Crítica

Crítica: Rita Formiga

Montada originalmente em 1986, a peça “Rita Formiga”, de Domingos Oliveira, ganhou remontagem neste ano sob os cuidados do diretor Fernando Philbert – que vem despontando como grande nome na cena carioca após “O Escândalo Philippe Dussaert”, principalmente. O espetáculo é um monólogo bem humorado baseado em relatos cotidianos da atriz Maria Gladys (de “O Mambembe”). Nos anos 1960, ela aparecia diariamente no apartamento de Domingos no fim de tarde para utilizar seu telefone para conversas pessoais – que o autor acabava ouvindo, enquanto tentava escrever. Resultado: escreveu sobre ela, sobre o que escutava. No palco, a Rita Formiga, inspirada nela, já foi vivida por Zezé Polessa (de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”) e Guta Stresser (de “Ela É Meu Marido”). Na nova montagem, o papel é assumido por Priscila Steinman (de “Como a Gente Gosta”).

“Rita Formiga” é apresentada como comédia, mas faz rir muito pouco – se faz a alguém. A peça é como uma coletânea de crônicas. As cenas curtas mostram sempre a protagonista ao telefone, ligando para a melhor amiga e contando suas últimas banalidades: com quem transou ou deixou de transar, com quem brigou, onde está morando, onde está deixando de morar, etc. Não se ouve o que a amiga responde: só se deduz. A história se passa entre os anos 60 e 70 e, para quem viveu essa época, algumas citações devem causar saudosismo, como o Solar da Fossa, pensão por onde passaram ícones do tropicalismo e da contracultura brasileira. No entanto, para o espectador contemporâneo, que não viveu essas décadas, o relato é muito pouco interessante. “Rita Formiga” não se comunica com a atualidade, a meu ver, de modo que remontá-la não encontra justificativa. A independência feminina, liberdade sexual e linguagem direta da personagem eram um grande avanço para uma geração, mas são fatos dados no século XXI. O espectador fica a espera de mais, e não vem, pois aquilo é tudo. O que podia causar graça antes não causa mais. O que podia ser ousado tampouco é. Acaba não funcionando.

Uma razão para a montagem da peça é a homenagem aos 80 anos de Domingos Oliveira. O cenário criado por Natália Lana traz pôsteres de vários de seus filmes, desrespeitando, inclusive, a época do enredo. Alguns dos cartazes são dos filmes “Infância”, de 2014, e “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, de 2008… e a peça se passa nos anos 60! Como dito, a dramaturgia é muito marcada pela época: não há abertura para pensá-la na atualidade, então os pôsteres destoam. Se a peça se passa no apartamento do autor no século XX, como pode haver filmes do século XXI expostos ali? Confuso. Os figurinos, também de Natália, tiveram uma pesquisa com menos equívocos.

A direção de Fernando Philbert utiliza projeções de vídeos e voz off do próprio Domingos, que costura as cenas como narrador. Enquanto vídeos pouco atrativos são exibidos, em homenagem ao dramaturgo, a atriz troca de figurino: o esquema se repete ao longo de toda a encenação. A iluminação de Vilmar Olos, vale ressaltar, casa bem com o videografismo assinado por Jeff Arcanjo e Rafael Blasi. Priscila Steinman, forçando uma caricatura de sotaque carioca, enfrenta razoavelmente os tropeços de fazer essa personagem nos dias atuais. São constrangedoras as falas supostamente engraçadas, que não fazem ninguém rir, mas ela não perde o embalo e prossegue com firmeza, acreditando. Infelizmente, não é suficiente para reverter o quadro. Quando a voz off de Domingos anuncia a última cena, o espectador é tomado por um alívio.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Domingos Oliveira
Direção: Fernando Philbert
Elenco: Priscila Steinman
Direção de movimento: Marina Salomon
Preparação vocal: Edi Montecchi
Cenografia e figurino: Natália Lana
Iluminação: Vilmar Olos
Videografismo: Jeff Arcanjo e Rafael Blasi
Direção musical: Maíra Freitas
Identididade visual: Mari Valente
Programação visual: Dora Reis
Assessoria de imprensa: Marcela Nunes, Leila Meirelles e Rebeca Cruz
Mídias sociais: Rafael Teixeira
Fotos: Rafael Blasi e Vinícius Coimbra
Foto da capa: Ricardo Penna
Visagismo da foto da capa: Vivi Gonzo
Vídeos de divulgação: Vinícius Coimbra
Cenotécnico: André Salles e equipe
Apoio de produção: Nathalia dos Santos
Assistente de direção: Julia de Aquino
Operador de luz: Bruno Aragão
Operador de som: Stephanye Corrêa
Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais
Idealização: Priscila Steinman
Realização: Orkhestra Produções

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 30 de julho. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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