Crítica: Se Meu Apartamento Falasse – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Se Meu Apartamento Falasse

Depois de muitos adiamentos, a montagem brasileira do musical “Promises, Promises”, com canções de Burt Bacharach, finalmente é uma realidade. Sob cuidados dos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, o espetáculo “Se Meu Apartamento Falasse” está em cartaz no Teatro Bradesco, no Shopping Village Mall, na Barra da Tijuca. O musical é uma adaptação do longa-metragem “The Apartment” (no Brasil, também chamado de “Se Meu Apartamento Falasse”) de Billy Wilder – uma comédia de 1960 que ganhou cinco Oscars, incluindo o de melhor filme. O original da Broadway estreou em 1968, fez mais de 1,2 mil apresentações e recebeu dois Tony Awards. São conquistas que ajudam a entender o que levou uma obra tão machista a ser montada aqui, onde reflexões feministas ganham cada vez mais força. O espetáculo vai na contramão da pauta contemporânea.

(Foto: Leo Aversa)

A história acompanha o contador Chuck Baxter, que trabalha em uma empresa de seguros. Quando os executivos descobrem que ele mora perto do escritório, passam a seduzi-lo com promessas de promoção em troca do empréstimo da chave de seu apartamento por algumas noites. Todos são homens casados, que precisam de lugares discretos para usar de motel com suas amantes, funcionárias do baixo escalão da empresa: secretária, telefonista, enfermeira. Ou seja, são sujeitos aproveitando-se de sua posição hierárquica para fins sexuais. Isto não tem graça. O contexto, os diálogos e a ausência de vozes femininas em cena fazem desse não só um espetáculo masculino, mas machista. Se funcionava nos Estados Unidos no fim dos anos 1960, apresenta-se bastante datado no mundo atual. O texto é repleto de cenas supostamente engraçadas mas que só fazem rir a Donald Trump. Eu, particularmente, considero um contrassenso e um mau gosto colocar tal discurso em um palco de destaque em pleno 2017.

Marcelo Médici (de “Rocky Horror Show”) interpreta Chuck Baxter. O personagem faz o que se chama de “quebrar a quarta parede” diversas vezes, dirigindo-se e confidenciando-se aos espectadores, o que supostamente cria um laço afetivo com a plateia. Aparentemente inseguro no papel, o ator – que se presume ter sido escalado por sua veia cômica mais do que por seu canto comedido – atropelou falas e gaguejou o texto na sessão assistida, compromentendo o desempenho de algumas cenas e abordagens. Em resumo, Médici não salva o caráter cômico do musical nem agrada na interpretação das músicas, mais faladas que cantadas. Quando a trama desenrola para uma vertente mais dramática, a partir do momento em que Chuck descobre que a mulher por quem está apaixonado (a garçonete do refeitório) é a amante de seu chefe, a encenação torna-se confusa. Insistindo em ser engraçada, a direção chega a ser insensível com um tema extremamente delicado, que é uma tentativa de suicídio. Sem spoilers.

Além de Médici, o elenco principal conta com nomes como Malu Rodrigues (de “Beatles Num Céu de Diamantes”), a única voz realmente qualificável para um musical, e Marcos Pasquim (de “Blue Jeans”), que cumpre seu papel apático dignamente: ele só tem uma música. Eles interpretam respectivamente o par romântico e o chefe de Chuck. Há ainda Maria Clara Gueiros (de “Enfim, Nós”), que entra no segundo ato como uma participação especial, Marge MacDougall, personagem avulsa na trama. Na Broadway, as atrizes Marian Mercer e Katie Finneran ganharam o Tony Awards respectivamente em 1969 e 2010 justamente por esse papel de Marge. Aqui no Brasil, Maria Clara Gueiros consegue injetar algum fôlego e graça na encenação, mas não justifica a existência da personagem. No fim, Marge acaba sendo mais um equívoco. No elenco secundário, destacam-se as presenças de André Dias (de “Bilac Vê Estrelas”) e Patrick Amstalden (de “O Musical Mamonas”), ambos com demandas cênicas muito abaixo de seus reconhecidos talentos. Os dois mereciam melhores oportunidades. A escalação do elenco é problemática: por que botar Médici e Pasquim cantando tão singelamente, se há Dias e Amastalden disponíveis para darem show? Parece uma decisão mercadológica em detrimento do artístico. Fora isso, Antonio Fragoso (de “Apesar de Você”), Fernando Caruso (de “Solo Junto”), Renato Rabelo (de “E Aí, Comeu?”) e Ruben Gabira (de “Priscilla, a Rainha do Deserto”) formam o coeso grupo de executivos toscos. A atriz Karen Junqueira (de “Nine – Um Musical Felliniano”), apesar do papel medíocre de secretária do chefe descartada como amante, tem uma boa cena com um ponto de virada potente, o qual ela desempenha belamente. Os demais componentes compõe o ensemble.

