Crítica

Crítica: Rio 2065,

O espetáculo que comemora os 20 anos da Cia. Os Dezequilibrados, “Rio 2065,”, é uma sopa de entulho não exatamente apetitosa. Durante duas horas de encenação, tudo acontece: robô se suicida, portugueses tentam tomar o Brasil de volta, índia corta cabeças, líderes religiosos se reúnem para a abertura de um shopping ecumênico, carnavalescos se boicotam com drogas em bebidas, personagens são entrevistados, uma repórter simula uma interação com a plateia, acontece uma espionagem em 13D, um bang bang e até o roubo da estátua do Cristo Redentor… É muita informação, sem dúvidas. Nem todo mundo aguenta. Na sessão assistida, pares de espectadores deixaram a sala antes do fim, compreensivelmente.

(Foto: Dalton Valério)

“Rio 2065” é uma comédia de ficção científica escrita por Pedro Brício (de “O Condomínio”) e dirigida por Ivan Sugahara (de “Fala Comigo Como a Chuva e Me Deixa Ouvir”). O material de divulgação da peça fala em chanchada, paródia, besteirol e movimentos antropofágico e tropicalista, o que dá uma pista da algazarra que o público encontra. O espetáculo imagina um Rio de Janeiro futurista, em que quase toda a cidade foi vendida para estrangeiros e o que restou foi transformado no “Rio Fun World”, parque que mantém a tradição turística carioca. Com esse pano de fundo, oito atores dão vida a pelo menos o dobro de personagens, nas mais variadas situações. Há duas histórias principais e mais meia dúzia de ramificações, que se embolam e não se ajudam. É como uma novela de TV, cheia de subtramas e vários núcleos.

De um lado, temos os policiais Machado (humano) e Louise (“replicante”, uma robô), que estão atrás da cabeça do bispo, que foi cortada pela índia Jacira. De outro lado, temos a disputa entre a escola de samba do veterano carnavalesco Clóvis Bandeira e da prefeita francesa de Niterói contra a escola de samba do jovem carnavalesco Johnny e do prefeito do Rio. Mas Machado e Louise estão apaixonados e querem fugir para o Uruguai, onde é permitido o relacionamento entre humanos e replicantes. Além disso, Machado precisa cumprir uma missão designada pelo prefeito, em pleno Carnaval, para conseguir sacar seu FGTS antes da fuga. E essas são apenas as tramas principais. Todos os personagens secundários, que não cito aqui, têm suas próprias questões e metas.

Alcemar Vieira (de “O Condomínio”), Ângela Câmara (de “Rose”), Cristina Flores (de “Sexo Neutro”), Guilherme Piva (de “A Invenção do Amor”), Jorge Maya (de “O Homem de la Mancha”) e Leticia Isnard (de “Agosto”) atuam em tom zombeteiro, sinalizando a autoconsciência do que é apresentado. A única exceção é José Karini (de “Contracapa”), com um personagem mais sério e destoante.

A comédia tem sim bons momentos, metáforas e piadas perspicazes, mas não salvam o todo. A peça se perde em si mesma rapidamente ao querer abraçar uma ampla gama de temas e caminhos, entediando mais do que entretendo. Toda a concepção é absurda, rasgada, exagerada e autodebochada, então se presupõe que a intenção é divertir, mas isso acontece mais para quem está no palco do que quem está na plateia. Definitivamente, não funciona. O excesso do texto é potencializado pela encenação, com trocas e mais trocas de fantasias (assinadas por Joana Lima Silva), um cenário (de Carolina Sugahara) com telão central, exibições de vídeos com falas e cenas (assinados por Rico Vilarouca), iluminação dinâmica (de Renato Machado) e trilha sonora bem humorada (de Felipe Ariani), recursos que tentam ajudar a segurar o interesse do espectador, sem sucesso.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Dalton Valério)
Texto: Pedro Brício
Direção: Ivan Sugahara
Elenco: Alcemar Vieira, Ângela Câmara, Cristina Flores, Guilherme Piva, Jorge Maya, José Karini e Leticia Isnard
Assistência de Direção: Cristina Lago
Direção de Movimento: Caroline Monlleo
Preparação Vocal: Ricardo Góes
Cenário: Carolina Sugahara
Figurino: Joana Lima Silva
Iluminação: Renato Machado
Trilha Sonora: Felipe Ariani
Vídeo: Rico Vilarouca
Visagismo: Adriano Soares e Felipe Mesquita
Assistência de cenário: Catharina Braga
Assistência de figurino: Tayara Dias
Programação Visual:Luciano Cian
Fotografia: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: Cristiana Lobo
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de Palco: Wallace Lima
Operação de Luz: Orlando Schaider
Operação de Som: Luciano Siqueira
Produção de Ensaio: Juliana Mattar e Daniara Marchesi
Administração Financeira: Amanda Cezarina
Produção Executiva: Renata Campos
Direção de Produção: Sergio Saboya
Idealização: Pedro Brício
Realização: Os Dezequilibrados _____
SERVIÇO: qua a seg, 19h. R$ 30. 100 min. Classificação: 14 anos. De 11 de janeiro até 25 de fevereiro. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro I – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.

Comentários

comments