Crítica

Crítica: Rio Mais Brasil – O Nosso Musical

O que esperar de um espetáculo chamado “Rio Mais Brasil – O Nosso Musical”? O título é tão amplo quanto impreciso. Em cartaz até 10 de setembro no Oi Casa Grande, no Leblon, já com turnê nacional programada para depois, o musical peca pela falta de clareza na delimitação do tema e do formato. O resultado é bastante complicado em vários aspectos.

(Foto: Leo Aversa)

O texto é de Renata Mizhari (de “Chica da Silva – O Musical”), que supostamente recebeu histórias verídicas de pessoas de todo o Brasil pela Internet como fonte de inspiração. Na trama criada por ela, um produtor de cinema ganhou patrocínio para fazer um filme sobre o Brasil, mas ainda não tem o roteiro. Realizando um pitching, ele se encanta pela ideia de uma diretora inexperiente: filmar a partir do livro “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro (1922-1997), que, de fato, serve de referência para a peça de Mizhari. O espetáculo, em ato único, então, acompanha as seletivas de elenco, com candidatos de todo o país, e as filmagens – com cortes de orçamento constantes, o que traça um importante retrato da desvalorização que o setor criativo-cultural-artístico enfrenta verdadeiramente no Brasil, acentuada em tempos de crise.

O problema: a dramaturgia é fraca, com diálogos terríveis de tão didáticos e piegas. A estrutura criada pela autora, intercalando bastidores das filmagens com audições, engessa-se rapidamente e tal repetição não tarda a cansar a plateia. Os espectadores ficam inquietos. Na sessão assistida, contei dez pessoas levantando-se e deixando a sala temporariamente durante a encenação. Grande parte da trilha musical é apresentada nas cenas de teste de elenco, com cada ator representando uma região do Brasil. É monótono e passa a impressão que o musical resulta da junção de várias partes avulsas. A proposta de revelar ao público as dificuldades enfrentadas por uma produção cinematográfica é muito interessante, mas a obrigatoriedade de referenciar a diversidade cultural brasileira é um atraso dramatúrgico. O texto não consegue superar essa questão, arrastando-se amarrado ao seu argumento frágil: “Rio Mais Brasil” (?).

Por trás da direção do espetáculo, está Ulysses Cruz (de “O Camareiro”), que evidencia todas as problemáticas da peça. As cenas são tratadas como uma sequência de alas de escola de samba, destacando suas especificidades, mas pouco trabalhando pontos em comum entre elas. As marcações são ruins, disfuncionais, oblíquas. As tentativas de quebrar os limites do palco e aproveitar toda a sala de teatro são sempre gratuitas e mal arquitetadas. Um espetáculo com direção ruim arrasta uma série de problemas, mas Ulysses não pode ser responsabilizado por tudo. Como dito, o texto também é insuficiente.

“Rio Mais Brasil – O Nosso Musical”, na verdade, era a crônica de um desastre anunciado. A produtora Turbilhão de Ideias concebeu o projeto, inicialmente como “Rio – O Musical”, para a programação das Olimpíadas de 2016, sediadas na cidade. Contudo, um corte de patrocínio inviabilizou que o projeto para turistas saísse do papel. Reformulado, com vistas para uma turnê por outros estados, foi transformado em “Rio Mais Brasil”, o que não quer dizer absolutamente nada. A proposta é confusa. Assistindo, se entende menos ainda.

Esse não é um problema exclusivo desta produção, aliás. O teatro musical carioca por vezes sofre de projetos que já nascem inconsistentes. Peças sobre qualquer coisa ou coisa nenhuma, com algumas músicas enfiadas goela abaixo, na crença de assim ter maior apelo com os espectadores. Fica evidente a decisão de fazer um musical comercial, sem ter absolutamente nada a dizer. Renata Mizrahi e Ulysses Cruz pegaram um abacaxi para descascar – e o entregaram ainda cheio de casca para o público, subestimando-o.

Se a parte musical, carro-chefe do projeto, ao menos salvasse… Mas as composições originais são simplórias e 90% dos números apresentados são bagunçados – essa é a melhor maneira de dizer. Músicas de grandes nomes, como Hermeto Pascoal e Villas-Lobos, misturadas a de artistas contemporâneos como A Banda Mais Bonita da Cidade e Dream Team do Passinho, ganham performances barulhentas e atrapalhadas. A direção musical de Carlos Bauzys (de “Nuvem de Lágrimas, o Musical”) e Daniel Rocha (de “Rent”) traz uma simultaneidade de sons, instrumentais e corporais, em que as vezes não é possível sequer entender o que é cantado. Os atores manuseiam instrumentos, misturando-se aos músicos, e apostam em percussão corporal e, de repente, é barulho demais desencontrado. Intui-se o desejo de misturar estilos e sonoridades, como é o Brasil, porém mal executado. Tanto é que a melhor parte de toda a peça é a interpretação a cappella do ator Edmundo Vitor (de “O Mambembe”) para a música “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento. As coreografias, de Patrick Owondo, tampouco colaboram – quando não óbvias, toscas: depois que o elenco literalmente dançou quadrilha no palco, desisti.

