Crítica

Crítica: Romeu e Julieta, musical

Juntar a história de “Romeu e Julieta” com músicas de Marisa Monte no formato de teatro musical é uma ideia ousada. Mas sou dos que acreditam que, depois de centenas de milhares de montagens, faz mais sentido reapresentar essa peça se houver mesmo alguma inovação. O drama de “Romeu e Julieta”, escrito por William Shakespeare (1564-1616), é conhecido até por aqueles que nunca leram o texto ou assistiram ao espetáculo: faz parte da cultura popular. Novas roupagens, então, são bem vindas. No novo musical da Aventura Entretenimento, com concepção e direção de Guilherme Leme Garcia (de “Um Pai – Puzzle”), os personagens manifestam suas alegrias, dores e angústias cantando o repertório da cantora brasileira – incluindo até seu material mais recente, como o segundo álbum dos Tribalistas. A adaptação e o roteiro musical são de Gustavo Gasparani (de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”) e Eduardo Rieche (de “É Samba na Veia, É Candeia!”).

(Foto: Caio Gallucci)

O casal protagonista é vivido por Bárbara Sut, fruto do projeto Teatro Musicado da UNIRIO e parte do elenco do esquecível “Rio Mais Brasil – O Nosso Musical”, e Thiago Machado, um dos nomes mais destacados de sua geração no teatro musical, tendo atuado em grandes produções como “Rent”, “Mudança de Hábito”, “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” e “Mamma Mia!”. Os dois atores estão bem entrosados no palco e conseguem imprimir alguma verossimilhança ao rompante da paixão repentina juvenil (que, para mim, é sempre difícil de comprar, com todo respeito a Shakespeare). Bárbara, especialmente, apresenta um belo trabalho vocal e corporal: é clara a evolução de sua Julieta de menina abobada para mulher corajosa. As músicas de Marisa Monte ficaram lindas em seu timbre e em sua interpretação – bom trabalho também da direção musical de Apollo Nove.

Em tempos em que tanto se fala sobre representatividade, é importante destacar o elenco multirracial escalado por Guilherme Leme Garcia. Ter uma Julieta negra, com dreadlocks no cabelo, é maravilhoso e empoderador. E isso se reflete na escalação dos atores que fazem sua mãe, Kacau Gomes (de “Les Misérables”), e o primo Teobaldo, Pedro Caetano (de “Les Misérables”). Tudo isso é subtexto. Há ainda Ícaro Silva (de “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”) no papel de Mercúcio. A trama de “Romeu e Julieta” se desenrola no século XVI em Verona, na Itália, mas a montagem é em 2018 no Rio de Janeiro, e é importante quebrar qualquer tipo de barreira étnica, na minha opinião. Em 2013, a Broadway também teve seu “Romeu and Juliet” interracial com Orlando Bloom e Condola Rashad (de “A Doll’s House, Part 2”), que ficou em cartaz por cerca de somente três meses ao amargar um público inexpressivo.

Falando sobre o elenco, sobressaem-se ainda Stella Maria Rodrigues (de “Emilinha”) como a ama de Julieta, em atuação consistente e calorosa; Claudio Galvan (de “Forever Young”), na pele do frei que casa os pombinhos; e Saulo Segreto (de “Bilac Vê Estrelas”), como o serviçal dos Capuleto, responsável por discreto humor. Kacau Gomes e Pedro Caetano também apresentam ótimos desempenhos com seus personagens. Contudo, quem eleva seu papel a outra grandeza é Ícaro Silva: sua concepção de Mercúcio, amigo de Romeu que desencadeia a derrocada final, traz exacerbada afetação (até mesmo com caminhadas à lá Beyoncé), que acrescenta uma camada desconhecida ao personagem. A característica gera um questionamento sem propósito no público (Mercúcio é gay? Bi? Por que não? Por que sim? Isso importa?), que só serve para desviar a atenção da trama central. Enquanto Romeu e Julieta vivem seu drama de amor impossível, a meu ver ficou a sutil sugestão (intencional ou não) de algo sexual entre Mercúcio e Benvoglio (Bruno Narchi, de “Cinderella”). A ausência de clareza gera certa inquietação: algo a ser desvendado, mas que não contribui com a história.

