Crítica: Só Por Hoje – O Musical – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Só Por Hoje – O Musical

Um em cada 20 habitantes do planeta Terra consomem drogas ilícitas, aponta pesquisa da University of South Wales (Sydney, Austrália). Um número alarmante, com certeza. Álcool e nicotina ficam de fora da estatística. De acordo com matéria da revista Istoé, álcool mata nove vezes mais que drogas ilícitas. Segundo matéria da Carta Capital, álcool mata mais do que AIDS e violência. Para piorar, pesquisa do IBGE divulgada em 2016 mostrou que aumentou o acesso de adolescentes menores de idade a álcool e drogas no Brasil. É certamente um problema de saúde pública, ainda discutido timidamente. Diante disso, o musical teatral “Só Por Hoje”, recém-estreado no Teatro Serrador, já tem seu mérito pela temática: o espetáculo conta a história de uma cantora alcoólatra, internada pelo ex-marido em uma clínica de reabilitação, onde constata que a dependência química é bastante democrática e afeta pessoas de diferentes idades, sexos, etnias, ideologias e classes sociais. A peça tem texto e letras de músicas de Tiago Rocha, com direção de Reiner Tenente (de “Ordinary Days”), idealizador do projeto, e músicas e direção musical de João Bittencourt.

(Foto: Bernardo Santos)

O musical é resultado de um ano e meio de pesquisa de dramaturgia e canções autorais na Escola SESC e mais três meses de ensaios em um curso de prática de montagem do CEFTEM. A história se passa em diferentes tempos. O presente é a recuperação de Norma, a protagonista, na clínica de reabilitação, onde todos são artistas. O texto, no entanto, é entremeado por flashbacks e delírios que mostram a relação conturbada da cantora com a filha de dez anos e o vexame que ela deu na final de um festival, onde era a favorita para vencer. Há ainda o futuro, incerto para todos que estão na clínica: para a Norma, a esperança de recuperar a guarda da filha. A história é de ficção, livremente inspirada em fatos reais: Norma é o nome da mãe do diretor, também adicta.

A personagem é interpretada por Thainá Gallo (de “Cássia Eller – O Musical”), que contracena com dois elencos diferentes, dependendo da sessão. O trabalho dela é difícil: o papel é denso, cheio de nuances, e com um amadurecimento árduo no fio narrativo. Thainá apresenta boa atuação, no palco quase em tempo integral. Algumas cenas são realmente muito fortes, e exigem maturidade da jovem atriz. Na sessão assistida, merecem elogios também Ticiana Saldanha pelo lindo canto e construção de sua Drª. Suzana; Flora Menezes (de “O Mambembe”, da UNIRIO) e Kaique Lopes (de “Lua de Cristal – O Musical”, da UNIRIO) pelo bom jogo cômico como os enfermeiros Rita e Albert; e Kau Swaelen pelo preciosismo da voz. O elenco tem desníveis acentuados de qualidade de interpretação, mas o conjunto funciona bem. As soluções da direção são inteligentes ao trabalhar esteticamente com grupos em cena, fortalecendo a unidade. As coreografias de Clara da Costa, por vezes verdadeiros desenhos sutis mas poderosos, colaboram muito.

Problemas técnicos com relação ao som marcaram a apresentação do início ao fim, prejudicando mais cenas do que o razoável. A intensidade da banda por vezes sufoca o canto dos atores, comprometendo o entendimento das letras inéditas – importantes para a dramaturgia. Essa parte merece mais atenção por parte da equipe técnica. As canções, por outro lado, são um verdadeiro mérito desta produção: genuinamente integradas à trama, por serem criadas especialmente para ela, algo que ainda pouco se vê na cena carioca. Alguns números são emocionantes, principalmente no segundo ato. Quem tem histórico de adictos na família ou no círculo de amigos dificilmente não é afetado. “Só Por Hoje” tem um material potente no palco, sem ser didático ou moralista. É sensível e emocionante. Coloca o espectador em uma posição de compreensão e compadecimento com o adicto.

A cenografia de Silas Pinto e Fernanda Correia é elementar, marcada por combinações e variações de uso de cadeiras e mesa. Os figurinos de Renna Matos pouco colaboram para os contrastes entre os pacientes da clínica ou entre mãe e filha, uniformizando-os. A iluminação de Luiz Paulo Neném facilita a compreensão do que é realidade, delírio, passado, vida e show. No entanto, a sensibilidade da dramaturgia e a força do tema central suplantam aspectos cênicos. “Só Por Hoje” é necessário, e para todos os públicos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica
Texto e letras originais: Tiago Rocha
Direção: Reiner Tenente
Co-direção: Fabiana Tolentino
Direção Musical, músicas originais e arranjos: João Bittencourt
Elenco: Ana Elisa Schumacher, Ana Rosa Nery, André Guedes, Amanda Falconi, Caio Lisboa, Camila Matoso, Daniel Haidar, Fabio Cadorin, Fernando Leão, Flavio Fusco, Flora Menezes, Gabriela Tavares, Gabriella Levaskevicius, Hamilton Dias, Isadora Guenka Campolina, João Castro, Jordan Cardoso, Kaique Lopes, Karina Swaelen, Katia Oliveira, Libi Maurey, Marianna Alexandre, Milene Cauzin, Murici Lima, Nando Brandão, Rafael Chapouto, Tatiana Santorelli, Tecca Ferreira, Thainá Gallo, Ticiana Saldanha, Tuca Muniz, Wilson Granja.
Banda: Miguel Schönmann, Gabriela Alckmim, Miguel Mendes, Pedro Paulo dos Santos, Mailson Teles, Sidney Herszage, Bala Bala, Isadora Machdo, Zazá, Miza, Davi Santos.
Iluminação: Luiz Paulo Neném
Coreografias: Clara da Costa
Figurino: Renna Matos
Cenário: Silas Pinto e Fernanda Correia
Orientação Artística: João Fonseca
Realização: CEFTEM
Assistente de direção: Anderson Rosa
Assistente de coreografia: Bella Mac
Assistente de dramaturgia: Marcelo Albuquerque
Coordenação pedagógica: Reiner Tenente
Operação de luz: Fernanda Mattos
Microfonista: Thiago Bezerra e Allan de Souza
Sound designer e operação de som: Tiago Silva
Vídeo: Henrique Jardim e Jordan
Direção de produção: Reiner Tenente, Joana Mendes, Gabriel Querino e Gabriela Tavares
Produção executiva: Gabriela Tavares e Gabriel Querino
Assistentes de produção: Tecca Ferreira, João de Castro, Thainá Gallo, Flávio Fusco, Caio Lisboa, Mariana Braga e elenco.
Fotos do programa: Bernardo Santos
Programação visual: Leticia Andrade

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h30. R$ 40. 140 min. Classificação: 14 anos. Até 27 de maio. Teatro Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.

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