Crítica: Senhora dos Afogados – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Senhora dos Afogados

Depois de “Dorotéia”, montado há dois anos, o diretor Jorge Farjalla encena “Senhora dos Afogados”, outra peça mítica de Nelson Rodrigues (1912-1980). Toda a comunicação do espetáculo troca o crédito prático “direção: Jorge Farjalla” pelas palavras “na visão de Jorge Farjalla” para se referir à montagem – indicando que ele faz algo mais do que simplesmente dirigir. De fato, ele imprime sua marca na encenação, transpondo a trama para o Recife e propondo ao elenco que fale com sotaque. Por ser um espetáculo ensaiado, produzido e apresentado no sudeste, o acento diferenciado traz subtexto – ainda que um ruído. O diretor também explora explicitamente ícones religiosos, como a crucificação de Jesus Cristo e um canto para Iemanjá, traçando um paralelo com a ação dos personagens e entregando mais material que o proposto pelo dramaturgo.

(Foto: Carol Beiriz)

“Senhora dos Afogados” é uma peça que se passa em dois dias e acompanha a tragédia familiar dos Drummond, conhecidos por sua fidelidade ao longo das gerações. Clarinha se torna a segunda filha do casal Eduarda e Misael a morrer afogada, o que deixa o clã atento para sua sina: o que atrai as mulheres da família ao mar? Sem corpo para velar e chorar, eles são obrigados a lidar com a cidade chorando o 19º aniversário de morte de uma prostituta, supostamente assassinada por Misael no dia de seu casamento com Eduarda. Pouco a pouco, segredos são revelados e máscaras caem, com a filha Moema ganhando cada vez mais destaque, ao ser a única sobrevivente ao lado do irmão Paulo.

A escalação do elenco do espetáculo é bastante equivocada, dado o realismo predominante na montagem. Leticia Birkheuer (de “Mercado Amoroso”) faz Paulo, personagem secundário, mas importante. Não há nada que justifique a atriz ali – nem boas intenções. Essa escolha resulta avulsa no conjunto e não alcança resultados efetivos. Positivos, certamente não. Falta estofo para tal missão. Karen Junqueira (de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”), um mulherão, também não tem o perfil necessário para a protagonista Moema, uma adolescente com complexo de Édipo. Além disso, a atriz não encontra em si os recursos necessários para as nuances da personagem ao longo da trama, traçando uma representação linear e regular. O elenco, com raras exceções, trabalha com tom estridente, com muitos gritos e excessos, o que parece um caminho fácil. Alexia Dechamps (de “Dorotéia”), a mãe, Nadia Bambirra (de “Antes do Café”), a sogra, Joao Vitti (de “De Artista e Louco, Todo Mundo Tem um Pouco”), o pai, e Du Machado (de “Dorotéia”), um dos vizinhos, apresentam boas composições, em especial este último. Francisco Vitti (de “Jovem Estudante Procura”), como o noivo de Moema e amante de Eduarda, personifica o caráter exacerbado da encenação.

Os figurinos – assinados por Farjalla e Ana Castilho – dão a cara do espetáculo e sintetizam a visão do encenador. As roupas ultrapassam o caráter enlutado: são sombrias, góticas, caráter reforçado pelo desenho de luz obscuro de Vladimir Freire e Ana Castilho. Contrastam com a simbologia do farol, central no intrigante cenário de José Dias, e com a temática da peça, que envolve prostituição, infidelidade e incesto. Os figurinos não são óbvios e aprofundam questões – sobretudo em contraponto às eventuais nudezes. O visagismo de Vavá Torres opta por muito cabelo, tranças e barbas volumosas para todo o elenco, como uma unidade. Só destoa justamente a caracterização de Letícia Birkheur, a única com inversão de gênero. O que ela traz no rosto pode ser tanto sujeira quanto uma barba patética, como aquelas feitas para festas juninas. Não colabora em nada.

A “visão de Jorge Farjalla” acrescenta muita informação a uma peça que já é longa – dividida em três atos. Algumas propostas são desnecessárias e pretensiosas, ainda que possam ser interessantes, como o excesso da simbologia sagrada ou Paulo interpretado por uma mulher com atuação pouco convincente e caracterização duvidosa. Certas escolhas distraem do fio narrativo e fadigam o espectador, com tanto material sobressalente que o texto em si parece se arrastar.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Edson Lopes Jr)

Ficha técnica

Texto: Nelson Rodrigues

Direção e encenação: Jorge Farjalla

Elenco: Alexia Dechamps, Joao Vitti, Karen Junqueira, Rafael Vitti, Francisco Vitti, Letícia Birkheuer, Nadia Bambirra, Jaqueline Farias e Du Machado

Dramaturgia: Jorge Farjalla

Direção musical e trilha original: João Paulo Mendonça

Direção de arte e espaço cênico: José Dias

Figurinos e adereços: Jorge Farjalla e Ana Castilho

Desenho de Luz: Vladimir Freire e Jacson Inácio

Preparação Corporal: Jorge Farjalla

Maquiagem e visagismo: Vavá Torres

Assistente de direção: Raphaela Tafuri

Preparação vocal: Patrícia Maia

Design Gráfico: Kalulu Design & Comunicação e Letícia Andrade

Direção de Produção: Lu Klein

_____
SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60. 90 min. Classificação: 16 anos. Até 25 de novembro. Teatro XP Investimentos – Jockey Club – Avenida Bartolomeu Mitre, 1110 – Leblon. Tel: 3807-1110.

Comentários

comments