(Foto: Michelle Felippelli / Soda Pop)

Na peça de Shakespeare, Romeu e Julieta representam a geração mais jovem das famílias rivais Capuleto e Montéquio. A causa da rixa não é clara, mas os dois clãs estão sempre guerreando, o que leva o príncipe de Verona a decidir punir com a morte o próximo causador de mais uma briga entre eles. Enquanto isso, alienada de qualquer problema externo, Julieta se prepara para conhecer Conde Páris (Diego Luri, de “Shrek – O Musical”), o nobre que está interessado em se casar com ela. Seus pais dão um baile de máscaras para apresentá-los e Romeu, penetra, aparece na festa a fim de encontrar seu crush Rosalina. No entanto, ele e Julieta se apaixonam à primeira vista, esquecendo-se de Rosalina e Páris antes que você possa piscar. No musical, a cena do baile ganha ares de “RuPaul’s Drag Race” e Lady Gaga, onde os figurinos deslumbrantes de João Pimenta se sobressaem a qualquer outro elemento. Nesta parte, os personagens celebram a vida cantando e são apresentadas uma canção seguida da outra, massantemente. Como ainda é o início do espetáculo, passa uma má impressão de “show” e uso abusivo do repertório – o que não se repete posteriormente. A primeira parte do musical, na verdade, é a mais problemática. A primeira cena de guerra de espadas entre os Capuleto e Montéquio é uma enorme confusão, bastante poluída, e se torna difícil acreditar que existe uma coreografia naquele caos. Tudo melhora – e engata – a partir do encontro de Romeu e Julieta: é de uma delicadeza e minúcia sem fim a concepção cênica do enamoramento, na qual se nota a doçura da coreografia de Toni Rodrigues. Diria que é um dos pontos altos do espetáculo.

No geral, os números musicais são bons: o elenco tem um ensemble afiado, que engrandece muitos trechos, como o do casamento secreto dos protagonistas, outra das cenas mais belas da montagem. Ótimo trabalho da direção vocal de Jules Vandystadt. As canções selecionadas para o roteiro musical potencializam o romantismo da história. Declarações de amor e desabafos doloridos se tornam mais saborosos com as músicas de Marisa. Com exceção da cena do baile, que é toda equivocada (Kacau Gomes chega a subir em um pedestal central apenas para fazer um belting no meio de uma música), o repertório selecionado faz sentido e não soa gratuito. As melodias, em sua grande maioria, são respeitadas, sem interesse pelo exagero. Visualmente, os figurinos são impressionantes, com elementos contemporâneos e ostentatórios, em contraste com o cenário insatisfatório de Daniela Thomas, articulado de diferentes maneiras, raramente poético, incapaz de atender todas necessidades dramatúrgicas convincentemente, como se a encenação acontecesse “apesar dele”. Com figurinos tão elaborados, a cenografia rudimentar destoa. A iluminação de Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, porém, dribla essa escassez e consegue transformar o espaço. “Romeu e Julieta” certamente representa alguma evolução com relação aos últimos trabalhos da produtora.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Felipe Panfili / Destak)

Ficha técnica
Concepção e Direção: Guilherme Leme Garcia
Adaptação e roteiro musical: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche
Colaboração Artística: Vera Holtz
Direção Musical: Apollo Nove
Direção vocal: Jules Vandystadt
Coreografia: Toni Rodrigues
Lutas: Renato Rocha
Cenário: Daniela Thomas
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Fernando Torquatto
Desenho de luz: Monique Gardenberg e Adriana Ortiz
Desenho de Som: Carlos Esteves
Desenho gráfico: Victor Hugo
Produção de Elenco: Marcela Altberg
Elenco: Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo) Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.

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SERVIÇO: sex e sáb, 20h; dom, 18h. R$ 50 a R$ 140 (sex) e R$ 50 a R$ 160 (sáb e dom). 120 min. Classificação: livre. Até 27 de maio. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia. Tel: 2533-8799.

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