O novo espetáculo da Cia. Brasileira de Teatro se chama “Preto”. Estreou em 2017 em São Paulo e atualmente cumpre temporada no Rio de Janeiro. O título, a foto do pôster e a arte do programa indicam ser um espetáculo sobre negritude ou racismo, mas os artistas miram algo mais abrangente – e confuso. A falta de clareza, notada na encenação, já aparece no discurso do diretor Márcio Abreu (de “Projeto Brasil”), que assina a dramaturgia com Grace Passô (de “Vaga Carne”) e Nadja Naira (de “Krum”): “é uma obra sobre ela mesma, que se articula com autonomia promovendo possibilidades de leitura, fazendo emergir um leque de assuntos e temas diversos”. Ou seja.

(Foto: Nana Moraes)

Na primeira cena de “Preto”, a ótima atriz Grace Passô incorpora uma palestrante que fala para uma câmera, com seu rosto projetado ampliado para o público, sobre a necessidade de aproximar orador e ouvintes, talvez quebrar a barreira, o que na prática seria eliminar uma mesa do cenário. Antes de começar sua palestra, ela dispara: “eu poderia falar sobre diversos assuntos, mas sempre me chamam para falar sobre esse” – no caso, a chamada pretura. Grace é negra, como metade do elenco. Mulher, como 2/3 do elenco. E os atores falam mesmo sobre diversos assuntos – quase sempre de maneira incompreensível. Bem, ao menos para mim. Um ponto importante a ser levantado é: para quem a Cia. Brasileira de Teatro está falando? Na mesma sessão em que assisti, sentou-se atrás de mim uma renomada atriz e ela irrompeu gritos de “bravo, bravo!” antes mesmo do fim da encenação. Eu, apenas interrogações. Fiquei com a impressão que, embora os assuntos sejam amplos, o alcance não é proporcionalmente abrangente: fala-se para os pares. Senti-me excluído.

A companhia, sediada em Curitiba e trabalhando com Renata Sorrah pela terceira vez (depois de “Esta Criança” e “Krum”), traça uma conhecida busca por novas formas de escrita e concepção cênica. “Preto”, texto fragmentado, inconcluso e borbulhante, mistura palestra, ensaio, entrevista, dança, música ao vivo, luta, vídeo e voz off em sua construção teatral. Lembra o teatro de Gerald Thomas e outros nomes pós-dramáticos. Em um momento, Renata Sorrah recorda cenas da peça “As Lágrimas de Petra von Kant”, que estrelou nos anos 1980. Em outro, sem razão aparente, a atriz Najda Naira tira a roupa e corre nua pelo palco. Felipe Soares (de “Chão de Pequenos”) e Rodrigo Bolzan (de “projeto brasil”) travam uma disputa de dança. Cássia Damasceno (de “Cabaré Dalton”) provoca reflexões sobre preconceitos. Buscar correlatos enquanto se assiste a tudo isso pode ser uma perda de tempo. É melhor se deixar levar.

Esse espetáculo experimental é resultado de uma série de residências artísticas realizadas durante mais de um ano em lugares como Dresden (Alemanha), Curitiba, Belo Horizonte, Frankfurt (Alemanha), São José do Rio Preto, Santos e Araraquara. Nessas viagens, a companhia realizou workshops e debates com o público, o que explica um pouco a pluralidade do conteúdo, da linguagem e do formato de “Preto”. A dramaturgia foi desenvolvida nos ensaios, e o que se assiste não supera o caráter de exercícios internos. Além da contribuição pessoal de cada ator envolvido no processo criativo, as pesquisas do grupo também foram norteadas por leituras de ciência política e literatura: Joaquim Nabuco, Achille Mbembe, Frantz Fanon, Ana Maria Gonçalves, Leda Maria Martins, entre outros. É um pouco dessa colcha de retalhos a que se assiste.

A montagem tem uma vaga cenografia de Marcelo Alvarenga – representada principalmente por cadeiras e pedestais de microfones, além do telão no fundo do pequeno espaço cênico. A iluminação de Najda Naira, sombria, torna o ambiente mais aconchegante e oculta vazios. Os figurinos, com assinatura de Ticiana Passos, seguem a proposta do título. A direção de Márcio Abreu usufrui positivamente dos artifícios escassos e mistura atores e espectadores na plateia. O elenco recebe o público, cumprimenta os conhecidos e fica a maior parte do tempo a vista, inclusive sentando-se na arquibancada ou subindo e descendo-a enquanto canta ou dá seu texto. Em duas ou três cenas, o público é provocado à participação. Apesar da intenção, não estou convencido de que a companhia consegue realmente estabelecer um diálogo e criar qualquer vínculo com quem vê. Mas o espetáculo gera inquietações, sim.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Nana Moraes)

Ficha técnica
Direção: Marcio Abreu
Elenco: Cássia Damasceno, Felipe Soares, Grace Passô, Nadja Naira, Renata Sorrah e Rodrigo Bolzan
Músico: Felipe Storino
Dramaturgia: Marcio Abreu, Grace Passô e Nadja Naira
Iluminação: Nadja Naira
Cenografia: Marcelo Alvarenga
Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino
Direção de Produção: José Maria | NIA Teatro
Direção de Movimento: Marcia Rubin
Vídeos: Batman Zavarese e Bruna Lessa
Figurino: Ticiana Passos
Assistência de Direção: Nadja Naira
Orientação de texto e consultoria vocal: Babaya
Consultoria Musical: Ernani Maletta
Adereços | Esculturas: Bruno Dante
Colaboração artística: Aline Villa Real e Leda Maria Martins
Assistência de Iluminação e Operador de Luz: Henrique Linhares
Assistência de Produção e Contrarregragem: Eloy Machado
Operador de Vídeo: Bruna Lessa e Bruno Carneiro
Produção Executiva: Caroll Teixeira
Participação Artística na Residência realizada em Dresden: Danilo Grangheia, Daniel Schauf e Simon Möllendorf
Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
Fotos: Nana Moraes
Produção: companhia brasileira de teatro
Coprodução: Sesc São Paulo, HELLERAU – European Center for the Arts Dresden, Künstlerhaus Mousonturm Frankfurt am Main, Théâtre de Choisy-le-Roi – Scène conventionnée pour la diversité linguistique
Patrocínio: Petrobras e Governo Federal
Copatrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 20. 90 min. Classificação: 14 anos. De 11 até 21 de janeiro / De 7 de fevereiro até 11 de março. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

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