Crítica

Crítica: Recital da Onça

Botando fim em seu afastamento de 25 anos dos palcos, a atriz e apresentadora Regina Casé (de “Nardja Zulpério”) traz ao Rio de Janeiro seu novo espetáculo, “Recital da Onça”. Já apresentado em Salvador e em Curitiba, o monólogo não é nada menos que imperdível. Regina mescla stand up comedy e clássicos da literatura brasileira. Trata com o mesmo respeito e encantamento as chamadas alta e baixa cultura (termos horríveis, que fazem ainda menos sentido para ela, que põe por terra qualquer distinção entre o erudito e o popular), proporcionando um entretenimento com densidade. Em seu palco, um samba-enredo da Mangueira e um texto autêntico de Clarice Lispector têm o mesmo peso. O resultado agrada tanto o público do “Esquenta” quanto do “Que Horas Ela Volta?”.

O texto, criado por Hermano Vianna e Regina Casé costurando trechos de obras de autores como Alberto Mussa, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Mário de Andrade, é uma autoficção. Na história, Regina é convidada para uma palestra em Harvard, nos Estados Unidos, por conta do sucesso do filme “Que Horas Ela Volta?”. Querem que ela fale um pouco de literatura brasileira em apenas 10 minutos, no formato “TED Talks”, para despertar o interesse dos universitários pelo assunto. Mas há um porém: Regina morre de medo e ansiedade da imigração americana. Tudo a deixa profundamente aflita: a humilhação da situação, a desconfiança da Polícia Federal, a insegurança com o inglês, o medo de passar informações erradas e “ir para a salinha”. O monólogo, então, alterna os momentos em que a personagem compartilha suas histórias e angústias sobre entrar nos Estados Unidos e um ensaio geral dela para a palestra, mostrando livros, textos e estratégias escolhidas para apresentar os clássicos para os americanos. É genial, de verdade.

Mais do que um ótimo espetáculo, “Recital da Onça” é uma referência para professores de língua portuguesa, pela maneira cativante e envolvente em que o conteúdo é apresentado. Se nas escolas somos obrigados a ler livros que a princípio não nos interessam na infância e na adolescência, Regina Casé faz o contrário: sabe gerar o interesse no espectador. No meio de muitas risadas, ela insere pílulas de clássicos literários, sem dar o fim das histórias, e deixa a plateia curiosa para ler os livros e saber mais. Na saída do espetáculo, a bibliografia mencionada está toda à venda na lojinha do teatro. E as pessoas compram mesmo.

Só isso já denota uma função social, mas tem mais. Utilizando os livros e suas próprias histórias, Regina Casé fala de discriminação, xenofobia, racismo, desigualdade social, genocídio, saúde mental, atrocidades históricas e padrão de beleza – tudo com a maior leveza e a maior naturalidade. Isso se deve não só à dramaturgia, mas também a seu desempenho como atriz no palco. Ela não tem muitos recursos em cena, fora a pontual trilha de Berna Ceppas e Hermano Vianna e a iluminação coreografada de Renato Machado, que ajuda a contar as histórias dos livros. O cenário, assinado por Luiz Zerbini, parece criado para palcos intimistas e não preenche satisfatoriamente o palco do Oi Casa Grande. Regina tem que ser enorme para encher todo o espaço com sua presença. Claudia Kopke e Gilda Midani assinam os figurinos: são três e o que a atriz usa por mais tempo é absolutamente simples, não contribuindo para as cenas literárias. Mas a direção consegue conduzir o espectador pela imaginação, o que é um mérito respeitável.

A direção geral de Estevão Ciavatta e a direção cênica de Hamilton Vaz Pereira (de “5xComédia”) tem erros e acertos. O maior acerto é quebrar com o distanciamento entre o povo e a literatura. O público é convidado a subir no palco para uma roda de samba, concorrendo a livros. Samba, afinal, também é literatura, é poesia. Além disso, Regina circula entre a plateia, olha nos olhos, traz tudo aquilo para muito perto do espectador. Eis aí, por outro lado, um dos obstáculos da comunicação. Na sessão de estreia, Regina Casé passou todo o início da encenação fora do palco, circulando na parte baixa da plateia com uma mala de rodinhas. O público que estava no balcão gritou e reclamou que não conseguia vê-la. Alguém deveria ter testado se era possível vê-la de cima. Acredito que irão reformular essa parte para as próximas vezes.

“Recital da Onça” é talvez o mais forte candidato até agora para as premiações de teatro. Vida longa ao espetáculo!

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: João Pedro Januário)

Ficha técnica
Criação – Hermano Vianna e Regina Casé
Direção Geral – Estevão Ciavatta
Direção Cênica – Hamilton Vaz Pereira
Produção – Pedro Tourinho
Cenário – Luiz Zerbini
Figurino – Claudia Kopke e Gilda Midani
Iluminação – Renato Machado
Trilha – Berna Ceppas e Hermano Vianna
Assistente de Direção – Benedita Zerbini
Assessoria de Imprensa – Factoria Comunicação
Fotos e vídeos – João Pedro Januário
Arte – Alberto Pitta
Produção Gráfica – Lucas Moratelli
Chefe de Palco – Gerson Porto
Cenotécnico – Andre Salles
Preparação Vocal – Débora Feijó
Operador de Luz – Rodrigo Maciel
Operador de Som – Arthur Ferreira
Camareira – Maninha Xica
Produção Executiva – Pitti Canela e Cristina Leite
Direção de Produção – Alessandra Reis
Produtores Associados – Pedro Tourinho, Estevão Ciavatta e Regina Casé
Colaboração Concepção – Sandra Kogut
Agradecimentos – Fundação Gregório de Mattos , Espaço Cultural da Barroquinha , Prefeitura de Salvador, Lucia Riff.

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 18h. De R$ 70 (balcão 2) a R$ 100 (plateia). 100 min. Classificação: 12 anos. De 19 de abril até 12 de maio. Oi Casa Grande – Rua Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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