Crítica: Procópio – Teatro em Cena

Quatro anos após o espetáculo “Galápagos”, os atores Kadu Garcia e Paulo Giannini se reúnem novamente no palco. Desta vez, em uma peça de Carla Faour (de “Obsessão”), com direção de Dani Barros (de “Dançando no Escuro”). O novo trabalho leva o título de “Procópio” – uma homenagem ao grande ator Procópio Ferreira (1898-1979) – e trata da criminalização da arte a partir de uma abordagem futurista. O texto inédito imagina um futuro para nossa situação atual: um “decreto” proíbe o exercício da arte e os artistas são perseguidos e presos. Os que escapam têm que agir na clandestinidade.

(Foto: Divulgação)

A história começa com o personagem de Kadu machucado, arrastando a perna, e se escondendo em um espaço abandonado, entre destroços do que já foi um prédio importante algum dia. Sofrendo de dor, ele desmaia no chão. Pouco depois, entra o personagem de Paulo, que você logo entende ser habitué do local. Ele se surpreende com a presença estranha e quer expulsar o intruso, ameaçando-o com uma placa de madeira. Mas a verdade é que ninguém pode estar ali. É proibida a entrada. Caso o outro saia, pode denunciá-lo por moradia não-autorizada. Eles, então, firmam um acordo: o intruso fica até melhorar da perna, e não conta nada a ninguém. Pouco a pouco, baixam a guarda e se revelam um para o outro. Um é claramente crítico do decreto, que prejudicou a vida de muita gente; o outro é totalmente favorável e nem se lembra mais de como era a vida antes. É uma realidade onde não existe música, por exemplo. E, passadas décadas, toda uma nova geração se consolida sem conhecer a arte e seu poder de imaginação, criatividade, questionamento e cidadania. É a intenção do decreto governamental, afinal.

O texto trata de uma questão muito específica, o mundo das artes, que talvez não interesse a grande maioria das pessoas – haja vista a real perseguição que artistas têm sofrido nos últimos anos. No Rio de Janeiro, em específico, a prefeitura de Marcelo Crivella já protagonizou várias interferências e impedimentos para apresentações de exposições, performances e espetáculos teatrais, condiciando a arte a um ideal religioso de moral e bons costumes. Tensões entre censura e liberdade de expressão têm sido recorrentes. A nível nacional, artistas foram chamados de pedófilos, promíscuos, diabólicos, vagabundos, mamadores das tetas do Estado e por aí vai. O “decreto” fictício é um deslocamento temporal proposto por Carla Faour pra pensar exatamente o presente. Temer assumiu a presidência desmantelando o Ministério da Cultura, e o candidato à presidência Jair Bolsonaro, atualmente com maior intenção de votos, promete fazer o mesmo. O ponto crucial da peça é humanizar os perigos desse interesse político e mostrar que essa não é uma questão de nicho. Afeta a todos, direta ou indiretamente.

A direção de Dani Barros de início polariza o radicalismo que se vive atualmente, personificada nos personagens, com os atores restritos cada um a um lado da arena – visões antagônicas sem pontos de convergência. É uma proposta dramatúrgica, que fala em “muros invisíveis”. Quando os personagens se permitem cruzar essas fronteiras e as marcações se contaminam, sem mais lados fixos, eles se transformam e se sentem melhores. A cenografia de Fernando Mello da Costa é genial, com duas camadas – a que se vê e a que pode ser vista, quando se entra em contato com a arte. A iluminação de Renato Machado utiliza objetos dentro da cena, os figurinos de Bruno Perlatto sintetizam a precariedade da vida sem o lúdico, e a direção musical de Rodrigo Marçal explicita tanto a crueza da vida dos personagens escondidos em um lugar fechado quanto a poesia possível pela imaginação.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Autora: Carla Faour
Direção: Dani Barros
Elenco: Kadu Garcia e Paulo Giannini
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinista: Bruno Perlatto
Iluminação: Renato Machado
Direção musical: Rodrigo Marçal
Designer gráfico: Daniel de Jesus
Direção de produção: Kadu Garcia e Paulo Giannini
Realização: Saravá Cacilda Projetos Culturais

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. De 6 até 23 de setembro. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

Comentários

comments