Recém-estreado no Teatro Poeirinha, em Botafogo, o espetáculo “Quarto 19” é imperdível. As indicações a prêmios que a atriz Amanda Lyra (de “Tragédia: uma tragédia”) recebeu em São Paulo são merecedíssimas. Dirigida por Leonardo Moreira (de “O Jardim”), ela conduz a plateia com maestria por 80 minutos em um crescente de angústia, insatisfação e desconforto com o lugar da personagem na própria vida. Tudo com sua voz e seu corpo. Grande atuação! Não há colegas de cena, trilha sonora, jogo de luzes ou nem mesmo elementos cenográficos. Só uma poltrona. Mesmo assim, a sensação é que existe tudo isso. Mas você não deve estar entendendo nada… Comecemos do começo.

(Foto: Cris Lyra / Divulgação)

“Quarto 19” é uma adaptação – assinada por Amanda e Leonardo – do conto “To Room Nineteen” da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013), a 11ª mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. O texto foi publicado originalmente em 1963, há mais de 50 anos portanto, e se mantém atualíssimo. Na história, Susan e Matthew são duas pessoas inteligentes e bem sucedidas, que se apaixonam, se casam, se mudam para uma casa grande e bela, e têm três filhos bonitos e saudáveis. Tudo perfeito. Por decisão própria, Susan deixa o trabalho para se dedicar à maternidade na primeira fase da infância das crianças, e então começam os problemas – para ela. Desempenhando os papéis de esposa, mãe, dona de casa e patroa da empregada doméstica, ela se perde de si mesma. Passa a ser consumida por uma enorme angústia, que chama de “demônio”, que a atormenta diariamente. Quando todas as crianças entram em idade escolar e ela finalmente tem as horas do dia de volta para si mesma, não sabe mais como usá-las. Perdeu sua própria identidade, seus anseios, desejos e motivações. Não sente-se bem quando a casa está cheia, e tampouco quando está “vazia” (só com a empregada). O único lugar onde ela encontra seu bem estar é escondida em um quarto de hotel xexelento das 10h às 17h, três dias por semana: sozinha, sem fazer nada, como uma pausa na rotina, uma suspensão na própria vida, para ser capaz de suportar todo o resto. Pode não fazer muito sentido, mas tudo que ela quer é fugir da própria vida, ainda que por períodos determinados de tempo. Eu me pergunto se Susan vivesse hoje em dia, com celulares e Internet móvel, quando ninguém mais tem o direito de não ser encontrado…

O mais interessante da peça é o duelo entre a razão e os sentimentos, com a primeira doutrinando a segunda. Sentimentos podem ser ilógicos, mas a inteligência busca domá-los na relação do casal. Não há lugar para selvageria: gritos, ciúmes, crises, ira. Tudo é asséptico, racionalizado. O fluxo de pensamento de Susan – aquele que narra a história – está o tempo todo tentando ser plausível e autoanalítico. Ela sabe o que é “normal” e não deseja alarmar os demais, ainda que por dentro seja só desespero e incompreensão. Se a vida que se tem é resultado das próprias escolhas – decisões coerentes – por que ela não se sente bem, alegre, viva… feliz? A palavra depressão não é usada pela personagem, mas é um fantasma que a cerca.

Ora falando em terceira pessoa ora em primeira pessoa, a atriz Amanda Lyra ocupa o espaço cênico junto com carpete, uma parede e uma poltrona verdes. O cenário e a iluminação, sem maiores variações, são de Marisa Bentivegna. O figurino casual, assinado pela própria atriz, parece dizer que a personagem poderia ser qualquer um de nós. Amanda, inclusive, começa sua atuação atravessando a plateia até o palco. Não vem da coxia. A concepção cênica gira em torno da expressão da atriz. As oscilações na respiração e na velocidade da fala, somados aos movimentos controlados da personagem, marcam as nuances de seu espírito ao longo da trama. Amanda Lyra tem total domínio do papel e das questões levantadas pelo conto de Doris Lessing. Ótima contadora de histórias. O público se compadece da solidão de Susan, e enxerga seu marido, as crianças, o dono do hotel, a empregada, a babá, o quarto, o jardim, a cozinha… Amanda é altamente envolvente. Por isso, também, acredito que o fim da peça afeta a toda a plateia.

O espetáculo é muito bom, com muito pouco: um texto potente e uma atriz excelente.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Cris Lyra / Divulgação)

Ficha técnica

Texto: Doris Lessing

Idealização, tradução e atuação: Amanda Lyra

Adaptação: Amanda Lyra e Leonardo Moreira

Direção: Leonardo Moreira

Cenaário e Iluminação: Marisa Bentivegna

Figurino: Amanda Lyra

Criação de Som: Miguel Caldas

Preparação Corporal: Tarina Quelho

Assistente de Cenário: Amanda Vieira

Cenotécnico: César Rezende

Programação Visual: Roberto Taddei

Fotos: Cris Lyra

Direção de Produção: Aura Cunha

Producão Executiva: Rodrigo Fidelis

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 40. 80 min. Classificação: 16 anos. Até 29 de julho. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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