CríticaEspecial Festival de Curitiba

Crítica: Sísifo

Gregorio Duvivier (de “Portátil”) aparece na ponta de baixo de uma rampa inclinada. Pede que o público imagine que ela é uma pista de dança que ele tem que cruzar para chegar até o bar, na ponta de cima. Cruza. Se joga. Volta e faz tudo de novo. E de novo. E de novo. E de novo, a cada vez adicionando elementos novos à cena, que se encorpa e se complexifica. Essa é a introdução de “Sísifo”, monólogo escrito por ele com Vinicius Calderoni (de “Elza”), que também assina a direção.

(Foto: Lina Sumizono)

A repetição tem explicação. “Sísifo”, do título, é o nome da figura mitológica condenada a empurrar uma pedra montanha acima eternamente. Sempre que subia com a pedra, ela tornava a rolar para baixo. Gregorio e Vinicius entendem Sísifo como o primeiro gif da história. Um meme mitológico. “Sísifo”, o espetáculo, busca transpor para o palco a linguagem do meme e do gif. A rampa é uma alegoria sobre a qual eles colocam todo tipo de mensagem. Sabe o Chapolin Sincero? A ideia é a mesma: uma imagem com múltiplas anotações – uma distinta a cada aparição. Já o gif se manifesta no palco pela repetição das subidas e saltos de Gregorio, sempre em contextos diferentes.

O texto retrata angústias e clichês humanos e faz reflexões políticas (apartidárias), responsáveis por arrancar palmas em cena aberta na sessão de estreia, no Festival de Curitiba. A premissa da peça é boa, mas há algumas amarras nela. A introdução, por exemplo, é cansativa. Algumas sequências de quadros, sobretudo no início do espetáculo, entediam. “Sísifo” não é hilário e esse é mais um erro de quem espera isso, pelo histórico do Gregorio, do que do projeto em si. Obviamente, é cômico, tem humor, mas na maioria das vezes isso se manifesta em ironias e deboches sobre situações extremamente dramáticas. A cena “Metáfora do Brasil contemporâneo”, por exemplo, é ao mesmo tempo engraçada e deprimente. Ela sintetiza “Sísifo”. A história cíclica do Brasil, do mundo, e da política como um todo, é tudo menos divertida. Por outro lado, não nos resta nada além de rir de nós mesmos e de nosso estado. “Sísifo” tem uma dose forte de melancolia em seu humor.

Em cima da rampa, que de tempos em tempos é reposicionada por um contrarregra no palco, Gregorio Duvivier vive muitos personagens, sem dificuldades para convencer a plateia de que é alguém diferente a cada cena. O ator dá conta das variações sem auxílio de trocas de figurinos para isso (o figurino dele é uma roupa esportiva assinada por Fause Haten, com cotoveleiras e joelheiras, que nada tem a ver com as situações dramatúrgicas em si, mas dão mobilidade e segurança ao ator). Destaco as cenas do Moisés guiando o povo a mando de Deus, do motorista de Uber filosofando sobre o destino (dele e do passageiro), da empreendedora que deixou de “fazer brigadeiro” pra fora pra “fazer sentido” sob demanda, do suicida que faz uma live para se despedir, e principalmente do museu das vergonhas constantes.

Há muitos bons momentos na peça. À montagem em si, falta lapidação (tempo para tal, não faltará, pois a primeira temporada só ocorrerá em junho, em São Paulo). O cenário (de André Cortez), sintetizado na rampa, é a base de tudo, mas suas possibilidades são limitadas. Como dito, frequentemente um contrarregra aparece para mudar a posição da rampa no palco, mas isso em geral não implica em nada realmente novo para a dinâmica cênica. A iluminação (de Wagner Antônio), que poderia fazer a diferença, não faz, então a plateia rapidamente entende a engenharia cênica e isso causa algum desgaste, pela previsibilidade.

O imprevisível é sempre o conteúdo. Quem será e sobre o que falará Gregorio na próxima cena? Essa é uma expectativa boa. “Sísifo” resulta num bom espetáculo, potente para fazer pensar sobre vários assuntos, sobretudo nossa inércia enquanto humanidade.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Lina Sumizono)

Ficha técnica
Elenco: Gregorio Duvivier
Texto : Vinícius Calderoni e Gregorio Duvivier
Direção: Vinícius Calderoni
Direção de Produção: Andréa Alves
Cenógrafo: André Cortez
Iluminador : Wagner Antônio
Figurinista : Fause Haten
Diretora musical : Mariá Portugal
Direção de movimento : Fabrício Licursi
Coordenação de produção: Leila Maria Moreno
Assistente de direção : Mayara Constantino
Design Gráfico: Beto Martins
Fotografia: Pedro Benevides

O crítico viajou a convite do Festival de Curitiba.

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