. Na montagem original de Bob Fosse, as coreografias e a concepção cênica sublinharam o aspecto sombrio das palavras do material narrativo. Na remontagem de Diane Paulus, o espetáculo ganhou uma aura mais mágica e lúdica, com técnica circense e plasticidade difícil de replicar. O que se vê no Brasil é algo no meio do caminho entre essas duas propostas, com aposta no material humano sem abrir mão de uma estética colorida de alta qualidade. A leitura de Charles Möeller é bonita, porém menos espetacular do que a vista na Broadway nesta década. Dá mais atenção para o drama, ainda que naquela atmosfera festiva e surrealista. É também uma adequação necessária, porque não seria possível fazer o que Diane fez no palco do Teatro Clara Nunes, que não tem capacidade de acolher musicais de grande porte. Esse “Pippin” é de médio porte. A verdade é que a cenografia de Rogério Falcão faz milagre ao lidar com a expectativa trazida pelo revival de Nova York e a relidade do pequeno palco do teatro: ele preenche toda a boca de cena, com uma criação original de ponta a ponta, a orquestra disponibilizada em duas partes superiores, e um espaço considerável para o desempenho do elenco. São 19 atores, que precisam de uma superfície para dançar, correr, fazer piruetas, rolar, entrar e sair com elemtnos cenográficos, etc. O resultado é bom, principalmente se você não vai ao teatro esperando uma réplica.

A trama tem essência artificial, pelo caráter metalinguístico, evidenciado na figura da narradora da Totia e acompanhado por todos os membros da trupe. Só o ator Felipe de Carolis, o Pippin, segue linha narrativa realista, com angústia crescente. É um contraste necessário para apreensão das camadas da história – e explicitado também nos figurinos. Perto dele, todos parecem fantasiados. Comparado aos figurinos de todos, ele parece medíocre. Ainda tratando do elenco, Jonas Bloch e Adriana Garambone fazem arquétipos – ela especialmente adorável – e Guilherme Logullo segue uma caricatura. Nicette Bruno (de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”), em participação especial, como a avó, é encantadora: talvez o ápice do espetáculo. A personagem é ótima, mas tem só uma cena para mostrar isso, e a atriz supera essa limitação, enchendo o palco de amor e uma injeção de esperança, pontual na história. O público a adora. Há ainda Cristiana Pompeo (de “Cinderella”), como Catharina, o par romântico de Pippin, boa comediante, e o carismático Luiz Felipe Mello (de “Nine”), como o filho pequeno de Catharina. Os outros atores compõe o ensemble, a trupe que acompanha o protagonista em toda sua jornada. São eles que realmente dão conta das coreografias (de Alonso Barros) e das muitas trocas de figurinos (de Luciana Buarque) – alguns lembrando os de “Os Saltimbacos Trapalhões – O Musical” (2014), outro espetáculo de Möeller e Botelho. Todos belíssimos, engrandecidos com o visagismo de Beto Carramanhos e a ótima luz de Rogério Wiltgen.

Nos números musicais, as versões de Botelho convencem, mas algumas adaptações feitas pelo diretor musical Jules Vandystadt (de “Yank! O Musical”), no que concernem ao tom dos atores, enfraquecem canções conhecidas dos fãs da obra. É o caso de “Magic To Do”, “Corner of the Sky”, “War Is a Science” e seria também de “No Time At All”, se Nicette Bruno não ganhasse todos os outros pontos em sua presença e atuação. Aos 85 anos, ela vive um grande momento em cena. Lindo de ver. Jonas Bloch não tem a mesma felicidade. A questão das adaptações ao elenco também acontece com as coreografias, que no geral poupam os protagonistas. Você não vai ver Nicette pendurada em um trapézio, certamente. Mas o Pippin brasileiro é também menos dançante, por exemplo. O desempenho de Totia, em papel que rendeu tanto na Broadway, resulta apenas satisfatório: ela está bem, mas não impressionante. Obviamente, é uma nova leitura, porém algumas escolhas denotam razões óbvias, que não são simplesmente da ordem criativa. Nesses casos, não é tão legal.

No conjunto, o “Pippin” brasileiro é belo, com traços de identidade própria, e ótimos momentos. Além da cena de Nicette, destacam-se uma cena de orgia altamente coreografada (você não vai saber direito para onde olhar!) e também o “gran finale” – surpreendente, para quem não tem informações prévias. Com cuidado para não dar spoiler, digo apenas que o espetáculo me fez lembrar das notícias sobre o “Jogo da Baleia Azul”, que circularam no ano passado e chocaram tantos de nós. É isso. A embalagem colorida de “Pippin” não dá dicas do amargor de seu recheio. Ótima reflexão.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Dan Coelho)

Ficha técnica

Um espetáculo de CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO

Texto de ROGER O. HIRSON

Música & Letras de STEPHEN SCHWARTZ

Com Felipe de Carolis, Totia Meireles, Nicette Bruno, Jonas Bloch, Adriana Garambone, Cristiana Pompeo, Guilherme Logullo, Luiz Felipe Mello, Analu Pimenta, Bel Lima, Bruninha Rocha, Daniel Lack, Flavio Rocha, Jéssica Amendola, João Felipe Saldanha, Paulo Victor, Rodrigo Cirne, Sérgio Dalcin e Victoria Aguillera.

CHARLES MÖELLER
Direção

CLAUDIO BOTELHO
Versão Brasileira

JULES VANDYSTADT
Direção Musical

ALONSO BARROS
Coreografia

ROGÉRIO FALCÃO
Cenário

LUCIANA BUARQUE
Figurinos

MARCELO CLARET
Design de Som

ROGÉRIO WILTGEN
Iluminação

BETO CARRAMANHOS
Visagismo

TINA SALLES
Coordenação Artística

CARLA REIS
Produção Executiva

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SERVIÇO: qui, 17h; sex e sáb, 21h; dom, 19h30. R$ 50 a R$ 80 (qui e sex) e R$ 70 a R$ 120 (sáb e dom). Classificação: 12 anos. Até 21 de outubro. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2274-9696.

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