Crítica

Crítica: Solitárias

Depoimentos de mulheres torturadas no período da ditadura militar, registrados na Comissão da Verdade do Rio (CEV-RIO), são a inspiração para o espetáculo “Solitárias”, monólogo apresentado pela atriz Carolina Caju (de “UMDOUM”). A encenação no Sesc Tijuca tem ainda um grande significado: na mesma rua, está o 6º Batalhão da Polícia do Exército, onde ficava o “Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna” (DOI-CODI), local de tortura de muitas dessas mulheres. É uma informação difícil de ignorar ao se assistir ao espetáculo documental.

(Foto: Divulgação)

A peça é assinada por Clarisse Zavros e questiona a pouca visibilidade do relatório da CEV-RIO, publicado no fim de 2015. A montagem apresenta-se, então, como uma compensação ao trabalho de dois anos e oito meses da comissão. Os depoimentos divulgados revelam arbitrariedades do governo militar e graves violações de direitos humanos: os detalhes são mesmo perturbadores. Chocam. O texto teatral, no entanto, deixa escapar a oportunidade de humanizar os dados do relatório tão histórico quanto atrasado. A peça resulta muito descritiva, restringindo o trabalho da atriz ao da porta-voz das informações. Na ânsia de explorar o máximo possível dos documentos, a dramaturgia não verticaliza, não aprofunda, e termina superficial em tudo que mostra, o que é uma pena. Base de tudo, o texto não é bom. A autora não conseguiu articular teatralmente o material que tinha à sua disposição.

Na maior parte do tempo, a encenação dirigida por Douglas Resende não diferencia muito de uma palestra. A montagem utiliza de projeções de vídeos de mulheres torturadas relatando suas experiências – entre elas a cineasta Lúcia Murat – como ilustrações do que o texto diz. São os raros momentos em que se singulariza histórias. No palco, a atriz dá aula em tom de protesto, traçando um panorama geral: onde ocorriam as torturas, como eram feitas, como isso se relaciona com os dias atuais, etc. Em um esforço de dar vida ao texto informativo, Douglas recorre aos vídeos, a uma direção agressiva, à interação com a plateia, à explicitação da presença mediante o corpo nu, a cenas de cânticos da atriz, e conta com uma iluminação mais ou menos criativa, assinada por Ana Luzia Molinari de Simoni. São muitas ações para 50 minutos de monólogo.

A estética do espetáculo não é clara em sua comunicação. Carolina Caju veste um figurino à la Lara Croft (assinado por Carla Costa) e apresenta um visagismo carregado, que não parece ter sido pensado e não se justifica quando ela realmente interpreta algum personagem. Por outro lado, os adereços que ela ocasionalmente coloca são satisfatórios e fazem a diferença. A cenografia, por sua vez, pode ser descrita como básica mas eficaz: junto com o desenho de luz, transforma o pequeno espaço a seu favor. O trabalho como um todo parece altamente bem intencionado, porém repleto de acidentes de percurso. Poderia ter sido um grande espetáculo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)

Ficha Técnica
Dramaturgia: Clarisse Zarvos
Colaboração: Daniele Avila Small
Atuação: Carolina Caju
Direção: Douglas Resende
Assistente de Direção: Kethellen Cajueiro
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Cenografia: Paloma Dantas
Figurino: Carla Costa
Trilha Sonora: Natalia Carrera
Programação Visual: Jefferson Rib
Fotografia e Mídias Sociais: Rodrigo Menezes
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Produção: Suma Filmes e Pé de Vento Produções
Produção Executiva: Bia Medeiros
Documentação: Suma Filmes

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SERVIÇO: sex a dom, 19h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 50 min. Classificação: 16 anos. Até 6 de maio. Sesc Tijuca – Teatro II – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 3238-2139.

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