CríticaEspecial Festival de Curitiba

Crítica: Roque Santeiro

Apresentado no 26º Festival de Curitiba, o musical “Roque Santeiro” utiliza de humor e graciosidade para enfatizar uma importante mensagem política: a criação de personalidades e fatos incríveis como distrações para o povo, desviando a atenção de maracutaias e enriquecimento de governos e empresários. Vale tudo, inclusive sacrificar vidas em nome de um suposto progresso (pessoal). Na história, a pequena cidade Asa Branca cresce ao ganhar um herói de guerra: Cabo Roque, dado como morto, é idolatrado e serve de estímulo para o comércio, o turismo e reformas na região. Prefeito, deputado, padre, pequenos e grandes empreendedores e até uma falsa viúva lucram e movem suas vidas a partir do símbolo. Mas, quinze anos depois, Cabo Roque volta à cidade – e precisa ser silenciado.

(Foto: Annelize Tozetto)

É claro: “Roque Santeiro” foi aquela novela de enorme sucesso da TV Globo, que eternizou Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e Viúva Porcina (Regina Duarte). Mas uma curiosidade é que, na verdade, a história surgiu primeiro como uma peça de teatro de Dias Gomes. Censurada na ditadura, foi adaptada para a televisão pelo autor e entrou para a história. A versão musical, segundo consta, foi deixada escrita pelo próprio Dias Gomes. Na montagem que se vê, com direção de Debora Dubois (de “Rita Lee Mora ao Lado”), há cortes e acréscimos na dramaturgia original, incluindo novas canções, assinadas por Zeca Baleiro – parceiro da diretora em trabalhos no teatro. No palco, Sinhozinho é Jarbas Homem de Mello (de “Chaplin, o Musical”), Viúva Porcina é Lívia Camargo (de “Noel Rosa, o Poeta da Vila e Seus Amores”) e Cabo Roque é Flavio Tolezani (de “Incêndios”). O elenco, com total de 13 atores, traz ótimas interpretações cômicas. Além do trio protagonista, merece destaque o desempenho de Luciana Carnieli (de “Rainhas Do Orinoco”), que vive a dona do bordel da cidade.

A montagem conta com uma estrutura cenográfica fixa e inespecífica, assinada pela própria diretora. São a entrada e saída de objetos que contextualizam cada ambiente da trama – praça, igreja, casa, bordel, etc. – juntamente com a iluminação de Fran Barros, que dá os contornos necessários. Como a luz, figurinos brincam com a paleta de cores, com exceção das personagens beatas, que reafirmam sua falta de alegria na ausência de coloração. É uma produção de médio porte digna, com invocação da literatura de cordel.

O espetáculo, na verdade, se sai melhor no âmbito da comédia do que no musical. Algumas das músicas explicitam desnecessariamente o teor político da peça, empobrecendo a narrativa e subestimando a perspicácia do público. As canções, no geral, são bobas e geram números mornos, com coreografias tão pueris que beiram as colegiais. A direção de movimento de Fabricio Licursi também tem melhores momentos nas cenas não-musicadas. O grande mérito de “Roque Santeiro”, o espetáculo, é alcançar total independência da novela. A música-tema do folhetim televisivo, por exemplo, só aparece no último momento da montagem. É recebida com animação pelo público, sim, mas é importante que a peça não tenha se apoiado em todo esse universo audiovisual imediatamente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Annelize Tozetto)

Ficha técnica
Texto: Dias Gomes.
Direção: Débora Dubois.
Músicas e direção musical: Zeca Baleiro.
Elenco: Cristiano Tomiossi, Dagoberto Feliz, Edson Montenegro, Flávio Tolezani, Giselle Lima, Jarbas Homem de Mello, Lívia Camargo, Luciana Carnieli, Marco França, Mel Lisboa, Nábia Villela, Samuel de Assis, Yael Pecarovich.
Músicos: André Bedurê e Érico Theobaldo.
Assistente de direção e de cenografia: Luis Felipe Correa.
Assistência de direção musical e preparação vocal: Marco França.
Direção de movimento: Fabricio Licursi.
Concepção e desenho de cenário: Débora Dubois.
Confecção e pintura artística de cenário: Márcio Vinicius e André Aires.
Artista plástico esculturas: Paulo Bordhin.
Figurinos: Luciano Ferrari.
Produção de figurinos: Elen Zamith.
Iluminação: Fran Barros.
Desenho de som: André Omote e Guilherme Ramos.
Confecção de adereços e sistema de pétalas: LCR (Luis Carlos Rossi).
Sistema de maquinaria: Jorge e Denis Produções Cenográficas.
Visagismo: Gabriel Weng.
Costura: Maria de Lourdes Oliveira, Janete Ferreira, Josete Viana, Josy Barbosa, Kakau Nogueira, Antônio de L. Junio, Camila Sanches, Maria Lúcia, Maria Aparecida Miyake.
Alfaiataria: Pedro dos Santos, Valmiro Silva Santana, Betto Rigor.
Adereços de figurino: Tetê Ribeiro.
Confecção de calçados: Porto Free.
Operação de luz: Rafael de Sá.
Operação de som: Kleber Marques.
Microfonista: Pollyana Oliveira.
Diretor de cena: Nilton Araujo.
Camareiras: Renata Reis e Sandra Matos.
Produção executiva e administração: Fabrício Síndice e Vanessa Campanari.
Direção de produção: Edinho Rodrigues.
Realização: Brancalyone Produções Artísticas.

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