O time é encabeçado por Claudio Lins (de “O Beijo no Asfalto – O Musical”) como o produtor, Cris Vianna (de “Quando a Gente Ama”) como a diretora, e Danilo Mesquita (de “O Mercador de Veneza”) como o assistente de produção. Ao todo, são 20 atores em cena alternando-se entre diferentes personagens – com exceção desses três. Danilo é uma boa revelação, com um personagem cativante e divertido, bem articulado. O restante forma um grupo coeso, com grandes talentos, entre os quais saltam a vista Késia Estácio (de “Bossa Nova Em Concerto”), com algum destaque; Nando Motta com guitarra e solo rock, um dos escassos bons momentos; Anna Bello (de “Na Bagunça do Teu Coração”) pelo humor; e o próprio Edmundo Vitor, com o único momento contagiante.

Para finalizar, o cenário é composto por uma estrutura de três andares, que serve de base para os músicos, e disfuncionais escadas móveis – sublinham as marcações oblíquas citadas anteriormente. É positiva, porém, a junção de atores e instrumentistas, incitada pela cenografia de Veronica Valle. Um ponto alto do espetáculo é a potente iluminação colorida e vital de Renato Machado. A paleta de cores preta, cinza e vermelha dos figurinos de Carol Lobato, com estilizações à la Olodum, no entanto, afastam-se da diversidade que o espetáculo prega, acentuando uma neutralidade com ruído na comunicação.

“Rio Mais Brasil” não deu certo. Ao mirar tantos alvos – Rio, Brasil, diversidade, especificidade, protesto pela cultura, crítica à gestão, até uma denúncia de cultura do estupro lá pelo meio… – não acertou nenhum.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Leo Aversa)

Ficha técnica
Texto e letras das canções originais – Renata Mizhari
Direção artística – Ulysses Cruz
Elenco – Cris Vianna, Cláudio Lins, Danilo Mesquita, Bárbara Sut, Camila Matoso, Leandro Melo, Clayson Charles, Nando Motta, Paulo Ney, André Muato, Késia Estácio, Danilo de Moura, Marcel Octávio, Edmundo Vitor, Teka Balluthy, Luciana Balby, Anna Bello, Janaína Moreno
Músicos – Fernando Thomaz, Priscilla Azevedo
Idealização – Gustavo Nunes
Direção musical – Carlos Bauzys e Daniel Rocha
Direção de arte e cenografia – Verônica Valle
Diretor assistente e diretor residente – Thiago de los Reyes
Coreografia – Patrick Owondo
Figurino – Carol Lobato
Iluminador – Renato Machado
Designer de som – Gabriel D’Angelo
Designer de som associado – Felipe Malta
Visagismo – Uirandê Holanda
Seleção de elenco audicionado e atores convidados – Vanessa Veiga
Produção executiva – Marcelo Chaffim
Diretor de marketing – Mauricio Tavares
Comunicação visual – Barbara Lana
Assessoria de imprensa – Alan Diniz – Xavante Comunicação
Diretor de palco – André Salles
Operador de luz – Maurício Fuzyama
Operador de som – Gabriel D’Angelo
Operador de som, RF e microfonista – Felipe Malta
Microfonista – Rodrigo Oliveira
Modelista – Madalena Oliveira
Aderecistas – Markoz Vieira e Alex Porto
Costureiras – Luceni Oliveira, Noemia Ribeiro, Thereza Martins Moraes e Maria Paula
Videografismo – NFilmes
Elementos cenográficos – Clecio Regis
Efeitos especiais -André Fuentes
Pintura caixas – Cruz
Captação de recursos – João Chipp, Marcos Braga e Gustavo Nunes
Assessoria jurídica – Paula Tupinambá Advogados
Operador de multimídia – Edmar da Rocha
Locução trechos “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro – Cássia Kis
Participação especial – locução headlines – Edney Silvestre, Marília Gabriela e Sérgio Mastropasqua
Uma realização – Turbilhão de Ideias Entretenimento

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50 (balcão 3) a R$ 120 (plateia vip e camarote). 105 min. Classificação: 12 anos. Até 10 de setembro. Oi Casa Grande – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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