Especial Festival de Curitiba

Crítica: Sleep Mode

CURITIBA – Apresentado no Festival de Curitiba como parte de Fringe, a mostra paralela que abriga todos os inscritos, o espetáculo santista “Sleep Mode” pôde ser visto na Casa Hoffman no método “pague quanto quiser”. Trata-se de um solo apresentado pelo ator Marcus Di Bello, resultado de uma pesquisa sobre a sociedade pautada no consumo e na produtividade. Livros como “24/7 – Capitalismo Tardio e Os Fins do Sono”, de Jonathan Crary, e “Sociedade do Cansaço”,de Byung-Chul Han, são referências para o trabalho. A ideia é que as pessoas hoje em dia ficam de prontidão o tempo inteiro, assim como o “sleep mode” dos aparelhos eletrônicos, e isso repercute em problemas do sono e na qualidade de vida. Dorme-se em vigília, pronto para atender à demanda do celular ou qualquer urgência ou emergência.

(Foto: Nirley Sena)

É um tema contemporâneo. Eu assisti ao espetáculo por acaso, justamente nessa busca intensa por produtividade: uma outra atração havia caído na minha agenda e eu queria aproveitar aquelas horas. Entrei na Casa Hoffman e pude ver um cenário singelo, com abajures e luminárias, um laptop passando uma cena de show de Tim Maia, um despertador, objetos assim, domésticos. O espaço cênico era em formato de corredor, com duas plateias frente a frente, uma de cada lado. Parecia uma experiência promissora.

Com 45 minutos de duração, a encenação foi um tanto decepcionante no que concerne à capacidade de comunicação. Dividido em fragmentos sobre a cobrança para otimização do tempo e métodos para conseguir dormir bem, o espetáculo nem sempre é claro no que quer dizer. A direção de Dario Félix e a atuação de Marcus Di Bello concentram-se mais em um trabalho sobre o corpo, por vezes esquizofrênico, com uma partitura física que se aproxima da dança contemporânea. O espetáculo, inclusive, tem poucas falas e a ficha técnica não traz nenhum nome relativo à dramaturgia ou texto, o que não é um problema, caso o que se vê fizesse sentido ou afetasse o espectador de alguma maneira. Em vários momentos, movimentações inexplicáveis parecem gratuitas – por mais que não sejam, e acredito que não sejam, mas não provam o contrário.

Pontos altos são a iluminação (de Marcelo Marinho de Melo), com os objetos cênicos que são acesos e apagados ao longo do espetáculo, e a trilha sonora, com um mash-up cômico de músicas e áudios que tangenciam o tema. O problema é que a apresentação foi invadida diversas vezes pelo som da rua. Como era domingo, havia a tradicional feirinha e músicos de rua tocando instrumentos bem na porta. Então, ouvia-se a música externa, além da interna, e isso atrapalhava a atenção e o envolvimento com o solo teatral. Ainda assim, isso foi o de menos. “Sleep Mode” deixou a desejar para mim.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica
Direção: Dario Félix
Elenco: Marcus Di Bello
Iluminador: Marcelo Marinho De Melo

*O crítico viajou a convite do Festival de Curitiba.

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