O espetáculo é enfadonho. Uma das melhores partes é a abertura, com uma apresentação instrumental da orquestra de oito músicos, regida pelo diretor musical Marcelo Castro. Ótima execução para Bacharach. As versões em português de Claudio Botelho, no entanto, não são tão maravilhosas desta vez. Mas a lista de canções do musical traz alguns títulos famosos, o que sempre agrada, como “I Say a Little Prayer For You” (aqui “A Hora de Partir”) e “I’ll Never Fall In Love Again” (“Eu Juro Que Não Quero Mais”), gravados por Dionne Warwick e aqui graciosamente cantados por Malu Rodrigues. Outro bom número musical é “Christmas Day” (“É Natal”), apresentado pelo ensemble feminino: é uma das únicas partes em que a coreografia criada por Alonso Barros é notada. Um espetáculo só com as canções “in concert” seria mais valioso.

A montagem não traz elementos impressionantes. Os cenários de Rogério Falcão parecem reaproveitados de “Como Vencer Na Vida Sem Fazer Força” (2013), outro musical sobre o universo corporativo montado por Möeller e Botelho. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros abusa de holofotes brancos seguindo os atores, em contraste com um palco mais escuro. Por sua vez, os figurinos, assinados por Marcelo Marques, invocam a moda sofisticada dos anos 1960, com tons sóbrios: são pontos positivos. Mas, infelizmente, “Se Meu Apartamento Falasse” resulta em um musical totalmente dispensável e dissonante na programação carioca.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Leo Aversa)

Ficha técnica
Um espetáculo de CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO

Texto de NEIL SIMON
Baseado no roteiro do filme THE APARTMENT de BILLY WILDER e I.A.L. DIAMOND

Musica de BURT BACHARACH

Letras de HAL DAVID
Produzido originalmente da Broadway por DAVID MERRICK

Com MARCELO MEDICI, MALU RODRIGUES, MARCOS PASQUIM, MARIA CLARA GUEIROS, FERNANDO CARUSO, ANDRÉ DIAS, ANTONIO FRAGOSO, RENATO RABELO, RUBEN GABIRA, PATRICK AMSTALDEN, KAREN JUNQUEIRA, JULLIE, CARU TRUZZI, LOLA FANUCCHI, PATRICIA ATHAYDE, DUDA RAMOS, MARIANNA ALEXANDRE, MAYRA VERAS e YASMIN LIMA.

CHARLES MÖELLER
Direção

CLAUDIO BOTELHO
Versão Brasileira

MARCELO CASTRO
Direção Musical, Arranjos Adicionais e Regência

ALONSO BARROS
Coreografia

CHARLES MÖELLER
Direção de Movimento

ROGÉRIO FALCÃO
Cenário

MARCELO MARQUES
Figurinos

ADEMIR MORAES JR.
Design de Som

PAULO CESAR MEDEIROS
Iluminação

BETO CARRAMANHOS
Visagismo

TINA SALLES
Coordenação Artística

CARLA REIS
Produção Executiva

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SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 18h e 21h; dom, 18h. R$ 50 a R$ 150. 165 min. Classificação: 12 anos. Até 14 de janeiro. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca. Tel: 3431-0100.

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